No coração de um tribunal americano, um ex-executivo da Meta ergueu a voz para nomear o que muitos suspeitavam: que a atenção das crianças foi tratada como recurso a ser explorado, não como responsabilidade a ser protegida. Arturo Bejar, que trabalhou dentro da empresa entre 2009 e 2015, afirmou que Mark Zuckerberg tinha conhecimento direto das práticas que expunham menores a coleta ilegal de dados, assédio e danos à saúde mental — e que o crescimento sempre venceu a proteção. Este julgamento, o maior já realizado sobre os efeitos das redes sociais em jovens, coloca em questão não apenas uma e
Ex-executivo da Meta depõe que Zuckerberg negligenciou segurança infantil
Onde estão as crianças de hoje estão também os usuários do futuro
Por que Bejar decidiu testemunhar contra a empresa onde trabalhou por tanto tempo?
Ele passou anos vendo pesquisas que mostravam danos reais às crianças — ansiedade, depressão, pensamentos suicidas — e viu a empresa escolher não agir. Às vezes a consciência pesa mais que a lealdade.
A Meta argumenta que as opiniões dele extrapolam seu escopo. Isso é uma defesa válida?
Só se você acredita que alguém que trabalhou diretamente em pesquisas sobre bem-estar de adolescentes não tem autoridade para falar sobre bem-estar de adolescentes. A defesa parece fraca.
O que é mais preocupante — a coleta ilegal de dados ou o design compulsivo?
São duas faces da mesma moeda. Os dados permitem que a empresa saiba exatamente como prender a atenção de cada criança. O design compulsivo garante que ela o faça. Separadas, são ruins. Juntas, são um sistema.
A ferramenta de pausa que foi "projetada para falhar" — isso é intencional ou negligência?
Bejar chamou de intencional. Uma ferramenta que não funciona por padrão, com lembretes fáceis de ignorar, não é um acidente. É uma escolha.
Se Zuckerberg realmente aprovava essas decisões, por que não há e-mails ou documentos diretos?
Porque em empresas grandes, as decisões importantes muitas vezes não deixam rastros óbvios. A estrutura hierárquica que Bejar descreveu — onde quase nada muda sem aprovação do CEO — é suficiente para estabelecer responsabilidade.
O que muda se a Meta perder este julgamento?
Tudo. Não é só sobre dinheiro. É sobre como as plataformas são permitidas de funcionar. Pode significar mudanças reais nas formas como as redes sociais tratam crianças.
Il Polso
- Pela primeira vez em um tribunal, um ex-insider da Meta aponta diretamente Zuckerberg como responsável por decisões que colocaram lucro acima da segurança de crianças.
- A estrutura de poder centralizada na empresa tornava impossível que mudanças significativas ocorressem sem o aval do CEO — o que, segundo Bejar, elimina qualquer alegação de desconhecimento.
- Funcionários eram recompensados por engajamento e crescimento de usuários, criando um incentivo perverso que punia quem priorizasse proteção em vez de números.
- A Meta tinha tecnologia para identificar menores de 13 anos, mas optou por não usá-la em escala — uma estratégia que Bejar chamou de 'não pergunte, não conte'.
- Com milhares de processos em andamento e US$ 942 milhões já pagos em um caso anterior, este julgamento pode redefinir como as redes sociais são reguladas nos Estados Unidos.
No coração de um tribunal americano, um ex-executivo da Meta ergueu a voz para nomear o que muitos suspeitavam: que a atenção das crianças foi tratada como recurso a ser explorado, não como responsabilidade a ser protegida. Arturo Bejar, que trabalhou dentro da empresa entre 2009 e 2015, afirmou que Mark Zuckerberg tinha conhecimento direto das práticas que expunham menores a coleta ilegal de dados, assédio e danos à saúde mental — e que o crescimento sempre venceu a proteção. Este julgamento, o maior já realizado sobre os efeitos das redes sociais em jovens, coloca em questão não apenas uma empresa, mas o modelo inteiro pelo qual o mundo digital foi construído ao redor da infância.
Arturo Bejar entrou no tribunal como a primeira testemunha de um julgamento histórico: o maior teste judicial já realizado sobre os efeitos das redes sociais em crianças. Entre 2009 e 2015, ele trabalhou dentro da Meta em posições próximas às decisões centrais sobre os produtos da empresa. Seu depoimento trouxe uma acusação direta e devastadora — Mark Zuckerberg sabia que a segurança infantil estava sendo negligenciada e escolheu não agir porque o lucro importava mais.
Segundo Bejar, a estrutura da Meta concentrava tanto poder no CEO que quase nenhuma mudança relevante nos produtos acontecia sem sua aprovação. Isso vincula Zuckerberg diretamente às decisões sobre como o Facebook e o Instagram capturavam a atenção de usuários jovens e coletavam seus dados. O julgamento reúne acusações de uma coalizão de estados americanos, que alegam que a empresa projetou suas plataformas para estimular uso compulsivo entre adolescentes, contribuindo para ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. Outros 29 estados acusam a Meta de violar leis federais ao coletar dados de crianças menores de 13 anos.
O problema era estrutural. Funcionários eram avaliados por métricas de engajamento e número de usuários ativos — quanto mais tempo as crianças passavam nas plataformas, melhores os números. A segurança não era recompensada. O crescimento era. Bejar descreveu ainda como a empresa tinha tecnologia para identificar menores e exigir verificação de idade, mas optava por não usá-la em larga escala. A estratégia, nas palavras dele, era de 'não pergunte, não conte' — financeiramente vantajosa porque mantinha o número de usuários alto.
