Em uma democracia que ainda carrega as cicatrizes de 6 de janeiro de 2021, o juiz conservador aposentado J. Michael Luttig — o mesmo que impediu o golpe naquele dia — ergue agora um novo alerta: caso os democratas vençam as eleições legislativas de novembro de 2026, existe um caminho técnico e deliberado pelo qual a posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, poderia ser sabotada por dentro das próprias instituições. A advertência não vem de um adversário de Trump, mas de um republicano de princípios que conhece, de perto, o peso e a fragilidade do juramento constitucional.
EUA discutem cenário de golpe pró-Trump na posse do Congresso em 2027
A ideia de transmissão pacífica do poder foi corrompida
Por que um juiz conservador aposentado está soando o alarme sobre um golpe que ainda não aconteceu?
Porque Luttig viu de perto como quase funcionou em 2021. Ele sabe que as pessoas que tentaram então ainda estão no poder, e que agora têm um roteiro melhor.
Mas isso é especulação. Luttig está descrevendo um cenário técnico possível, não dizendo que vai acontecer. Qual é a probabilidade real?
Ninguém sabe. Mas o ponto não é a probabilidade. É que as peças estão no tabuleiro. Johnson está lá. Trump está lá. A lealdade ao partido está lá.
E se os democratas vencerem em novembro, como Luttig assume?
Então o teste é real. Ou as instituições seguram, ou não.
Mas há uma diferença entre "isso é tecnicamente possível" e "isso vai acontecer". O artigo de Luttig descreve um caminho. Não diz que é provável.
Verdade. Mas Luttig não é um alarmista. É um republicano que impediu um golpe antes. Quando alguém assim fala, vale ouvir.
E qual é a saída que ele propõe?
Um acordo bipartidário agora, antes de janeiro, para garantir que o resultado será respeitado.
Que é basicamente pedir aos políticos que façam seu trabalho. Não é exatamente uma solução robusta.
Não. Mas é tudo o que temos.
O Pulso
- Trump repete que venceu três vezes e já sinalizou que não aceitará uma derrota republicana nas eleições legislativas de novembro — a mentira fundadora de uma crise ainda por vir.
- Luttig detalha um mecanismo preciso: Mike Johnson poderia destituir o secretário da Câmara e substituí-lo por um aliado MAGA para suspender a posse dos democratas eleitos, paralisando o país por meses.
- O emaranhado jurídico que se seguiria levaria o conflito até a Suprema Corte, abrindo uma janela perigosa para que narrativas de fraude fossem fabricadas e a transmissão do poder ficasse em suspenso.
- Diante do cenário, Luttig propõe o que parecia impensável: um acordo bipartidário firmado antes de janeiro de 2027, para que republicanos e democratas se comprometam publicamente a honrar o resultado das urnas.
- O precedente brasileiro de 8 de janeiro de 2023 ecoa no horizonte — lembrando que o veneno semeado em 2021 não ficou contido dentro das fronteiras americanas.
Em uma democracia que ainda carrega as cicatrizes de 6 de janeiro de 2021, o juiz conservador aposentado J. Michael Luttig — o mesmo que impediu o golpe naquele dia — ergue agora um novo alerta: caso os democratas vençam as eleições legislativas de novembro de 2026, existe um caminho técnico e deliberado pelo qual a posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, poderia ser sabotada por dentro das próprias instituições. A advertência não vem de um adversário de Trump, mas de um republicano de princípios que conhece, de perto, o peso e a fragilidade do juramento constitucional.
Donald Trump repete sem cessar que venceu três vezes — em 2016, em 2020 e em 2024 — ignorando a derrota para Biden e o golpe fracassado daquele ano. É com essa narrativa que ele move suas ambições e, agora, recusa-se a aceitar qualquer resultado nas eleições legislativas de novembro que signifique perder o controle do Congresso. Os republicanos, porém, estão perdendo terreno, e as pesquisas apontam para uma vitória democrata tanto na Câmara quanto no Senado.
Foi nesse contexto que a revista The New Republic publicou um artigo que sacudiu o establishment político americano. Seu autor, J. Michael Luttig, é um juiz conservador aposentado que em 6 de janeiro de 2021 convenceu o vice-presidente Mike Pence a cumprir sua obrigação constitucional e dar posse a Biden, mesmo enquanto multidões incitadas por Trump atacavam o Capitólio. Agora, Luttig vê um caminho pelo qual aquele ataque contido poderia se consumar — não durante a proclamação dos resultados de novembro, mas durante a posse do Congresso em 3 de janeiro de 2027.
