Estudante que trabalhava no McDonald's conquista vaga em Física na USP pelo Provão Paulista

A história ilustra as dificuldades enfrentadas por estudantes de baixa renda que precisam trabalhar enquanto estudam, refletindo desigualdades educacionais no Brasil.
Os intervalos, os sábados e os domingos tornaram-se parte de sua rotina
Giovanna estudava nos pequenos períodos disponíveis enquanto trabalhava em tempo integral e cursava ensino médio noturno.
Mark

Por que você acha que a história de Giovanna importa agora, em 2026?

Mimi

Porque ela mostra que ampliar as formas de ingresso não é suficiente sozinho. O Provão Paulista abriu a porta, mas Giovanna precisou estar pronta para atravessá-la. Ela trabalhou, estudou à noite, e ainda assim encontrou tempo para se preparar. Isso não é inspirador apenas — é um indício de quanto talento está sendo desperdiçado entre estudantes que não têm essas oportunidades.

Mark

Você mencionou que ela considerou o Provão mais difícil que o Enem. O que isso diz sobre o processo?

Mimi

Diz que o Provão não é uma porta mais fácil. É uma porta diferente, talvez mais rigorosa. Giovanna não estava buscando o caminho mais simples; estava buscando qualquer caminho que a levasse para dentro. A dificuldade não a desanimou porque o objetivo era maior que a prova.

Mark

Como você imagina que será a experiência dela agora, em um curso de Física Computacional?

Mimi

Ela já sabe como estudar sob pressão, como organizar seu próprio aprendizado, como extrair produtividade de períodos fragmentados. Mas agora ela não precisa trabalhar no McDonald's. Pode se dedicar integralmente ao curso. A questão é se ela conseguirá desacelerar, se conseguirá permitir-se apenas estudar, sem culpa, sem a sensação de que deveria estar fazendo mais.

Mark

Você acha que sua história vai mudar algo no sistema educacional brasileiro?

Mimi

Não por si só. Mas se muitos estudantes como Giovanna conseguirem entrar, se conseguirem se formar, se conseguirem trabalhar em ciência — aí sim, o sistema muda. Não é uma história que muda tudo de uma vez. É uma história que, multiplicada, pode mudar tudo.

Mark

O que você acha que Giovanna diria se soubesse que sua história estava sendo contada?

Mimi

Acho que ela diria que não fez nada de extraordinário. Que apenas fez o que precisava fazer. E talvez esse seja o ponto mais importante: o extraordinário não deveria ser necessário para que alguém de uma escola pública conseguisse entrar em uma universidade de ponta.

  • Giovanna dividia cada dia em três turnos sem folga: trabalho integral, aulas noturnas e estudo solitário nos intervalos — uma rotina que deixava pouco espaço para erro ou descanso.
  • A ausência de cursinho preparatório significava que ela precisava identificar suas próprias lacunas, controlar seu ritmo e manter a motivação sem qualquer orientação profissional.
  • O Provão Paulista surgiu como uma rota alternativa real, oferecendo vagas diretas nas universidades públicas paulistas a estudantes que concluíam o ensino médio em escolas públicas.
  • Giovanna considerou o Provão mais difícil que o Enem, mas a redação sobre combate à fome — tema que ela conhecia de perto — revelou uma candidata que não apenas estudava o Brasil, mas o vivia.
  • A aprovação em Física Computacional no Instituto de Física de São Carlos da USP transformou anos de fragmentos de tempo roubados em um projeto científico concreto e em andamento.

Em Louveira, interior de São Paulo, Giovanna Cardoso construiu sua candidatura à universidade nos únicos espaços que o tempo lhe deixava: os intervalos do trabalho no McDonald's, as madrugadas após a escola noturna, os fins de semana sem descanso. Aos 18 anos, sem cursinho e sem rede de apoio formal, ela conquistou uma vaga em Física Computacional na USP pelo Provão Paulista — um programa que, em sua primeira edição, abriu 1.500 portas para estudantes de escolas públicas. A história de Giovanna não é apenas sobre mérito individual; é sobre o que acontece quando uma política de acesso encontra alguém que já havia decidido, há muito tempo, não desistir.

Giovanna Cardoso saía do turno no McDonald's e seguia direto para a escola. Noite após noite, cursava o ensino médio em período noturno em Louveira, no interior de São Paulo, e reservava os intervalos do trabalho, as madrugadas e os fins de semana para estudar sozinha — sem cursinho, sem professor particular, sem a estrutura que a maioria dos candidatos às universidades públicas considera indispensável.

Essa preparação fragmentada exigia uma disciplina quase obsessiva. Cada minuto livre era uma oportunidade de revisar uma matéria ou resolver uma questão. Sem turma ou orientador, ela precisava mapear suas próprias dificuldades e manter o ritmo enquanto conciliava responsabilidades que consumiam praticamente todo o seu tempo.

O Provão Paulista representou uma abertura concreta. Em sua primeira edição, o programa ofereceu 1.500 vagas na USP — cerca de 13,5% das oportunidades da universidade naquele período, com 555 reservadas para estudantes pretos, pardos e indígenas. Para Giovanna, que havia estudado em escola pública durante toda a vida, o programa multiplicou suas chances. Ela prestou diferentes processos seletivos e considerou o Provão mais desafiador que o Enem; a redação sobre combate à fome, longe de ser um tema abstrato, tocava diretamente na realidade que ela mesma enfrentava.

A aprovação veio em Física Computacional no Instituto de Física de São Carlos da USP — um curso denso, com física teórica, cálculo, mecânica clássica, física quântica e ferramentas computacionais aplicadas à ciência. Não foi uma escolha aleatória: desde criança, Giovanna sonhava em usar a tecnologia para compreender o mundo físico. Durante a recepção dos calouros, ela escreveu 'Física' e 'USP' nos braços, marcando no corpo a realização de um projeto construído em silêncio, nos intervalos que ninguém via.

