Em uma democracia que se debate entre a proteção do voto e o controle sobre ele, o Serviço Postal dos Estados Unidos publicou 95 páginas de novas regras para restringir o voto por correio — um método que o próprio presidente Trump utilizou em março. A medida, originada em decreto assinado após anos de alegações infundadas de fraude em 2020, encontra-se suspensa por decisão judicial, e sua entrada em vigor antes das eleições legislativas de novembro depende de uma batalha nos tribunais que já chegou à Suprema Corte. O que está em jogo não é apenas um procedimento postal, mas a pergunta mais ant
EUA divulgam norma para restringir voto por correio, mas decisão judicial bloqueia implementação
Exceções de bom senso para pessoas como ele; restrição universal para os outros
Por que Trump insiste em restringir o voto por correio se ele próprio o usa?
Porque para ele a questão não é sobre o método em si, mas sobre quem o usa. Ele vê exceções para pessoas como ele — viajando, ocupadas — como razoáveis. O voto universal por correio, na visão dele, é o problema.
Mas a Constituição não dá ao presidente esse poder, certo?
Exatamente. Os estados argumentam que a Constituição deixa claro: estados e Congresso definem as regras eleitorais, não o presidente. É por isso que a juíza bloqueou tudo.
Então por que o Departamento de Justiça está pedindo à Suprema Corte para autorizar o decreto?
Porque Trump quer levar isso ao tribunal mais alto do país. Se conseguir uma vitória lá, pode contornar a decisão da juíza e implementar as regras antes de novembro.
E se a Suprema Corte disser não?
Então as regras não entram em vigor, e o voto por correio continua como está. Mas estamos em agosto — a decisão precisa vir rápido.
Qual é o risco real aqui para os eleitores?
Se as regras passarem, muita gente que votaria por correio pode ficar de fora — seja porque não está na lista federal, seja porque os prazos ficam mais apertados. É uma restrição de facto ao acesso ao voto.
E a fraude que Trump diz estar combatendo?
Não há evidência de fraude em larga escala. Estudos mostram que é raro. Mas a narrativa de Trump sobre 2020 continua sendo o motor de tudo isso.
O Pulso
- O USPS publicou regras detalhadas para endurecer o voto por correio, mas uma juíza federal já as bloqueou antes mesmo de entrarem em vigor.
- Trump precisa derrubar a proibição judicial até agosto para que as restrições valham nas eleições legislativas de novembro — e o Departamento de Justiça já pediu à Suprema Corte que intervenha.
- Estados contestam a constitucionalidade do decreto, argumentando que a Constituição reserva aos estados e ao Congresso — não ao presidente — o poder de regular eleições.
- A ironia política explodiu quando veio a público que Trump votou por correio nas primárias da Flórida em março, o mesmo método que tenta restringir nacionalmente.
- A Casa Branca tenta conciliar a contradição invocando 'exceções de bom senso', enquanto reafirma que o voto universal por correio seria 'altamente suscetível a fraudes'.
Em uma democracia que se debate entre a proteção do voto e o controle sobre ele, o Serviço Postal dos Estados Unidos publicou 95 páginas de novas regras para restringir o voto por correio — um método que o próprio presidente Trump utilizou em março. A medida, originada em decreto assinado após anos de alegações infundadas de fraude em 2020, encontra-se suspensa por decisão judicial, e sua entrada em vigor antes das eleições legislativas de novembro depende de uma batalha nos tribunais que já chegou à Suprema Corte. O que está em jogo não é apenas um procedimento postal, mas a pergunta mais antiga da vida pública: quem tem o direito de definir como o povo exerce sua voz.
O Serviço Postal dos Estados Unidos divulgou na sexta-feira um documento de 95 páginas com novas regras para endurecer os requisitos do voto por correio, previstas para entrar em vigor em 26 de agosto. O obstáculo é concreto: uma juíza federal de Boston, Indira Talwani, bloqueou a implementação, e o próprio USPS reconheceu que nada mudará enquanto o governo Trump não derrubar essa proibição nos tribunais.
Se as regras forem aplicadas, o Serviço Postal ficará proibido de coletar filiação partidária dos eleitores, inspecionar cédulas ou abrir envelopes — mantendo apenas dados externos como endereço e código de barras. Os estados também seriam obrigados a fornecer ao USPS listas de eleitores que receberam cédulas pelo correio. O decreto original vai além: determina a criação de um cadastro federal de cidadãos aptos a votar por correspondência, elaborado com dados de imigração e previdência social.