O cenário que ele descreve começa com a vitória democrata nas urnas. Em resposta, Mike Johnson e sua bancada denunciariam fraude eleitoral e Johnson usaria o regimento interno para destituir o secretário da Câmara, Kevin McCumber — um homem respeitado que se recusaria a alterar as listas da nova legislatura —, substituindo-o por um aliado do movimento MAGA. O resultado seria a suspensão da posse dos democratas eleitos, um labirinto jurídico que chegaria até a Suprema Corte e meses de paralisia institucional, com a transmissão do poder em suspenso.
Luttig reconhece que tudo isso é um cenário, não uma certeza. Mas o veneno de 2021 — quando republicanos juraram colocar Trump acima do país — continua circulando. Por isso, ele propõe algo que parecia impensável: um acordo bipartidário firmado desde já, pelo qual congressistas de ambos os partidos se comprometam a honrar o resultado eleitoral. Só assim, argumenta, será possível reafirmar a autoridade que emana das três palavras que abrem a Constituição americana: 'Nós, o Povo'.
Donald Trump tem um mantra que repete sem cessar: "Ganhei três vezes". Não importa que tenha perdido para Joe Biden em 2020, que tenha planejado um golpe que fracassou naquela ocasião, ou que tenha retornado ao poder com uma margem apertada no voto popular e apenas uma vantagem modesta no Colégio Eleitoral. Para ele, venceu em 2016, em 2020 e em 2024. É com essa mentira que ele move suas ambições políticas. Em março deste ano, impôs ao país um conjunto de regras eleitorais que vem sendo progressivamente desmantelado em meio a uma confusão jurídica considerável. Agora, ele não aceitará qualquer resultado nas eleições legislativas de novembro que não signifique a manutenção de seu controle sobre as duas casas do Congresso.
Os republicanos estão perdendo terreno. Trump é impopular. Os democratas devem vencer na Câmara e no Senado. Mas o presidente insiste em sua campanha que "eu estou na cédula", como se sua presença pessoal fosse garantia de vitória. A realidade política, porém, aponta para uma derrota republicana nas urnas.
Há dias, a revista The New Republic publicou um artigo que sacudiu o establishment político americano. Seu autor é J. Michael Luttig, um juiz conservador aposentado da Corte de Apelação. Luttig não é um observador distante dos eventos recentes. Foi ele quem, em 6 de janeiro de 2021, convenceu o então vice-presidente Mike Pence a cumprir sua obrigação constitucional e dar posse a Biden, mesmo enquanto Trump, já derrotado, incitava multidões a atacar o Capitólio. Aquele dia infame foi tristemente replicado no Brasil em 8 de janeiro de 2023.
No artigo intitulado "A Batalha Final pela Democracia na América", Luttig oferece uma previsão técnica de outro golpe. Ele não é apenas uma testemunha da história recente, mas um republicano de princípios que agora vê um caminho pelo qual aquele ataque à democracia, contido em 2021, poderia se consumar desta vez. Não durante a proclamação dos resultados eleitorais de novembro, mas durante a posse do Congresso em 3 de janeiro de 2027.
O cenário que Luttig descreve começa com uma premissa: os democratas vencerão as eleições. Nesse caso, Mike Johnson, presidente da Câmara e republicano, junto com sua bancada, ecoando Trump, denunciarão uma "fraude eleitoral". Johnson usaria o regimento interno para destituir Kevin McCumber, o atual secretário da Câmara, um homem respeitado que se recusaria a alterar as listas de membros da nova legislatura. McCumber seria substituído por alguém leal ao movimento MAGA. Já há nomes sendo cotados para o cargo.
O resultado seria um caos tal que a posse dos democratas eleitos seria suspensa. Eles recorreriam aos juízes federais, é verdade, mas o emaranhado legal teria um longo caminho até a Suprema Corte. Nesse intervalo, narrativas poderiam ser fabricadas para anular a eleição. O país ficaria paralisado por meses, com as instituições travadas e a transmissão do poder em suspenso.
Pode-se argumentar que tudo isso é especulação futurológica. Mas o cheiro da crise já está no ar. Talvez não se desenrole exatamente desse jeito, mas o veneno de 2021 continua circulando. Naquela ocasião, a ideia de uma transmissão pacífica e legítima do poder foi corrompida. Como Luttig destaca, republicanos do Congresso atual fizeram um juramento solene seis anos atrás não apenas de colocar o partido acima do país, mas de colocar Trump acima de tudo.
Por isso, Luttig propõe algo que parecia impensável: um acordo entre congressistas republicanos e democratas, firmado já agora, para garantir o cumprimento dos resultados eleitorais. Só assim, diz ele, reforçarão a autoridade que emana daquelas três palavras que abrem a Constituição: "Nós, o Povo".
Citações Notáveis
Republicanos do Congresso atual fizeram um juramento solene, seis anos atrás, de não só colocar o partido acima do país, mas de colocar Trump acima de tudo— J. Michael Luttig, em análise do comportamento político republicano