Reino Unido registrou 40,2°C pela primeira vez; Espanha enfrenta onda de calor com 39-45°C; mais de mil mortos na Península Ibérica. Frequência, duração e intensidade de eventos extremos aumentaram nas últimas décadas, compatível com aquecimento global de 1,1°C desde Revolução Industrial.
Calor recorde na Europa evidencia urgência de frear aquecimento global
Ação coletiva ou suicídio coletivo. Está em nossas mãos.
Por que essa onda de calor na Europa é diferente das que ocorreram no passado?
Porque não é isolada. O que vemos agora é um padrão — frequência, duração e intensidade aumentando juntas. Em 1976 houve calor extremo, sim, mas era exceção. Hoje é tendência.
E o Reino Unido atingir 40 graus é realmente tão significativo?
É um símbolo. Aquele país nunca tinha visto isso. A probabilidade de isso acontecer é dez vezes maior agora do que antes da Revolução Industrial. Não é sorte ruim — é o sistema mudando.
Os cientistas conseguem provar que isso é causado por humanos?
Não é prova em laboratório, é padrão. Tudo que as pesquisas antecipavam está acontecendo. Padrões atmosféricos naturais existem, mas essa escala de calor extremo simultâneo em vários continentes aponta para algo maior.
E o Brasil nessa história?
O Brasil está fazendo o oposto do que deveria. Enquanto o mundo tenta reduzir emissões, o Brasil aumentou desmatamento 20% em um ano. É estar na contramão enquanto a casa pega fogo.
Há ainda tempo para mudar?
Tecnicamente sim. Mas as negociações em dezembro no Egito enfrentam obstáculos geopolíticos enormes. A guerra na Ucrânia trouxe a segurança energética para o centro do debate, afastando as mudanças climáticas. É difícil ser otimista.
The Pulse
- Reino Unido registrou 40,2°C pela primeira vez em sua história
- Espanha enfrenta onda de calor com temperaturas entre 39°C e 45°C há nove dias
- Mais de mil pessoas morreram na Península Ibérica
- Temperatura média global aumentou 1,1°C desde a Revolução Industrial
- Brasil aumentou desmatamento 20% de 2020 para 2021
Reino Unido registrou 40,2°C pela primeira vez; Espanha enfrenta onda de calor com 39-45°C; mais de mil mortos na Península Ibérica. Frequência, duração e intensidade de eventos extremos aumentaram nas últimas décadas, compatível com aquecimento global de 1,1°C desde Revolução Industrial.
Temperaturas recordes na Europa, com Reino Unido atingindo 40,2°C, evidenciam aceleração das mudanças climáticas causadas por emissões humanas, alertam cientistas e líderes globais.
O Reino Unido acordou para um recorde que ninguém esperava ver em seu território. No dia 19 de julho, o termômetro marcou 40,2 graus Celsius — a temperatura mais alta jamais registrada naquele país acostumado a verões onde o máximo raramente ultrapassa 25 graus. Ao mesmo tempo, a Espanha enfrentava o nono dia consecutivo de uma das piores ondas de calor de sua história, com temperaturas oscilando entre 39 e 45 graus. Na Península Ibérica, mais de mil pessoas morreram. Um trem de passageiros que saía de Madri em direção à Galícia precisou parar diante de um grande incêndio. O fogo se alastrava por todo o sul europeu.
Essas ondas de calor não surgem do nada. Cientistas há tempos sabem que flutuações de temperatura fazem parte dos padrões climáticos naturais — a Europa viveu uma onda de calor memorável em 1976. Mas o que diferencia o presente do passado é a velocidade e a força com que esses eventos agora se repetem. Desde o século 19, quando começaram as medições sistemáticas e a Revolução Industrial se expandiu globalmente, a temperatura média do planeta subiu 1,1 grau Celsius. A culpa recai principalmente sobre as emissões de dióxido de carbono e outros gases que se acumulam na atmosfera, impedindo que o calor escape. O planeta virou uma estufa.
A probabilidade de o Reino Unido atingir 40 graus é dez vezes maior agora do que antes da industrialização. A Europa é particularmente vulnerável por sua proximidade com o Ártico — que perde sua cobertura de gelo rapidamente — e pela Corrente do Golfo, que eleva as temperaturas no continente. Mas não é apenas a Europa que sofre. A Tunísia registrou 48 graus em 13 de julho, quebrando um recorde de quarenta anos. O Irã manteve temperaturas altas em julho após marcar 52 graus no final de junho. Na China, Xangai alcançou 40,9 graus, a maior temperatura desde que começou a registrar dados em 1873. Junho foi o mês mais quente já medido pela Nasa, e julho segue o mesmo caminho.
