Estadão ignora protestos contra Bolsonaro enquanto dava destaque a golpe de 2016

Apoiava golpes. Ignorava protestos. Mas se posicionar contra Bolsonaro?
A inconsistência editorial do Estadão entre sua cobertura do golpe de 2016 e dos protestos de 2021 revelava limites da mídia tradicional.
Mark

Por que essa comparação entre 2016 e 2021 importa tanto? Não é só uma questão de qual história ganhou manchete?

Mimi

Importa porque revela um padrão. O Estadão apoiou o golpe com entusiasmo — a foto da Avenida Paulista era celebração. Cinco anos depois, diante de protestos contra Bolsonaro, o mesmo jornal não consegue se posicionar com clareza. Não é neutralidade, é inconsistência.

Luke

Mas preciso ser preciso aqui: a capa de 2016 não tinha manchete, era só foto. Pode ser que fosse cobertura interna forte. E a chamada de 2021 sobre os protestos — ela existiu, mesmo que pequena. Estamos falando de priorização, não de omissão total.

Mark

Então o problema é o tamanho da cobertura, não a sua ausência?

Mimi

Exatamente. E o tamanho importa. Quando você coloca home office na manchete e protestos em vinte cidades em uma chamada pequena, você está dizendo ao leitor o que é importante. Está dizendo que turismo importa mais que mobilização política.

Luke

Verdade. Mas também preciso notar: a Folha de S.Paulo deu manchete aos protestos. Então não era impossível fazer isso. Havia escolha editorial clara.

Mark

E por que a velha mídia faz essa escolha?

Mimi

Porque não consegue abraçar mobilizações de esquerda conectadas aos pobres. Consegue apoiar golpes parlamentares, consegue ignorar protestos. Mas se posicionar com força contra Bolsonaro? Isso parece estar fora de seu alcance editorial.

Luke

Isso é uma caracterização válida, mas preciso perguntar: temos dados sobre cobertura do Globo e de outros jornais ao longo do tempo para confirmar esse padrão? Ou estamos vendo um dia específico?

Mark

Boa pergunta. É um padrão confirmado ou uma observação de um domingo?

Mimi

É uma observação que muitos jornalistas e críticos fizeram naquele momento. Não é uma análise sistemática de anos de cobertura, mas aponta para algo real sobre como a mídia tradicional se relaciona com protestos de esquerda versus golpes parlamentares.

Luke

Então é importante ser honesto: estamos vendo um contraste claro em um dia específico, e há crítica legítima sobre priorização editorial. Mas a afirmação de que é um padrão estrutural precisa de mais evidência para ser confirmada.

  • Dezenas de milhares ocuparam ruas em 21 cidades contra Bolsonaro, mas o Estadão relegou o fato a uma chamada quase invisível, enquanto celebrava cidades turísticas se reinventando.
  • O contraste com 2016 é explosivo: quando o golpe parlamentar contra Dilma avançava, o mesmo jornal abriu sua capa com a Paulista lotada e o pato amarelo da Fiesp — sem manchete, mas com todo o peso simbólico.
  • O Estadão entrou nos Trending Topics do Twitter, com jornalistas, humoristas e leitores colocando as duas capas lado a lado e nomeando a hipocrisia editorial em voz alta.
  • Eliane Brum evocou a ditadura militar e os jornais que publicavam receitas de bolo como denúncia cifrada; Gregorio Duvivier ironizou a urgência do jornal em saber se as praias estavam se reinventando.
  • A crítica aponta para algo além do erro de pauta: uma incapacidade estrutural da mídia tradicional em se opor ao bolsonarismo com a mesma força que dedicou ao apoio do golpe de 2016, revelando uma fronteira de classe mais do que de política.