Sua trajetória revela tanto o peso das barreiras enfrentadas por estudantes de baixa renda quanto o que se torna possível quando novas políticas de acesso encontram quem já havia decidido, há muito tempo, não parar.

Giovanna Cardoso saía do turno no McDonald's e seguia direto para a sala de aula. Era assim, noite após noite, enquanto cursava o ensino médio em período noturno na Escola Estadual Professor Joaquim Antônio Ladeira, em Louveira, no interior de São Paulo. Aos 18 anos, ela havia transformado sua rotina em um quebra-cabeça de horas roubadas: o dia inteiro no trabalho, a noite na escola, e os intervalos, madrugadas e fins de semana reservados para estudar sozinha, sem cursinho, sem estrutura formal, apenas com a determinação de chegar à universidade.

Não havia espaço em sua vida para a preparação tradicional. Enquanto outros estudantes frequentavam salas de aula especializadas em revisão de conteúdo, Giovanna precisava organizar seu próprio aprendizado nos pequenos períodos que conseguia extrair do dia. Ela estudava durante os intervalos do trabalho, aproveitava as noites depois da escola, ocupava os sábados e domingos com leitura, exercícios e revisão. Essa preparação fragmentada exigia uma continuidade quase obsessiva: cada minuto livre era uma oportunidade de avançar, de revisar uma matéria, de resolver uma questão. Sem a estrutura de uma turma ou de um professor particular, ela precisava identificar suas próprias dificuldades, controlar seu ritmo, manter-se motivada enquanto conciliava responsabilidades que consumiam praticamente todo seu tempo.

O Provão Paulista abriu uma porta que talvez não existisse de outra forma. Criado como uma nova rota de acesso às universidades públicas paulistas, o processo oferecia vagas diretas na USP, Unicamp, Unesp, Unifesp, nas Fatecs e na Univesp. Na primeira edição, a USP destinou 1.500 vagas ao programa — aproximadamente 13,5% de suas oportunidades naquele período. Dessas, 555 foram reservadas para estudantes pretos, pardos e indígenas. Para Giovanna, que havia estudado em escola pública durante toda sua trajetória, o Provão representou uma ampliação real das possibilidades. Ela não apenas prestou essa prova; prestou diferentes processos seletivos, multiplicando suas chances de entrada no ensino superior público.

Quando Giovanna se sentou para fazer o Provão Paulista em 2023, no último ano do ensino médio, ela considerou a prova mais desafiadora que o Enem. A redação pediu uma análise sobre o combate à fome — um tema que permitia conectar a situação social brasileira com argumentos sobre um problema vivido por milhões de pessoas. Para uma estudante que conhecia de perto os efeitos da desigualdade econômica sobre as oportunidades educacionais, o tema não era abstrato. Era a realidade que ela mesma enfrentava.

Sua aprovação veio em Física Computacional no Instituto de Física de São Carlos da USP. O curso não é apenas programação, apesar do nome. É uma formação sólida em Física — com disciplinas como Física I, II, III e IV, cálculo, álgebra linear, mecânica clássica, física quântica, termodinâmica e eletromagnetismo — combinada com ferramentas computacionais aplicadas à solução de problemas científicos. Nos primeiros períodos, Giovanna cursaria Física, cálculo, geometria analítica, laboratório, Química, Física II, Cálculo II e fundamentos de programação. Depois, poderia escolher entre três trilhas: métodos computacionais, análise de imagens ou instrumentação eletrônica. Era um curso que exigia dedicação contínua, carga elevada de disciplinas teóricas e práticas.

Mas Giovanna já havia cultivado essa dedicação. Desde criança, ela sonhava em se dedicar à ciência. A escolha de Física Computacional não foi aleatória; refletia seu interesse em usar ferramentas tecnológicas para resolver problemas científicos, em compreender como a computação poderia servir à compreensão do mundo físico. Durante a recepção dos novos alunos na USP, ela escreveu as palavras "Física" e "USP" nos braços — um gesto que marcava a realização de um projeto construído enquanto ela conciliava emprego, escola pública e preparação independente.

Sua história não é apenas sobre uma estudante brilhante que conseguiu entrar em uma universidade de ponta. É sobre o peso das barreiras que ela precisou transpor: a necessidade de trabalhar enquanto estudava, a falta de acesso a cursinho preparatório, a exigência de organizar seu próprio aprendizado sem orientação profissional. É também sobre o impacto de políticas que ampliam as formas de ingresso. O Provão Paulista criou uma rota direta para estudantes de escolas públicas que estavam concluindo o ensino médio. Mas essa rota só funcionou porque Giovanna estava pronta — porque havia dedicado seus intervalos, seus fins de semana, suas madrugadas ao estudo.

Agora ela está em São Carlos, em um curso que exige o mesmo tipo de dedicação que ela já havia demonstrado. O desafio da aprovação foi substituído pelo trabalho necessário para avançar dentro da graduação. Sua trajetória ilustra tanto as dificuldades reais enfrentadas por estudantes de baixa renda quanto o potencial que existe quando novas oportunidades de acesso encontram determinação pessoal.

Giovanna considerou o Provão Paulista mais difícil que o Enem, mas viu no processo uma ampliação real das oportunidades para estudantes de escolas públicas
— Giovanna Cardoso, em depoimento à USP
Desde criança, Giovanna sonhava em se dedicar à ciência e escolheu Física Computacional pela possibilidade de usar ferramentas tecnológicas em problemas científicos
— Giovanna Cardoso
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