Antonío Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, reuniu representantes de mais de quarenta países na Alemanha para o Diálogo Climático de Petersberg e colocou a questão em termos brutais: "Nós temos uma escolha. Ação coletiva ou suicídio coletivo. Está em nossas mãos." Petteri Taalas, chefe da Organização Meteorológica Mundial, ecoou o alerta: as ondas de calor serão cada vez mais frequentes e extremas, e a situação atual deveria servir de aviso para políticos em todo o mundo. Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, explicou que um aumento de 1,1 grau pode parecer pequeno, mas é desequilibrado — alguns lugares esfriarão enquanto outros esquentarão muito. Para uns, será difícil; para outros, impossível. No semiárido brasileiro, por exemplo, o país registra atualmente dois eventos de seca extrema por década. Dependendo de quanto as temperaturas subirem, isso pode chegar a cinco eventos por ano, inviabilizando a agricultura porque não haverá tempo para o solo se recuperar.
Marcelo Seluchi, meteorologista do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, afirmou que o Reino Unido bater seu recorde de temperatura não é coincidência — outros países também estão registrando temperaturas totalmente anômalas. Steven Pawson, chefe do escritório global de modelagem do Goddard Space Flight Center da Nasa, foi direto: embora haja padrões atmosféricos naturais com regiões alternando entre mais quentes e mais frias, essa grande área de calor extremo é um indicador claro de que as emissões de gases-estufa causadas pela atividade humana estão gerando padrões climáticos extremos que impactam nossas vidas. José Marengo, pesquisador do Cemaden, prevê que veremos cada vez mais ondas de calor extremo na Europa e nos Estados Unidos, acompanhadas de incêndios, além de possíveis invernos extremos com grandes nevascas. No Brasil, já vivemos extremos também — chuvas intensas e secas.
Mas as perspectivas para frear esse processo são sombrias. A geopolítica mundial não favorece as negociações climáticas internacionais que serão retomadas em dezembro no Egito, na COP27. A pandemia de covid-19 havia reduzido temporariamente as emissões globais de CO2, mas desde a eclosão da guerra na Ucrânia, houve um aumento generalizado na produção de combustível fóssil. Mesmo a China, que vinha reduzindo significativamente sua produção de carvão, retomou o uso diante do risco de escassez energética. Eduardo Viola, professor de relações internacionais da USP e FGV, declarou que a guerra tirou as mudanças climáticas do centro do debate político, trazendo a segurança energética para o foco. Estados Unidos, Europa e China aumentaram a produção de petróleo, gás natural e carvão desde março.
O Brasil, enquanto isso, segue na contramão. O país aumentou consideravelmente o desmatamento — sua principal fonte de emissões — em todos os seus biomas no ano passado. De 2020 para 2021, a destruição cresceu 20%. Por isso, o Brasil foi um dos únicos países do mundo a registrar aumento de emissões de gases-estufa durante a retração econômica causada pela pandemia. Carlos Nobre, um dos principais pesquisadores de mudanças climáticas do país, chamou a situação de trágica. As emissões brasileiras já alcançaram 10,5 toneladas por habitante por ano — um número similar ao da China e da Alemanha. Isso coloca o Brasil numa situação muito preocupante para alcançar as metas assumidas em 2016 de reduzir em até 50% as emissões até 2030. No Brasil, os extremos climáticos também já são mais frequentes — secas extremas e enchentes registradas este ano em vários pontos do país deixaram mais de 500 mortos desde dezembro. As condições para um possível acordo climático no Egito são as piores possíveis, segundo Viola. Sem nenhum acordo global em vista, a possibilidade de limitar o aumento médio das temperaturas a 1,5 graus parece cada vez mais distante. Nas palavras de Márcio Astrini: "Seguimos caminhando em direção ao abismo".
Notable Quotes
Nós temos uma escolha. Ação coletiva ou suicídio coletivo. Está em nossas mãos.— António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas
As ondas de calor vão ser cada vez mais frequentes e extremas; que a atual situação da Europa sirva de alerta para políticos do mundo inteiro.— Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial
Seguimos caminhando em direção ao abismo.— Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima