Expedição no Atlântico Sul revela 31 espécies marinhas inéditas com características extraordinárias

O maior habitat da Terra está repleto de animais que estamos apenas começando a compreender
Karen Osborn, cientista-chefe da expedição, reflete sobre a biodiversidade da zona mesopelágica.
Mark

Por que a zona mesopelágica é tão pouco explorada se é o maior habitat da Terra?

Mimi

A pressão da água a essa profundidade é esmagadora. Descer lá requer tecnologia cara, navios especializados, robôs submarinos. Não é como explorar a terra firme. Cada mergulho é um risco calculado.

Mark

E essas 31 espécies — elas são completamente novas para a ciência, ou já eram conhecidas de forma fragmentária?

Mimi

Completamente novas. O que torna a descoberta ainda mais significativa é que muitas delas foram observadas vivas em seu habitat natural. Antes, o conhecimento sobre essas criaturas vinha de espécimes coletados em redes de arrasto, mortos ou danificados. Agora vimos elas se comportando.

Mark

A câmera multiview — como ela muda o jogo?

Mimi

Permite documentar um animal de três ângulos simultaneamente sem perturbá-lo. Cores, postura, anatomia — tudo é capturado antes que o animal mude de comportamento ou morra. É a diferença entre uma fotografia de identidade e um retrato vivo.

Mark

Qual foi a descoberta que mais surpreendeu os cientistas?

Mimi

Provavelmente o sifonóforo. Pode ser um gênero inteiramente novo, talvez até uma nova família. Quando você encontra algo que não encaixa em nenhuma categoria existente, você sabe que descobriu algo verdadeiramente diferente.

Mark

E agora? O que acontece com essas espécies?

Mimi

Análise genética, comparação com espécies conhecidas, nomeação formal. Alguns animais, como o peixe larval, ainda precisam ser identificados em sua forma adulta. É trabalho de anos. Mas o ponto é que agora sabemos que existem. Agora podemos fazer perguntas sobre elas.

  • A zona mesopelágica, entre 180 e 1.000 metros de profundidade, permanecia como um dos últimos grandes mistérios da Terra — e a expedição foi diretamente ao seu coração.
  • Criaturas de aparência alienígena emergiram dos dados: vermes translúcidos, lulas-de-vidro, peixes larvais como fios de cristal e um polvo gigante devorado uma água-viva a 800 metros.
  • Tecnologias inéditas — uma câmera macro multiview e um microscópio confocal apelidado de 'Lula' — permitiram documentar anatomia, cor e fisiologia de organismos vivos sem tirá-los de seu habitat.
  • Pesquisadores identificaram pelo menos um sifonóforo que pode representar não apenas uma nova espécie, mas um gênero e talvez uma família inteiramente novos para a ciência.
  • Os dados coletados seguirão sendo analisados por especialistas como o Dr. Marcelo Melo, da USP, enquanto a nomeação formal das espécies aguarda comparações genéticas e anatômicas ainda em curso.
  • A expedição é vista como um vislumbre do futuro da biologia marinha — um campo que caminha para estudar o oceano profundo com elegância, talvez até em realidade virtual.

Nas profundezas do Atlântico Sul, onde a pressão esmaga e a luz nunca chega, uma expedição internacional a bordo do R/V Falkor revelou 31 espécies marinhas até então desconhecidas pela ciência. A zona mesopelágica — o maior e menos explorado habitat da Terra — guarda formas de vida que desafiam nossa compreensão do que é possível existir. Com tecnologias que permitem observar organismos vivos sem perturbá-los, a humanidade deu mais um passo humilde diante da imensidão do que ainda ignora sobre o próprio planeta.

Duas semanas de navegação pelo Atlântico Sul brasileiro renderam à ciência 31 espécies marinhas nunca antes catalogadas. A bordo do navio de pesquisa R/V Falkor, uma equipe internacional mergulhou — literalmente e metaforicamente — na zona mesopelágica, aquela faixa de oceano entre 180 e 1.000 metros de profundidade que é o maior habitat da Terra e, paradoxalmente, o menos conhecido.

O que os pesquisadores encontraram desafia a imaginação: um verme translúcido do gênero Tomopteris capaz de emitir bioluminescência amarela; uma lula-de-vidro juvenil coletada a 779 metros pelo robô submarino SuBastian; um peixe larval fino como um fio de vidro observado a 966 metros; e uma fêmea de polvo da espécie Haliphron atlanticus — que pode atingir quatro metros e 75 quilos — flagrada consumindo uma água-viva a 800 metros de profundidade.

A chave para essas descobertas foi a tecnologia. Uma câmera macro multiview prototípica, desenvolvida em parceria entre universidades australianas e o Smithsonian, capturou simultaneamente três ângulos de cada animal sem perturbá-lo. A bordo também operou um microscópio confocal de roda giratória, apelidado de 'Lula', capaz de visualizar estruturas celulares vivas dentro dos organismos pela primeira vez — uma janela inédita para a fisiologia das profundezas.

Entre as descobertas mais intrigantes está um sifonóforo fotografado a 552 metros, cujas imagens em 3D levaram o Dr. Dhugal Lindsay, da JAMSTEC, a crer que o animal pode representar não apenas uma nova espécie, mas um gênero e talvez uma família inteiramente novos. Um ctenóforo lobado inédito também foi identificado, com seus grandes lobos musculares adaptados para capturar presas de forma ativa.

A cientista-chefe Karen Osborn declarou-se continuamente fascinada pela variedade de soluções que esses animais desenvolveram para sobreviver em um ambiente tão extremo. O trabalho de identificação formal prossegue com especialistas como o Dr. Marcelo Melo, do Instituto Oceanográfico da USP. O oceano, como sempre, ainda guarda mais segredos do que respostas.

Duas semanas no Atlântico Sul brasileiro renderam à ciência 31 espécies marinhas nunca antes catalogadas. A expedição internacional, operada a bordo do navio de pesquisa R/V Falkor, desceu às profundezas onde a pressão da água torna cada mergulho um desafio extremo — e onde a vida, aparentemente, segue regras que a superfície desconhece.

O alvo era a zona mesopelágica, aquela faixa do oceano que se estende de aproximadamente 180 a 1.000 metros de profundidade. É o maior habitat da Terra, e também o menos explorado. Ninguém sabe bem o que vive ali porque ninguém consegue chegar lá com facilidade. A água esmaga. A escuridão é total. E no entanto, quando os pesquisadores finalmente conseguiram olhar, encontraram um mundo inteiro de criaturas extraordinárias.

Um verme translúcido do gênero Tomopteris — conhecido popularmente como verme-teia-de-aranha — habita toda a coluna d'água, desde a superfície até profundidades superiores a quatro mil metros. Pouco se conhecia sobre seus hábitos até agora, embora estudos anteriores tivessem documentado uma rara bioluminescência amarela que emite. Uma lula-de-vidro juvenil foi coletada pelo robô submarino SuBastian a 779 metros de profundidade. Um peixe larval, longo, fino e translúcido como vidro, foi observado a 966 metros. Um polvo fêmea da espécie Haliphron atlanticus foi flagrado consumindo uma água-viva a 800 metros — um evento raro de ser presenciado, já que essas fêmeas podem atingir quatro metros de comprimento e pesar 75 quilos, passando toda a vida em mar aberto.

O que tornou possível documentar essas criaturas foi a tecnologia. A equipe utilizou uma câmera macro multiview prototípica, desenvolvida em colaboração entre o Dr. Jan Hemmi da Universidade da Austrália Ocidental e a Dra. Karen Osborn do Museu Nacional de História Natural Smithsonian. O equipamento captura simultaneamente três ângulos de um animal, minimizando perturbação e preservando detalhes anatômicos, de cor e postura que desapareceriam rapidamente após a coleta. A bordo também havia um microscópio confocal de roda giratória, apelidado de "Lula", capaz de visualizar estruturas celulares vivas dentro de organismos pela primeira vez. Manu Prakash, bioengenheiro de Stanford, descreveu a tecnologia como uma porta aberta para a pesquisa da fisiologia das profundezas marinhas — agora era possível testemunhar processos internos em tempo real nesses organismos extremos, adaptados para suportar imensa pressão e escuridão.

Entre as descobertas mais notáveis estava um novo tipo de ctenóforo lobado, identificado pelo Dr. Dhugal Lindsay da JAMSTEC. Diferente dos ctenóforos com longos tentáculos pegajosos, os lobados possuem dois grandes lobos orais musculares que se estendem além da boca para capturar presas. Um sifonóforo — animal longo e translúcido com raios — foi fotografado a 552 metros de profundidade. Os sistemas de imagem permitiram criar renderizações 3D em escala milimétrica da criatura em seu habitat natural. Com base nessas imagens e medições, Lindsay acredita que o animal pertence a um gênero inédito, talvez até mesmo a uma nova família de sifonóforos fisonectados.

A Solmissus, também conhecida como medusa-prato, foi observada predando ctenóforos. Ao contrário da maioria das medusas que se movem passivamente, a Solmissus nada ativamente com seus tentáculos estendidos à frente do corpo para capturar presas antes que as vibrações as alertem. Acredita-se que esses predadores gelatinosos desempenham um papel crucial na regulação das populações de ctenóforos nas zonas crepusculares e de meia-noite do oceano.

Karen Osborn, cientista-chefe da expedição, comentou que continua fascinada pela variedade de soluções que esses animais desenvolveram para sobreviver em um ambiente formidável. Jyotika Virmani, diretora executiva do Schmidt Ocean Institute, viu na expedição um vislumbre do futuro da ciência biológica marinha — um futuro em que os cientistas estudem a vida marinha com elegância, talvez até em realidade virtual. O que foi descoberto nessas duas semanas é apenas o começo. O Dr. Marcelo Melo, especialista em taxonomia de peixes de águas profundas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, continuará identificando as formas adultas que alguns desses animais ainda desenvolverão. Os dados anatômicos e genéticos coletados na água e a bordo auxiliarão na comparação com outras espécies e na nomeação formal. O oceano ainda guarda segredos.

O maior habitat da Terra, a zona mesopelágica, está repleto de animais incríveis que estamos apenas começando a compreender.
— Karen Osborn, cientista-chefe da expedição
Agora podemos testemunhar processos internos em tempo real nesses organismos extremos, adaptados para suportar imensa pressão e escuridão.
— Manu Prakash, bioengenheiro da Universidade Stanford
Contáctanos FAQ