Sardenha pode atingir quase 50°C até quarta-feira, aproximando-se do recorde europeu de 48,8°C alcançado na Sicília em 2021. Incêndios na Grécia forçaram retirada de 1.200 crianças de acampamentos; Vale da Morte nos EUA registrou 53,3°C e China atingiu 52,2°C.
Europa enfrenta onda de calor extrema com temperaturas perto dos 50ºC
Está claro que o clima mudou. Antes nunca havia chegado aos 30°C
Por que batizaram essa onda de calor de Carontes especificamente?
É uma escolha que carrega peso. Carontes é o barqueiro que leva as almas dos mortos para o submundo na mitologia grega. Nomear um fenômeno climático assim não é casual — é um aviso velado sobre o que pode acontecer se as temperaturas continuarem subindo dessa forma.
A Grécia parece estar no epicentro disso tudo. Por que?
A região mediterrânea é onde o anticiclone do Saara está se movimentando. Mas além do calor extremo, há os ventos fortes que transformam incêndios em catástrofes. Kouvaras, perto de Atenas, virou um exemplo disso — um fogo que se espalhou por 40 quilômetros em poucos dias.
E as crianças que foram evacuadas?
Mil e duzentas crianças de acampamentos de verão perto de Loutraki tiveram que sair. Imagine o caos: você está num acampamento, as chamas se aproximam rápido demais, os ventos não deixam ninguém respirar. Não é só um número — é o pânico de pais e educadores tentando tirar crianças de um lugar que virou perigoso em horas.
O que diferencia isso de ondas de calor anteriores?
A velocidade e a escala. A Europa aquece duas vezes mais rápido que a média mundial. Junho teve recordes globais, e agora estamos em julho com os dias mais quentes de todos os tempos. Não é um evento isolado — é um padrão que está se acelerando.
Por que alguns países europeus estão recuando na transição energética?
Pressão política e econômica. Combustíveis fósseis ainda são baratos no curto prazo, e as petrolíferas estão dobrando seus investimentos neles. Enquanto isso, a OMM avisa que o clima extremo se tornará o novo normal. É um conflito entre o que sabemos que precisa acontecer e o que os mercados estão fazendo.
Qual é o custo humano real disso?
Mais de 60 mil pessoas morreram na Europa por ondas de calor no verão anterior. Um homem de 90 anos morreu no Chipre esta semana. Clínicas italianas estão sendo instruídas a abrir sete dias por semana. Não é abstrato — são pessoas reais morrendo de calor.
The Pulse
- Sardenha pode atingir quase 50°C até quarta-feira, próximo ao recorde europeu de 48,8°C em 2021
- Vale da Morte registrou 53,3°C no domingo; Xinjiang na China atingiu 52,2°C
- 1.200 crianças evacuadas de acampamentos na Grécia; incêndios destruíram mais de 3 mil hectares na Califórnia
- Mais de 60 mil pessoas morreram na Europa por ondas de calor no verão anterior
- Europa aquece duas vezes mais rápido que a média mundial
Sardenha pode atingir quase 50°C até quarta-feira, aproximando-se do recorde europeu de 48,8°C alcançado na Sicília em 2021. Incêndios na Grécia forçaram retirada de 1.200 crianças de acampamentos; Vale da Morte nos EUA registrou 53,3°C e China atingiu 52,2°C.
Europa enfrenta onda de calor extrema batizada de Carontes com temperaturas próximas a 50°C, enquanto alertas também são emitidos nos EUA e China. Autoridades alertam para riscos à saúde e incêndios florestais.
O termômetro subiu a 53,3 graus Celsius no Vale da Morte na Costa Oeste americana no domingo. Na mesma data, Xinjiang, no oeste chinês, marcou 52,2 graus. E enquanto o Hemisfério Norte suava sob um fim de semana escaldante, a Europa se preparava para algo ainda pior: uma onda de calor batizada de Carontes — em referência ao barqueiro mitológico que conduz almas ao submundo — que ameaçava empurrar os termômetros para perto dos 50 graus na ilha italiana da Sardenha até quarta-feira.
