Nas profundezas do oceano e dos laboratórios brasileiros, uma descoberta silenciosa reescreve o que sabemos sobre a consciência e o descanso: polvos dormem em dois estágios distintos, espelhando de forma surpreendente o ciclo de sono humano. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte revelaram que esses invertebrados — separados de nós por 500 milhões de anos de evolução — desenvolveram independentemente padrões de sono análogos ao REM, sugerindo que o sonho, ou algo muito próximo dele, pode ser uma solução que a vida descobriu mais de uma vez. A descoberta nos convida a reco
Estudo brasileiro revela que polvos têm dois estados de sono similares aos humanos
Se sonham, devem ser como pequenos videoclipes, ou até GIFs
Por que isso importa? Polvos dormem, humanos dormem — qual é a grande descoberta?
A questão é que os polvos e os humanos divergiram evolutivamente há mais de 500 milhões de anos. Se desenvolveram o mesmo tipo de sono independentemente, isso nos diz algo profundo sobre como a natureza resolve problemas biológicos.
Mas espera — eles realmente sabem que é "sono"? Ou é só que o animal fica quieto e depois se mexe?
Boa pergunta. Eles observaram mudanças fisiológicas: alterações de cor, movimento ocular, contrações musculares. É mais do que apenas ficar parado.
E a parte dos sonhos? Eles têm evidência de que o polvo está sonhando?
Não diretamente. Sylvia Medeiros disse que os padrões são "análogos" ao sono REM humano, onde os sonhos acontecem. Mas ela foi cuidadosa — disse que se estão sonhando, provavelmente são sonhos muito curtos.
Então é especulação educada, não confirmação.
Exatamente. Eles estão sugerindo a possibilidade com base em padrões comportamentais e fisiológicos que se parecem com o que vemos em humanos.
Como eles observaram isso? Colocaram câmeras nos polvos?
Observaram em laboratório. Espécies chamadas Octopus insularis. Mapearam os ciclos de sono e as mudanças que acompanhavam cada estágio.
E quanto à "evolução convergente"? Isso é realmente tão raro?
Não é raro em geral, mas é notável quando você vê características cognitivas sofisticadas em duas linhagens com arquiteturas cerebrais radicalmente diferentes.
Então o que vem depois? O que os pesquisadores querem fazer agora?
O estudo abre portas. Agora você pode comparar como dois cérebros muito diferentes resolvem o problema do sono. Isso pode revelar princípios universais sobre por que dormimos.
Il Polso
- Polvos passam por ciclos de 'sono quieto' e 'sono ativo' que imitam de forma perturbadora o sono não-REM e REM dos humanos, incluindo movimentos oculares e espasmos musculares.
- A possibilidade de que esses animais estejam sonhando desafia fronteiras científicas estabelecidas sobre quais criaturas possuem vida interior suficientemente complexa.
- O abismo evolutivo de 500 milhões de anos entre humanos e polvos torna impossível uma herança comum desses padrões, forçando a ciência a confrontar o fenômeno da evolução convergente.
- Pesquisadores alertam que qualquer 'sonho' do polvo seria brevíssimo — segundos, não narrativas — mais próximo de um flash de imagem do que de uma história.
- O estudo abre uma janela rara para comparar arquiteturas cerebrais radicalmente diferentes que chegaram a funções biológicas surpreendentemente similares.
Nas profundezas do oceano e dos laboratórios brasileiros, uma descoberta silenciosa reescreve o que sabemos sobre a consciência e o descanso: polvos dormem em dois estágios distintos, espelhando de forma surpreendente o ciclo de sono humano. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte revelaram que esses invertebrados — separados de nós por 500 milhões de anos de evolução — desenvolveram independentemente padrões de sono análogos ao REM, sugerindo que o sonho, ou algo muito próximo dele, pode ser uma solução que a vida descobriu mais de uma vez. A descoberta nos convida a reconsiderar os limites da mente e a vastidão do que ainda não compreendemos sobre a experiência de existir.
O polvo já carrega consigo um repertório de estranhezas: oito braços, três corações, sangue azul. Mas um estudo publicado em março de 2021 por cientistas brasileiros acrescentou algo ainda mais desconcertante a essa lista — o animal dorme de forma notavelmente parecida com a gente.
Observando a espécie Octopus insularis em laboratório, os pesquisadores identificaram dois estágios de sono bem definidos. No primeiro, o 'sono quieto', o polvo permanece imóvel, com a pele pálida e as pupilas em fenda, por cerca de sete minutos. Em seguida vem o 'sono ativo': mudanças rápidas de cor e textura, movimentos oculares coordenados e contrações musculares — tudo em menos de um minuto. O ciclo então recomeça.
