Brasil figura entre China, EUA e Rússia como líder global em potencial para transição energética e desenvolvimento de indústria verde até 2050. Nordeste possui vantagens competitivas em sete setores críticos: minerais críticos, baterias, veículos elétricos, combustíveis sustentáveis, energia eólica, aço baixo carbono e fertilizantes verdes.
Estudo Johns Hopkins aponta Nordeste como potência da indústria verde global
O Brasil tem os recursos. O que falta é garantir que as pessoas estejam prontas.
Por que exatamente o Nordeste? Não seria mais natural que São Paulo ou o Sul liderassem essa transição?
O Nordeste tem algo que nenhuma outra região brasileira oferece na mesma escala: minerais críticos em abundância, ventos constantes para energia eólica, e agora investimentos chineses massivos em baterias e veículos elétricos. Camaçari já é um polo. Mas também há uma razão geográfica — fica mais perto dos mercados globais pelo Atlântico.
Então a China está apostando no Nordeste como base de exportação?
Exatamente. A BYD, a GWM e a Goldwind não estão lá por caridade. Estão construindo fábricas porque enxergam o Nordeste como porta de entrada para a América Latina e além. É geopolítica da transição energética.
Mas o estudo menciona um gargalo de 14 milhões de trabalhadores. Como o Brasil fecha essa lacuna?
Os Institutos Federais são a aposta. Expandir de 682 para 1.000 unidades, com 80% das vagas dedicadas ao treinamento vocacional, é ambicioso. Mas exige que o currículo mude — não pode ser genérico. Precisa estar conectado aos setores que estão crescendo ali.
E se o Brasil não conseguir treinar essas pessoas a tempo?
Então perde a liderança. A China, os EUA e a Rússia não vão esperar. Os investimentos vão para onde há mão de obra preparada. É uma corrida contra o relógio.
Qual é o setor mais promissor para o Nordeste começar?
Energia eólica é o mais maduro — o Brasil já é terceiro no mundo. Mas baterias e veículos elétricos são onde está o dinheiro de verdade agora. Se conseguir alinhar a capacitação com esses dois setores, o Nordeste muda de patamar.
The Pulse
- Brasil entre China, EUA e Rússia como líder global em potencial para indústria verde até 2050
- Nordeste em destaque em sete setores críticos: minerais críticos, baterias, veículos elétricos, combustíveis sustentáveis, energia eólica, aço baixo carbono e fertilizantes verdes
- Brasil precisa de 14 milhões de trabalhadores para indústria verde; tem uma das menores taxas de educação vocacional da OCDE
- Governo anunciou 100 novos Institutos Federais com 140 mil vagas, expandindo de 682 para 1.000 unidades
- Brasil é terceiro maior mercado mundial de energia eólica
Brasil figura entre China, EUA e Rússia como líder global em potencial para transição energética e desenvolvimento de indústria verde até 2050. Nordeste possui vantagens competitivas em sete setores críticos: minerais críticos, baterias, veículos elétricos, combustíveis sustentáveis, energia eólica, aço baixo carbono e fertilizantes verdes.
Estudo da Universidade Johns Hopkins aponta Brasil entre os quatro países com maior potencial para indústria verde, com Nordeste em evidência nas projeções até 2050 pela abundância de recursos renováveis e minerais críticos.
Uma pesquisa divulgada pela Universidade Johns Hopkins coloca o Brasil em um grupo seleto de nações com o maior potencial para liderar a indústria verde global nas próximas décadas. Segundo o estudo, apenas China, Estados Unidos e Rússia compartilham essa posição de destaque — e a região Nordeste emerge como eixo central dessa transformação econômica projetada até 2050.
O relatório, elaborado pelo Net Zero Industrial Policy Lab vinculado à universidade americana, contou com participação de dois pesquisadores brasileiros: Adriana Mandacaru Guerra e Renato Henrique de Gaspi. Eles analisaram sete setores críticos para a economia verde do futuro: minerais críticos, baterias, veículos elétricos híbridos com biocombustíveis, combustíveis sustentáveis para aviação, equipamentos para energia eólica, aço com baixo carbono e fertilizantes verdes. O que torna o Brasil competitivo nessa corrida é a combinação de três fatores: abundância de recursos renováveis, reservas significativas de minerais críticos e uma base industrial já estabelecida.
Os minerais críticos — incluindo as terras raras — são elementos químicos essenciais para a transição energética. Estão presentes em ímãs, turbinas eólicas, painéis solares, baterias, telas de televisão e celulares, além de motores de veículos elétricos. O Brasil já demonstra liderança em alguns desses setores. Mandacaru destaca que o país é o terceiro maior mercado mundial de energia eólica, uma posição que reflete décadas de investimento em fontes renováveis.
O capital estrangeiro já está chegando. A China investe na região através de fábricas de baterias e veículos elétricos das montadoras BYD e GWM, além de expandir a presença da Goldwind, a maior fabricante de turbinas eólicas do planeta. Esses investimentos criam clusters tecnológicos em torno das energias renováveis e da manufatura verde, gerando demanda por trabalhadores especializados.
Aqui emerge o maior desafio. A Confederação Nacional da Indústria estima que o Brasil precisará de 14 milhões de pessoas para atender à demanda por trabalhadores formais na indústria verde. O problema é estrutural: o Brasil tem uma das menores taxas de matrícula em educação e treinamento vocacional entre todos os países membros e parceiros da OCDE. Essa lacuna ameaça desperdiçar o potencial econômico que a geografia e os recursos naturais oferecem.
O governo federal identificou uma estratégia. Em março de 2024, o presidente Lula anunciou a criação de cem novos Institutos Federais com 140 mil vagas, financiados pelo novo PAC. Diferentemente dos IFs anteriores, que dedicavam 50% de suas vagas ao ensino vocacional, essas novas unidades serão obrigadas a oferecer pelo menos 80%. A meta é expandir de 682 IFs para 1.000 em todo o país. O relatório sugere que um próximo passo crucial seria alinhar esses investimentos com a agenda de descarbonização brasileira, desenvolvendo currículos específicos. Um exemplo concreto: adaptar o programa de Técnico em Eletrotécnica do Instituto Federal de Camaçari (BA) para atender às demandas dos setores de veículos elétricos e energia eólica que crescem naquela região.
O que está em jogo é mais do que números econômicos. A transição energética global criará vencedores e perdedores nas próximas três décadas. O Brasil tem os recursos naturais, a base industrial e agora o reconhecimento internacional de seu potencial. O que falta é garantir que milhões de brasileiros — especialmente no Nordeste — estejam preparados para ocupar os postos de trabalho que essa transformação criará.
Notable Quotes
O Brasil é um dos líderes globais no setor de energia eólica, sendo classificado como terceiro maior mercado do mundo— Adriana Mandacaru Guerra, pesquisadora brasileira do estudo
A China está investindo na produção brasileira com uma série de fábricas de baterias e veículos elétricos da BYD e da GWM e expandindo a presença da Goldwind, a maior fabricante de turbinas eólicas do mundo— Relatório da Universidade Johns Hopkins