Quando um único componente representa até 60% do custo de um produto, sua escassez não é apenas um problema industrial — é uma ruptura social. Os chips de memória, nervos silenciosos de celulares e laptops, estão em falta em escala global, e a previsão é de que o pior ainda está por vir: 2027 se anuncia como o ano mais crítico para a oferta, segundo os próprios fabricantes. O que começou como uma turbulência de cadeia produtiva revela, aos poucos, uma questão mais profunda sobre quem terá acesso à tecnologia básica e quem ficará de fora.
Fabricantes se preparam para escassez de memória que pode durar até 2027
Se você não tiver alocação, está fora do jogo de qualquer maneira
Por que exatamente os chips de memória ficaram tão escassos? Parece que a indústria deveria ter visto isso vindo.
A demanda por chips disparou — inteligência artificial, data centers, smartphones, tudo ao mesmo tempo. As fábricas não conseguem acompanhar. E quando você tem um gargalo assim, os preços explodem e as alocações ficam apertadas.
Mas espera — o SK Hynix disse que 2027 será o pior ano. Isso significa que agora está melhorando? Porque a Jolla disse que o volume se mantém estável desde março.
Está melhorando em comparação com o primeiro trimestre, quando os preços subiram 93%. Mas ainda está longe de normal. A Jolla espera normalização apenas em 2028.
E quem sofre com isso?
Os consumidores de telefones baratos. Quando a produção de um celular básico se torna antieconômica, ele sai do mercado. Desaparece.
Mas como você sabe que é antieconômico? Isso é uma estimativa da Counterpoint ou um número real que os fabricantes confirmaram?
A Counterpoint previu uma queda de 13,9% nas remessas este ano. Mas é uma previsão, não um resultado confirmado.
E esses fabricantes independentes — Fairphone, Jolla, Framework — eles estão conseguindo se adaptar?
Estão redesenhando produtos. A Jolla criou placas-mãe alternativas para usar chips discretos em vez de combinados. A Framework tornou a memória modular. Mas é uma solução criativa, não uma solução real para a escassez.
E quanto às falsificações? A Jolla está testando chips para detectar peças recondicionadas. Isso sugere que o mercado cinzento está crescendo.
Exatamente. Quando os preços sobem, os vendedores acompanham com peças falsas. É um sintoma da escassez.
Então até 2027 a gente fica assim?
Até 2027, sim. E 2027 será ainda pior, segundo o SK Hynix.
The Pulse
- A escassez de chips de memória — que podem responder por 60% do custo de um celular — está travando a produção de fabricantes independentes ao redor do mundo, sem previsão de alívio antes de 2028.
- As remessas globais de smartphones devem cair 13,9% este ano, atingindo 1,08 bilhão de unidades — o maior declínio anual já registrado —, tornando inviável economicamente a fabricação de aparelhos básicos.
- No desespero por garantir suprimentos, fabricantes como a Framework assinam pedidos irrevogáveis sem conhecer preço, prazo ou volume, enquanto a Jolla testa lotes inteiros para detectar chips falsificados infiltrados no mercado.
- Empresas redesenham produtos do zero — placas-mãe com variantes intercambiáveis, memória modular, reaproveitamento de chips usados — para sobreviver a um mercado onde a disponibilidade vale mais do que o preço.
- Os consumidores de dispositivos de entrada são os mais vulneráveis: com a produção de celulares baratos se tornando antieconômica, as opções somem das prateleiras e os preços sobem, transformando uma crise de oferta em uma crise de acesso.
Quando um único componente representa até 60% do custo de um produto, sua escassez não é apenas um problema industrial — é uma ruptura social. Os chips de memória, nervos silenciosos de celulares e laptops, estão em falta em escala global, e a previsão é de que o pior ainda está por vir: 2027 se anuncia como o ano mais crítico para a oferta, segundo os próprios fabricantes. O que começou como uma turbulência de cadeia produtiva revela, aos poucos, uma questão mais profunda sobre quem terá acesso à tecnologia básica e quem ficará de fora.
Os chips de memória sempre foram peças centrais na fabricação de celulares e laptops, mas nunca pesaram tanto quanto agora. Representando até 60% do custo de um smartphone, eles deixaram de ser um componente entre muitos para se tornar o componente — e sua escassez está paralisando fabricantes independentes que não têm o poder de barganha das grandes corporações.
A gravidade do cenário foi resumida por Raymond van Eck, da Fairphone: sem alocação de chips, você simplesmente está fora do jogo. O CEO da SK Hynix foi ainda mais direto ao afirmar que 2027 será o pior ano da história do setor em termos de oferta, com a demanda superando a capacidade de produção até 2030. Os números já aparecem nas prateleiras: a Counterpoint Research prevê queda de 13,9% nas remessas de smartphones este ano — o maior declínio anual registrado —, puxada pela inviabilidade econômica de produzir aparelhos básicos.