A semelhança com o sono REM humano é difícil de ignorar. É durante o REM que os olhos se movem rapidamente, os músculos se paralisam e os sonhos mais vívidos acontecem. Sylvia Medeiros, autora principal e pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN, sugeriu que os polvos podem estar sonhando — mas com cautela. Qualquer sonho seria brevíssimo, disse ela, mais próximo de um GIF do que de uma narrativa.
O que torna a descoberta ainda mais profunda é o que ela revela sobre a evolução. O ancestral comum entre humanos e polvos viveu há mais de 500 milhões de anos, tornando improvável que esses padrões de sono tenham sido herdados. Os dois grupos os desenvolveram de forma independente — evolução convergente. Para Sidarta Ribeiro, coautor do estudo e fundador do Instituto do Cérebro, isso oferece uma oportunidade única: entender como cérebros completamente diferentes podem chegar às mesmas soluções biológicas.
O polvo já impressiona por seus oito braços, três corações e sangue azul. Mas pesquisadores brasileiros descobriram algo ainda mais notável: o animal dorme de forma surpreendentemente parecida com a gente.
Um estudo publicado na quinta-feira (25 de março) por cientistas do Brasil revelou que os polvos, já reconhecidos como os invertebrados mais inteligentes do planeta, passam por dois estados de sono distintos que guardam uma semelhança estranha com o ciclo do sono humano. A pesquisa sugere até que esses animais possam estar sonhando. Os achados reforçam a ideia de que os polvos possuem uma neurobiologia muito mais complexa e sofisticada do que se imaginava, capaz de sustentar comportamentos igualmente elaborados.
Antes deste trabalho, já se sabia que polvos dormiam e mudavam de cor enquanto adormeciam. Mas faltava entender como. Os pesquisadores observaram em laboratório uma espécie chamada Octopus insularis e mapearam dois estágios distintos. No primeiro, chamado de "sono quieto", o animal fica imóvel, com a pele pálida e as pupilas reduzidas a fendas. Dura cerca de sete minutos. Depois vem o "sono ativo": o polvo muda rapidamente de cor e textura, move os olhos de forma coordenada, contrai as ventosas e o corpo em espasmos musculares. Essa fase dura menos de um minuto. O ciclo se repete.
O padrão é notavelmente parecido com o que os cientistas chamam de sono REM nos humanos — aquele em que os olhos se mexem rapidamente, a respiração fica irregular, o coração bate mais rápido e os músculos ficam paralisados para você não agir durante os sonhos. É durante o REM que os sonhos vívidos acontecem. O sono não-REM, em contraste, é mais profundo e menos onírico.
Sylvia Medeiros, autora principal do estudo e pesquisadora do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sugeriu que os polvos podem estar sonhando — ou experimentando algo muito próximo disso. Mas com ressalvas. "Se os polvos sonham de fato, é improvável que eles experimentem enredos simbólicos complexos como nós fazemos", disse ela. Como o "sono ativo" do polvo dura apenas alguns segundos a um minuto, qualquer sonho seria mais como um pequeno videoclipe ou um GIF, acrescentou.
O que torna essa descoberta particularmente intrigante é o que ela sugere sobre a evolução. O último ancestral comum entre vertebrados (incluindo humanos) e cefalópodes (o grupo dos polvos) viveu há mais de 500 milhões de anos. É altamente improvável que padrões de sono tão similares tivessem sido estabelecidos antes dessa divergência evolutiva. Isso significa que os dois grupos desenvolveram sistemas de sono parecidos de forma independente — um fenômeno chamado de "evolução convergente". Sidarta Ribeiro, coautor do estudo e fundador do Instituto do Cérebro, destacou que investigar o sono nos polvos oferece uma oportunidade única de comparação. Os polvos possuem características cognitivas sofisticadas que normalmente só se veem em vertebrados, mas com uma arquitetura cerebral completamente diferente. Isso abre uma janela para entender como diferentes cérebros podem chegar a soluções biológicas similares.
Citazioni salienti
Se os polvos sonham de fato, é improvável que eles experimentem enredos simbólicos complexos como nós fazemos— Sylvia Medeiros, Instituto do Cérebro da UFRN
A investigação do sono nos polvos nos dá um ponto de vantagem para comparação psicológica e neurobiológica com vertebrados, já que o polvo tem características cognitivas sofisticadas com uma arquitetura cerebral muito diferente— Sidarta Ribeiro, coautor do estudo e fundador do Instituto do Cérebro