Exposição estreou em agosto e funciona até 4 de outubro, mostrando Brasília desde antes da construção até marcos culturais atuais. Apresenta obras de Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão e artistas como Marianne Peretti, além de usar inteligência artificial para contar histórias nunca documentadas.
Exposição no Museu Nacional revela Brasília além da política através da arte e arquitetura
Brasília é uma cidade viva que muda, mesmo quando seus autores acham que a conhecem
Por que uma exposição sobre Brasília precisa ir além da política? Não é a política o que define uma capital?
A política é apenas uma camada. Brasília foi construída por milhares de pessoas — operários, artistas, arquitetos — que deixaram suas marcas em cada canto. A exposição quer mostrar que a cidade é também um projeto artístico, um sonho cultural.
Mas por que usar inteligência artificial para contar histórias que nunca foram documentadas? Não é isso inventar o passado?
Não é inventar. É reconhecer que o passado oficial — os documentos, os projetos — não conta tudo. As mulheres que trabalharam na construção, os romances que aconteceram, a alegria e o sofrimento dos trabalhadores: essas histórias existiram, mas não foram registradas. A IA é uma forma de dizer que essas vidas importam, mesmo que não estejam nos arquivos.
E essa ideia de Lúcio Costa se surpreendendo com a Rodoviária? O que ela revela?
Revela que Brasília nunca foi exatamente o que seus criadores imaginaram. Eles pensaram em algo cosmopolita, mas encontraram o Brasil profundo. Isso não é fracasso — é a cidade sendo viva, sendo real, sendo humana.
A exposição termina em outubro. Depois disso, essa conversa sobre Brasília desaparece?
Não. A exposição é um convite para as pessoas revisitarem a cidade com outros olhos. Quando você entende que Brasília tem poesia, tem história de gente, tem arte — você nunca mais a vê da mesma forma.
El Pulso
- Exposição 'Utopias em Construção' funciona até 4 de outubro no Museu Nacional da República
- Apresenta obras de Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão, Marianne Peretti e Di Cavalcanti
- Usa inteligência artificial para contar histórias nunca documentadas sobre a construção
- Homenageia o cineasta Vladimir Carvalho, falecido em 2024
Exposição estreou em agosto e funciona até 4 de outubro, mostrando Brasília desde antes da construção até marcos culturais atuais. Apresenta obras de Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão e artistas como Marianne Peretti, além de usar inteligência artificial para contar histórias nunca documentadas.
Exposição 'Utopias em Construção' no Museu Nacional da República apresenta história de Brasília através da arte, arquitetura e cinema, destacando contribuições de artistas icônicos e narrativas pessoais dos construtores da capital.
No Museu Nacional da República, uma exposição recém-aberta convida o visitante a conhecer Brasília por um caminho que não passa pela política. Chamada Utopias em Construção, a mostra foi organizada pelo Arquivo Público do Distrito Federal e permanece em cartaz até 4 de outubro, oferecendo uma narrativa que começa muito antes das primeiras pás de terra serem movidas.
A história começa em 1891, quando a Constituição mencionou pela primeira vez a ideia de uma capital no interior do país. Dali, a exposição segue os passos de Juscelino Kubitschek e suas articulações políticas, mas logo se afasta do espectro eleitoral para mergulhar nas contribuições artísticas e arquitetônicas que moldaram a cidade. Os nomes mais conhecidos estão lá — Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão — mas a mostra vai além. Marianne Peretti, criadora dos vitrais da Catedral, aparece ao lado de Alfredo Ceschiatti, cujas esculturas de anjos e da Justiça marcam o templo. Di Cavalcanti, que pintou As Mulatas exibidas no Congresso Nacional, também ganha espaço. Segundo Elias Manoel da Silva, historiador do Arquivo Público, a exposição funciona como um convite para repensar as múltiplas camadas que envolvem essa capital complexa.
Mas o que torna Utopias em Construção particularmente inovadora é como ela mistura documentação histórica com imaginação contemporânea. A mostra usa inteligência artificial para ilustrar histórias que nunca foram registradas oficialmente — imagens que mostram mulheres trabalhando na construção, romances entre pessoas do mesmo gênero, e cenas do dia a dia dos operários. Há também cartazes com frases que enfeitam as famosas tesourinhas de Brasília. Essas criações digitais não pretendem ser verdade histórica, mas sim reconhecer que ao lado dos documentos oficiais, existe uma narrativa pessoal feita de sofrimento, alegria e tristeza dos que viveram aquele momento.
A exposição revela também os lados menos conhecidos dos gênios que criaram Brasília. Niemeyer usava a pintura como manifestação política. Athos Bulcão, profundamente religioso, dedicava seu talento à confecção de vestes litúrgicas. Lúcio Costa, o urbanista, sonhava em trabalhar com Charlie Chaplin e chegou a enviar seus projetos para o ator — que recusou. A mostra traz ainda projetos que nunca saíram do papel: esboços do Plano Piloto e um memorial a Tiradentes. Um desenho particularmente revelador mostra a catedral no meio da Praça dos Três Poderes, uma ideia que foi abandonada porque o Brasil é um Estado laico.
Um dos momentos mais intrigantes da exposição explora a diferença entre a Brasília que foi imaginada e a que realmente se tornou. Lúcio Costa visitou a cidade em 1987 e registrou suas impressões no documento Brasília Revisitada. Ao chegar à Rodoviária do Plano Piloto, o urbanista se surpreendeu. Ele havia imaginado um espaço cosmopolita, repleto de pessoas do mundo inteiro. O que encontrou foi o Brasil profundo — caldo de cana com pastel, nas palavras que a curadora Marília Panitz usa para descrever sua reação. Essa tensão entre o projeto e a realidade viva é o coração da exposição: Brasília foi concebida com uma visão, mas seus próprios criadores reconheceram que a cidade é um organismo vivo que muda.
A mostra também homenageia Vladimir Carvalho, considerado o maior cineasta de Brasília, que faleceu em 2024. Uma sala dedicada ao seu trabalho exibe três de suas obras mais importantes: Conterrâneos velhos de guerra (1992), Barra 68 - Sem perder a ternura (2001) e Brasília segundo Feldman (1979). O Cine Brasília leva seu nome.
Para visitantes como Josué Soares, estudante de Relações Internacionais que veio conhecer o Itamaraty, a exposição muda a forma como se vê a capital. Ele chegou vendo Brasília como algo formalizado, político, escrito em lei. Saiu percebendo a poética que existe por trás de tudo isso. Essa é talvez a maior contribuição da mostra: mostrar que Brasília é mais do que seus edifícios e suas funções administrativas. É um lugar onde arte, sonho e trabalho humano se encontram.
Citas Notables
Essa exposição é um convite para repensar as diferentes camadas que envolvem a complexa capital chamada Brasília— Elias Manoel da Silva, historiador do Arquivo Público
Antigamente eu via Brasília só como uma coisa muito formalizada, política. Hoje em dia, eu vejo que tem uma poética por trás de tudo isso também— Josué Soares, estudante de Relações Internacionais