Quando os preços dos combustíveis atingem o pico mais alto do ano, a questão de quem lucra com essa escalada revela-se tão complexa quanto politicamente inflamável. O PS aponta para ganhos fiscais acumulados desde 2024, enquanto o Governo sublinha o esforço de neutralidade através do ajuste semanal do ISP — e ambos têm razão, apenas em momentos distintos da mesma história. No fundo, o debate esconde uma verdade incómoda: quando os preços sobem demasiado, o próprio mercado retrai-se, e o Estado acaba por arrecadar menos do que esperava.
Estado lucra ou perde com combustíveis? PS e Governo divergem nas contas
O Estado não está a arrecadar um cêntimo a mais com o IVA
Como é que duas pessoas podem olhar para os mesmos números e chegar a conclusões tão diferentes?
Porque estão a olhar para períodos diferentes. O PS vê 2024 e 2025, quando o ISP foi recuperado gradualmente. O Governo vê desde março deste ano, quando começou a ajustar o ISP semanalmente.
Mas espera — o PS diz que o Estado ganhou 1.048 milhões. O Governo diz que abdicou de 700 milhões. Esses números não são contraditórios?
Não, porque medem coisas diferentes. O PS está a dizer quanto o Estado cobrou a mais em impostos. O Governo está a dizer quanto deixou de cobrar em relação ao que poderia ter cobrado.
Então quem tem razão?
Os dois. Mas a verdade é mais complicada. O Estado ganhou dinheiro entre 2024 e 2025, sim. Mas desde março está a fazer um esforço real para neutralizar esses ganhos.
Há um porém — as receitas de ISP caíram em junho e julho. Menos 2,3% e menos 2,1%. Isso muda a história.
Muda, porque significa que mesmo com preços altos, as pessoas estão a consumir menos. O Governo pode estar a abdicar de receita, mas o mercado está a fazer o trabalho por ele.
E o que é que isto significa para o futuro?
Que a crise no Golfo interrompeu o plano de recuperação fiscal. Faltam quase 10 cêntimos para voltar aos níveis anteriores à crise.
E enquanto isso, a procura continua a cair. Portanto, mesmo que o Governo quisesse recuperar esses impostos, o mercado não o deixaria ganhar muito dinheiro com isso.
The Pulse
- Os combustíveis atingiram esta segunda-feira o pico mais alto do ano, com o gasóleo a subir mais de 11 cêntimos e a gasolina quase 10 cêntimos, reacendendo a batalha política sobre quem paga a conta.
- O PS acusa o Governo de ter encaixado mais de mil milhões de euros em receita fiscal extra desde 2024, citando um agravamento superior a 9 cêntimos por litro no gasóleo desde a entrada da AD no poder.
- Montenegro responde que o Estado abdica de receita através de um mecanismo de ajuste semanal do ISP, estimando em 700 milhões de euros o desconto aplicado para neutralizar os ganhos de IVA gerados pela crise no Golfo.
- A crise desencadeada pelo ataque ao Irão interrompeu a recuperação gradual do ISP que vinha sendo feita desde 2022, forçando o Governo a congelar as taxas e a ajustá-las semana a semana.
- A procura de combustíveis está em queda — o Estado cobrou menos 2,3% de ISP em junho e menos 2,1% em julho face a 2025 —, o que significa que preços altos não se traduzem automaticamente em mais receita.
Quando os preços dos combustíveis atingem o pico mais alto do ano, a questão de quem lucra com essa escalada revela-se tão complexa quanto politicamente inflamável. O PS aponta para ganhos fiscais acumulados desde 2024, enquanto o Governo sublinha o esforço de neutralidade através do ajuste semanal do ISP — e ambos têm razão, apenas em momentos distintos da mesma história. No fundo, o debate esconde uma verdade incómoda: quando os preços sobem demasiado, o próprio mercado retrai-se, e o Estado acaba por arrecadar menos do que esperava.