O recorde europeu atual é de 48,8 graus, alcançado na Sicília em 2021. Se Carontes cumprir suas promessas, estará muito perto de reescrever a história térmica do continente. A culpa é de um anticiclone vindo do Saara que avança sobre a região mediterrânea, trazendo consigo não apenas calor extremo, mas também ventos fortes que transformam qualquer chama em desastre. Na Grécia, incêndios já varrem os arredores de Atenas. Um deles, em Kouvaras a leste da capital, se espalhou por cerca de 40 quilômetros até atingir outra cidade. A polícia deteve um homem suspeito de ter iniciado o foco. Perto de Loutraki, ao longo do canal de Corinto, autoridades evacuaram 1.200 crianças de acampamentos de verão. Ordens de retirada foram emitidas em outras áreas da costa grega conforme os ventos aceleravam a propagação das chamas.
Em Roma, os termômetros devem chegar aos 42 graus na terça-feira — um recorde absoluto para a capital italiana. Na Espanha, que já havia passado por uma semana sufocante, a agência meteorológica emitiu alertas laranja para segunda-feira, com temperaturas entre 38 e 42 graus em grande parte do país, entre cinco e dez graus acima da média. Na Andaluzia, no sul, o alerta é vermelho — perigo extremo — com possibilidade de ultrapassar 44 graus. A França espera 40 graus no sudeste na terça. No Chipre, onde as temperaturas devem permanecer acima de 40 graus até quinta-feira, um homem de 90 anos morreu em decorrência do calor, e outras três pessoas idosas foram internadas.
O Reino Unido e as regiões nórdicas escapam por enquanto. Em Oslo, os termômetros devem cair para 8 graus. Em Londres, as máximas ficarão pouco acima de 20 graus. Mas essa é uma exceção numa região que aquece duas vezes mais rápido que a média mundial, segundo especialistas. A Organização Meteorológica Mundial alertou na semana passada que eventos climáticos extremos provavelmente se tornarão o "novo normal", destacando a urgência de reduzir emissões de combustíveis fósseis. Seu secretário-geral, Petteri Taalas, afirmou que fenômenos meteorológicos extremos têm "importantes repercussões na saúde humana, nos ecossistemas, na economia, na agricultura, na energia e no abastecimento de água".
Nos Estados Unidos, o Vale da Morte não é exceção. Os serviços meteorológicos destacam uma onda de calor "opressiva" para a semana, com alertas de tornados e inundações repentinas em alta desde Long Island até grande parte da Nova Inglaterra. Vários incêndios afetam o sul da Califórnia e já destruíram mais de 3 mil hectares, provocando evacuações. No Canadá, mais de 10 milhões de hectares foram destruídos por incêndios desde o início do ano. Na segunda-feira, 882 focos permaneciam ativos, 579 deles considerados fora de controle.
O Japão emitiu alertas para temperaturas elevadas em 32 dos 47 municípios do país, com termômetros próximos ao recorde absoluto de 41,1 graus registrado em 2018. Um geólogo de Yamanashi, perto de Tóquio, lamentou à AFP: "Está claro que o clima mudou. Antes, a temperatura nunca havia chegado aos 30 graus. Agora chega facilmente".
O custo humano dessa escalada térmica é real e crescente. Um estudo recente mostrou que mais de 60 mil pessoas morreram na Europa por causa das ondas de calor do verão anterior. O ministério da saúde italiano está recomendando que governos locais mantenham clínicas abertas sete dias por semana para tratar condições relacionadas ao calor. Turistas como Colman Peavy, vindo do Texas, descobrem que nem mesmo fugir para a Europa oferece alívio: "Somos do Texas e está muito quente lá, pensamos que escaparíamos do calor, mas aqui está ainda mais quente", disse ele à AFP.
Tudo isso ocorre enquanto junho registrou temperaturas globais recordes, seguido pelos dias mais quentes de todos os tempos neste mês. O primeiro fenômeno climático El Niño em quase quatro anos intensifica ainda mais essa trajetória de calor incomparável. E enquanto a OMM alerta que o clima extremo se tornará o novo normal sem ação urgente, alguns países da União Europeia recuam no ritmo da transição energética, enquanto as grandes petrolíferas dobram seus investimentos em combustíveis fósseis.
Notable Quotes
Fenômenos meteorológicos extremos têm importantes repercussões na saúde humana, nos ecossistemas, na economia, na agricultura, na energia e no abastecimento de água— Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial
Somos do Texas e está muito quente lá, pensamos que escaparíamos do calor, mas aqui está ainda mais quente— Colman Peavy, turista americano