Até as ferramentas de proteção que a Meta usa em sua defesa foram contestadas. Um recurso para incentivar pausas no uso dos aplicativos, segundo Bejar, foi 'projetado para falhar': não vinha ativado por padrão e era fácil de ignorar. A empresa negou as acusações e argumentou que as opiniões de Bejar extrapolam suas funções. Mas o histórico pesa: em um caso anterior movido pelo Novo México, a Meta pagou US$ 942 milhões em indenizações e foi obrigada a reformar suas plataformas. O que for decidido neste julgamento pode mudar para sempre as regras do jogo digital para as próximas gerações.
Arturo Bejar entrou na sala de tribunal como a primeira testemunha em um julgamento que especialistas descrevem como o maior teste judicial já realizado sobre os efeitos das redes sociais em crianças. Durante seis anos, entre 2009 e 2015, Bejar trabalhou dentro da Meta — então Facebook — em posições que o colocaram perto das decisões mais importantes sobre como os produtos eram construídos. Seu depoimento nesta quarta-feira trouxe uma acusação simples e devastadora: Mark Zuckerberg sabia que a empresa estava negligenciando a segurança das crianças e escolheu não agir porque o lucro importava mais.
A estrutura da Meta, segundo Bejar, concentrava o poder de forma que quase nenhuma mudança significativa nos produtos podia acontecer sem aprovação do CEO. Isso significa que as decisões sobre como o Facebook e o Instagram funcionavam — como eles prendiam a atenção dos usuários jovens, como coletavam seus dados — passavam pela mesa de Zuckerberg. Não era possível, na visão de Bejar, que o presidente não soubesse o que estava acontecendo.
O julgamento reúne acusações de uma coalizão de estados americanos. Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey alegam que a Meta projetou intencionalmente suas plataformas para estimular o uso compulsivo entre adolescentes, contribuindo para ansiedade, depressão e até pensamentos suicidas. Além disso, 29 estados no total acusam a empresa de violar leis federais ao coletar e usar dados pessoais de crianças menores de 13 anos — dados que, segundo as acusações, a Meta sabia que estava coletando ilegalmente.
Bejar trabalhou em pesquisas sobre a experiência de adolescentes no Instagram entre 2019 e 2021, analisando como a plataforma afetava o bem-estar dos usuários. O que ele descobriu — e o que a empresa sabia — era preocupante. Mas a estrutura de incentivos dentro da Meta criava um problema perverso. Os funcionários eram avaliados e recompensados com base em métricas como nível de engajamento e número de usuários ativos diários. Quanto mais tempo as crianças passavam nas plataformas, melhor os números pareciam. Quanto mais dados eram coletados, mais valiosos os usuários se tornavam. A segurança não era recompensada. O crescimento era.
Em seu depoimento anterior ao Senado dos Estados Unidos em 2023, Bejar já havia afirmado que a Meta tinha conhecimento de casos de assédio e outros problemas enfrentados por adolescentes, mas não adotava medidas suficientes para resolvê-los. Desta vez, ele foi mais específico. A empresa tinha tecnologia para identificar usuários que provavelmente tinham menos de 13 anos e exigir verificações adicionais de idade. Mas optava por não usar essa tecnologia em larga escala. Bejar descreveu a abordagem como "não pergunte, não conte" — uma estratégia que, na visão dele, era financeiramente vantajosa porque mantinha o número de usuários alto. "Onde estão as crianças de hoje estão também os usuários do futuro", disse ele ao tribunal, resumindo a lógica que via por trás das decisões.
Houve também a questão das ferramentas de proteção que a Meta frequentemente cita em sua defesa. A empresa desenvolveu um recurso para incentivar pausas no uso dos aplicativos. Mas Bejar testemunhou que a ferramenta foi "projetada para falhar". Ela não vinha ativada por padrão, e os lembretes eram fáceis de ignorar — o suficiente para que a Meta pudesse dizer que oferecia proteção, mas não o suficiente para que a proteção funcionasse de verdade.
A Meta negou as acusações e argumentou que as opiniões de Bejar extrapolam o escopo de suas funções na empresa. Mas o histórico fala por si. Bejar já atuou como testemunha em três casos que chegaram a julgamento. Um deles, movido pelo estado do Novo México, terminou com a Meta pagando 942 milhões de dólares em indenizações e multas, além de ser obrigada a fazer mudanças nas plataformas. Há milhares de processos semelhantes em andamento, cada um contando uma história de crianças que foram prejudicadas. Este julgamento, porém, é diferente. É o maior teste judicial já realizado sobre essa questão, e o que acontecer aqui pode redefinir como as redes sociais são reguladas nos Estados Unidos.
Citazioni salienti
A empresa utilizava indicadores como nível de engajamento e número de usuários ativos diários para avaliar e recompensar funcionários, fazendo com que o crescimento recebesse mais atenção que a segurança— Arturo Bejar, ex-funcionário da Meta
A ferramenta criada para incentivar pausas no uso dos aplicativos foi projetada para falhar, pois não vinha ativada por padrão e os lembretes eram fáceis de ignorar— Arturo Bejar, em depoimento