Os preços dos combustíveis atingiram esta segunda-feira o valor mais alto do ano, com subidas expressivas tanto no gasóleo como na gasolina. O momento reacendeu uma disputa política que opõe o PS ao Governo sobre uma questão aparentemente simples: o Estado está a lucrar com esta escalada?
José Luís Carneiro apresentou contas detalhadas: segundo o secretário-geral do PS, o Estado ganha 9 cêntimos por litro de gasóleo e 6 cêntimos por litro de gasolina em receita fiscal, o que, somado aos volumes consumidos, representa um ganho de 1.048 milhões de euros desde que a AD chegou ao poder. A solução proposta pelo PS passa por uma redução temporária do IVA sobre combustíveis, à semelhança do que fez Espanha.
O primeiro-ministro Luís Montenegro respondeu com uma narrativa diferente. O Governo, disse, está a "abdicar de receita" através de um mecanismo de ajuste semanal do ISP que funciona como amortecedor: quando os preços sobem, o imposto petrolífero baixa para evitar que o Estado encaixe ganhos adicionais de IVA. Montenegro estimou esse esforço em cerca de 700 milhões de euros, garantindo que "o Estado não está a arrecadar um cêntimo a mais" com a subida dos preços.
A aparente contradição resolve-se quando se percebe que ambos os lados falam de períodos distintos. Os ganhos apontados pelo PS referem-se ao intervalo entre o início de 2024 e o final de 2025, quando o ISP foi sendo gradualmente recuperado — uma trajetória iniciada ainda no Governo de António Costa após as medidas excecionais de 2022 e continuada pela AD. Já o mecanismo de neutralidade fiscal descrito por Montenegro entrou em vigor a partir de meados de março, quando a crise no Golfo — desencadeada pelo ataque ao Irão e pelo impacto do fecho do Estreito de Ormuz — interrompeu essa recuperação.
Desde então, os impostos totais cobrados por litro mantêm-se próximos dos valores anteriores à crise: cerca de 84 cêntimos no gasóleo e 98 cêntimos na gasolina. Mas há uma variável que escapa ao debate político: a quantidade vendida. Preços demasiado elevados estão a travar o consumo, e o Estado cobrou menos ISP em junho e julho face ao mesmo período do ano anterior — o oposto do recorde de receita que era esperado para 2026.
Os preços dos combustíveis atingiram esta segunda-feira o pico mais alto do ano, com o gasóleo a subir mais de 11 cêntimos e a gasolina quase 10 cêntimos. Neste contexto de escalada, a disputa política sobre quem lucra e quem perde intensificou-se. De um lado, o PS acusa o Governo de encher os cofres públicos à custa dos postos de gasolina. Do outro, o Executivo insiste que está a fazer sacrifícios fiscais em nome do equilíbrio social.
José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, voltou à carga na passada sexta-feira com números concretos. Segundo as suas contas, o Estado ganha 9 cêntimos em cada litro de gasóleo e 6 cêntimos em cada litro de gasolina através dos impostos. Somados os volumes consumidos, o líder socialista aponta para um ganho de 1.048 milhões de euros na receita fiscal. A proposta é clara: reduzir temporariamente o IVA sobre combustíveis, como fez Espanha, para devolver esse dinheiro aos consumidores.
No mesmo dia, o primeiro-ministro Luís Montenegro respondeu com uma narrativa diferente. O Estado, garantiu, está a fazer um esforço "significativo" e a "abdicar de receita" em nome do equilíbrio social. Montenegro referia-se ao mecanismo de ajuste semanal do imposto sobre produtos petrolíferos (ISP), que funciona como um amortecedor: quando os preços sobem antes de impostos, o ISP baixa para evitar que o Estado ganhe dinheiro extra através do IVA. O primeiro-ministro quantificou esse desconto em cerca de 700 milhões de euros e reforçou a garantia de que "o Estado não está a arrecadar um cêntimo a mais com o IVA em função do aumento do preço dos combustíveis". Concluiu ainda que "estamos todos a ser prejudicados, não há ninguém que esteja a ser beneficiado".
Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, entrou na discussão acusando o PS de "viver no passado" e de "estar mal habituado". Recordou que durante os governos de António Costa, nomeadamente em 2016, o aumento do imposto petrolífero foi uma das principais medidas de consolidação orçamental. A insinuação era clara: o PS fez exatamente aquilo de que agora acusa o Governo.
Apesar da aparente contradição, ambos os discursos refletem realidades distintas localizadas em períodos diferentes. Os ganhos atribuídos por Carneiro ao Estado localizam-se entre o início de 2024, quando o PS deixou o poder, e o final de 2025. Neste intervalo, houve dois governos da AD e o ISP subiu gradualmente, à medida que o Executivo aproveitou a margem criada por preços internacionais mais contidos para recuperar o imposto que tinha sido reduzido em 2022, quando António Costa tomou medidas excecionais para travar o efeito da invasão russa da Ucrânia. Se fizermos as contas à carga fiscal total entre abril de 2024 (entrada do primeiro Governo de Luís Montenegro) e o período atual, verifica-se de facto um agravamento nos impostos cobrados por litro — mais de 9 cêntimos no gasóleo e cerca de 8 cêntimos na gasolina — valores que estão em linha com o que o PS refere.
Mas há um detalhe importante: a recuperação gradual do desconto fiscal no ISP já tinha sido iniciada no Governo do PS e foi continuada pela AD, até ao final de 2025. Desde meados de março, porém, a crise no Golfo — desencadeada pelo ataque ao Irão e pelo impacto do fecho do Estreito de Ormuz nos mercados petrolíferos — interrompeu esse caminho. A taxa do ISP passou a ser ajustada semanalmente para evitar que o Estado ganhasse dinheiro com o aumento dos combustíveis. Quando há aumentos de preços antes de impostos, o ISP baixa; quando há descidas, as taxas sobem. O efeito na contenção dos preços é limitado, mas o compromisso de neutralidade fiscal tem sido, no essencial, cumprido. Os impostos totais cobrados atualmente por litro — ISP mais IVA — estão muito próximos daqueles que se verificavam antes da crise no Golfo: cerca de 84 cêntimos por litro no gasóleo e 98 cêntimos por litro na gasolina.
O primeiro-ministro tem o cuidado de não qualificar de perda ou custo fiscal esse prejuízo, escolhendo a expressão "abdicar de receita". Ou seja, o Estado não está a perder, mas abre mão do ganho fiscal que encaixaria se cobrasse mais IVA e mantivesse as taxas de imposto petrolífero nos valores anteriores à crise. Os 700 milhões de euros que Montenegro aponta aproximam-se de uma estimativa feita pelo Conselho das Finanças Públicas. Mas há outra variável crucial: não basta ver o imposto cobrado por litro, é preciso fazer as contas às quantidades vendidas. E a evolução recente do mercado é desfavorável à receita fiscal. Depois de um boom em março e abril alimentado pela antecipação nos consumos, preços demasiado elevados levam a uma retração na procura de combustíveis. Esse recuo já é visível nas receitas do imposto petrolífero, que estiveram em queda nos últimos dois meses. Face ao mesmo período de 2025, o Estado cobrou menos 2,3% de ISP em junho e menos 2,1% em julho, quando a expetativa para este ano era a de alcançar um recorde na receita fiscal. Esta reação do mercado contrasta com a que aconteceu na crise da Ucrânia, apesar de terem sido atingidos preços na casa dos dois euros por litro, porque em 2022 os apoios fiscais foram muito mais agressivos e o impacto foi mais sentido no gás natural e na eletricidade do que nos combustíveis.
Notable Quotes
O Estado não está a arrecadar um cêntimo a mais com o IVA em função do aumento do preço dos combustíveis— Luís Montenegro, primeiro-ministro
Está a ganhar nove cêntimos em cada litro de gasóleo e está a ganhar seis cêntimos em cada litro de gasolina— José Luís Carneiro, secretário-geral do PS