Há sinais tímidos de estabilização. A TrendForce projeta aumento de 13% a 18% nos preços de contratos de memória neste trimestre, bem abaixo dos aumentos de quase 100% do início do ano. A Jolla observou que os volumes de memória atingiram um pico no final de março e se mantêm estáveis desde então — mas seu CEO, Sami Pienimäki, só espera normalização a partir de 2028.
Para sobreviver, as empresas estão reinventando seus processos. A Jolla projetou variantes de placa-mãe para trocar chips conforme a disponibilidade. A Framework tornou a memória modular desde o início, permitindo o reaproveitamento de chips de máquinas antigas. Mas a pressão também abriu espaço para falsificações: com preços em alta, peças recondicionadas passam a circular como novas, e a Jolla agora realiza testes de estresse em cada lote recebido para detectar fraudes.
No centro de tudo estão os consumidores de menor renda, os mais expostos a essa crise. Quando fabricar um celular barato deixa de ser lucrativo, esses aparelhos desaparecem. Os preços sobem, as opções encolhem, e o que era um problema de cadeia produtiva se converte em uma questão de desigualdade no acesso à tecnologia. Até 2027, essa realidade tende a se aprofundar.
Os chips de memória viraram o gargalo que ninguém consegue contornar. Eles representam até 60% do custo de um celular — não é um componente entre muitos, é o componente — e quando faltam, toda a cadeia de produção trava. Fabricantes independentes de telefones e laptops estão agora redesenhando produtos inteiros, testando componentes para detectar peças falsificadas e repassando custos aos consumidores, tudo porque a escassez de memória que esperavam fosse passageira deve durar até 2027.
A situação é tão apertada que a disponibilidade virou mais importante que o preço. Raymond van Eck, executivo da Fairphone, fabricante holandesa de telefones reparáveis, resumiu assim: se você não conseguir alocação de chips, está fora do jogo. Não importa quanto dinheiro você tenha ou quanto esteja disposto a pagar — se não há chips para vender, você não vende. Em julho, o CEO da SK Hynix, uma das maiores fabricantes de memória do mundo, foi ainda mais direto: 2027 será o pior ano da história do setor em termos de oferta. A demanda vai continuar superando a capacidade de produção até 2030.
Os números refletem o impacto real nas prateleiras. A Counterpoint Research previu em junho que as remessas de smartphones cairiam 13,9% este ano, chegando a 1,08 bilhão de unidades — o maior declínio anual já registrado. A razão é simples e brutal: os custos de memória tornaram antieconômica a produção de telefones básicos, aqueles que a maioria das pessoas compra. Os fabricantes não conseguem fazer lucro vendendo um celular barato quando o chip de memória custa tanto.
Há sinais de que a pressão está diminuindo, mas não o suficiente. A TrendForce prevê um aumento de 13% a 18% nos preços dos contratos de memória volátil convencional neste trimestre — uma queda significativa comparada aos aumentos de 93% a 98% do primeiro trimestre. A Jolla, fabricante finlandesa fundada por ex-engenheiros da Nokia, observou que o volume combinado de armazenamento e memória DRAM atingiu o pico no final de março e se mantém nesse patamar desde então. Sami Pienimäki, CEO da Jolla, disse estar feliz com a estabilização, mas espera que o fornecimento se normalize apenas a partir de 2028.
O desespero dos fabricantes ficou evidente no final do ano passado, quando todos tentaram garantir o máximo de suprimentos e estoque possível o mais rápido possível, agravando ainda mais a escassez. A Framework, fabricante americana de laptops reparáveis, não consegue manter estoque e faz pedidos irrevogáveis com bastante antecedência — sem saber o preço final, o prazo de entrega ou o volume que receberá. É um jogo de cegos em que você assina um cheque em branco.
Para sobreviver, os fabricantes estão redesenhando produtos do zero. A Jolla projetou duas variantes de placa-mãe para poder trocar chips combinados por componentes discretos, oferecendo mais flexibilidade. A Framework tornou a memória modular desde o início, permitindo que clientes usem chips reaproveitados de máquinas antigas — uma solução criativa que estende a vida útil dos produtos e reduz a dependência de novos chips. Mas há um lado sombrio: onde os preços disparam, os vendedores acompanham a tendência com peças recondicionadas revendidas como novas. A Jolla agora realiza testes de estresse em amostras de cada lote recebido para detectar falsificações.
O que está em jogo é o acesso à tecnologia básica. Os consumidores de dispositivos de entrada — aqueles que não podem pagar pelos modelos premium — são os mais afetados. Quando a produção de telefones baratos se torna antieconômica, eles simplesmente desaparecem das prateleiras. Os preços sobem. As opções diminuem. E a escassez que começou como um problema de oferta se torna um problema de desigualdade. Até 2027, essa realidade vai pesar cada vez mais.
Notable Quotes
Se você não tiver alocação, está fora do jogo de qualquer maneira— Raymond van Eck, CEO da Fairphone
2027 será o pior ano da história do setor em termos de oferta— CEO da SK Hynix