Trump justifica as restrições como barreira contra o voto de não cidadãos, mas autoridades e estudos apresentados no processo indicam que isso é raro e já constitui crime. Os estados que contestaram a medida argumentam que a Constituição atribui a eles — e ao Congresso, não ao presidente — a competência para definir as regras eleitorais. Uma corte de apelações manteve a suspensão em 23 estados e no Distrito de Colúmbia, mas o Departamento de Justiça já pediu à Suprema Corte que autorize o decreto.
No centro da batalha, uma contradição difícil de ignorar: em agosto, o Politico revelou que Trump votou por correio nas primárias republicanas da Flórida em março — exatamente o método que tenta restringir. A porta-voz da Casa Branca defendeu o presidente citando 'exceções de bom senso', mas reafirmou que o voto universal por correio não deveria ser permitido. Com as eleições legislativas de novembro se aproximando, o desfecho judicial promete moldar como milhões de americanos exercerão seu direito ao voto.
O Serviço Postal dos Estados Unidos divulgou na noite de sexta-feira um documento de 95 páginas contendo novas regras para endurecer os requisitos de votação por correio. As medidas estão programadas para entrar em vigor no dia 26 de agosto, mas há um problema: uma decisão judicial as bloqueia, e o governo Trump precisará conseguir uma liminar para que elas saiam do papel antes das eleições legislativas de novembro.
O decreto que originou essas regras foi assinado por Donald Trump em março, após anos de insistência — sem apresentar provas — de que sua derrota em 2020 resultou de fraude eleitoral generalizada. A juíza distrital Indira Talwani, de Boston, impediu o Serviço Postal de adotar as mudanças semanas atrás. O próprio USPS reconheceu publicamente que não implementará nada a menos que Trump consiga derrotar essa proibição nos tribunais.
Se as regras entrarem em vigor, o Serviço Postal não coletará nem registrará informações sobre filiação partidária dos eleitores. Os funcionários não poderão inspecionar o conteúdo das cédulas ou abrir envelopes lacrados. A agência manterá apenas os dados da parte externa dos envelopes — endereço e código de barras. Além disso, as regras exigem que os estados forneçam ao USPS listas de eleitores que receberam cédulas pelo correio, incluindo nomes e códigos de barras vinculados aos seus votos nas eleições federais.
O decreto original, que gerou essas regras, determina a criação de uma lista federal de cidadãos aptos a votar por correspondência, elaborada pelo Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA e pela Administração da Seguridade Social. As cédulas enviadas pelo correio seriam entregues apenas a pessoas incluídas nesse cadastro. Trump argumenta que a medida visa impedir o voto de pessoas sem cidadania americana, embora autoridades e estudos citados no processo indiquem que isso é raro nos EUA — e já é crime passível de deportação quando ocorre.
Os estados que contestaram a medida na Justiça argumentam que a Constituição americana atribui aos estados e ao Congresso, não ao presidente, a competência para definir as regras das eleições. Uma corte de apelações manteve a suspensão da medida em 23 estados e no Distrito de Colúmbia. Ainda assim, em 27 de julho, o Departamento de Justiça pediu à Suprema Corte que autorize a entrada em vigor do decreto.
Há uma ironia incômoda no centro dessa batalha. No dia 17 de agosto, o site Politico revelou que Trump usou o voto por correio para fazer sua escolha nas primárias republicanas da Flórida em março — exatamente o método que ele tenta restringir nacionalmente. Um dia após a publicação, a porta-voz da Casa Branca, Olivia Wales, defendeu o direito do presidente de votar pelo correio, citando "exceções de bom senso" para casos de doença, deficiência, serviço militar ou viagens. Ela reafirmou a posição de Trump de que o voto universal por correio não deveria ser permitido porque seria "altamente suscetível a fraudes".
Trump vem pressionando o Congresso desde seu retorno à Presidência para aprovar novas restrições ao voto, repetindo alegações infundadas sobre fraude eleitoral. A tensão política se intensifica conforme as eleições legislativas de novembro se aproximam, com o resultado dessa batalha judicial podendo moldar significativamente como milhões de americanos votarão.
Citações Notáveis
O voto universal por correio não deve ser permitido porque é altamente suscetível a fraudes— Porta-voz da Casa Branca Olivia Wales
A Constituição americana atribui aos estados e ao Congresso, não ao presidente, a competência para definir as regras das eleições— Argumentação dos estados que contestaram a medida