No último domingo de maio de 2021, enquanto dezenas de milhares de brasileiros tomavam as ruas de mais de vinte cidades para protestar contra o governo Bolsonaro, o jornal O Estado de S.Paulo escolheu destacar matérias sobre turismo e trabalho remoto. O episódio não é apenas uma falha pontual de pauta — é um espelho de uma tensão estrutural na imprensa tradicional brasileira, que cinco anos antes havia celebrado com orgulho o golpe parlamentar de 2016, mas que agora parecia incapaz de dar o mesmo peso editorial às mobilizações populares de esquerda. A cobertura revela menos um viés político declarado e mais uma fronteira de classe: a velha mídia abraça certos movimentos e invisibiliza outros, e essa escolha tem consequências para a democracia.

No último domingo de maio de 2021, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em mais de vinte cidades brasileiras para protestar contra o governo Bolsonaro, contra o que chamavam de genocídio na pandemia e contra a falta de vacinas. Era um fato jornalístico de peso. Mas quando os jornais impressos abriram no dia seguinte, a história quase desapareceu das capas.

O Estadão foi o caso mais emblemático. O jornal que anos antes havia publicado o editorial "Uma Escolha Difícil" — incapaz de se decidir entre Haddad e Bolsonaro — escolheu naquele domingo destacar uma matéria sobre cidades turísticas se reinventando para o trabalho remoto. A chamada sobre os protestos era pequena, quase invisível, e seu tom rebaixava o evento: "Milhares vão às ruas contra Bolsonaro e causam aglomeração" — transformando uma mobilização política em um problema de saúde pública.

O contraste com o passado era gritante. Em março de 2016, durante o avanço do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, a capa do Estadão não precisou de manchete: apenas uma fotografia da Avenida Paulista lotada, com o pato amarelo da Fiesp em destaque, dizia tudo. A velha mídia apoiava com orgulho aquele momento. Agora, diante de protestos contra Bolsonaro, o mesmo jornal era incapaz de se posicionar com clareza.

A inconsistência não passou despercebida. O Estadão entrou nos Trending Topics do Twitter, com jornalistas e comentaristas comparando as duas coberturas lado a lado. Eliane Brum lembrou os jornais que na ditadura publicavam receitas de bolo como denúncia cifrada. Gregorio Duvivier ironizou a prioridade editorial do jornal.

O padrão sugeria algo mais profundo que uma falha de pauta: uma incapacidade estrutural da imprensa tradicional brasileira em abraçar mobilizações convocadas por lideranças de esquerda conectadas aos mais pobres. Podia apoiar golpes parlamentares. Podia ignorar protestos de massa. Mas se posicionar verdadeiramente contra Bolsonaro, com o mesmo destaque que o fato merecia, parecia estar além de sua capacidade editorial — e além de seus limites de classe.

No último domingo de maio de 2021, dezenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas em mais de vinte cidades brasileiras. Iam protestar contra o governo Bolsonaro, contra o que chamavam de genocídio na pandemia, contra a falta de vacinas. Era um fato jornalístico de peso — mobilizações simultâneas em capitais, convocadas por lideranças de esquerda, com raízes profundas nas comunidades mais pobres. Mas quando os jornais impressos abriram no dia 30 de maio, a história quase desapareceu.

Com exceção da Folha de S.Paulo, os grandes jornais do país não ofereceram manchete de primeira página aos protestos. Os telejornais — da Globo até a Record — trataram o assunto com reportagens breves e, segundo críticos, deturpadas em seu sentido. A velha mídia, como ficou conhecido o rótulo, simplesmente não engolia atos convocados por lideranças conectadas ao povo mais pobre. Mas uma capa em particular chocou: a do jornal O Estado de S.Paulo.

O Estadão, aquele mesmo jornal que anos antes havia publicado o editorial "Uma Escolha Difícil" — incapaz de se decidir entre Haddad e Bolsonaro, abrindo assim espaço para o bolsonarismo chegar ao poder — escolheu dar destaque naquele domingo a uma matéria sobre cidades turísticas se reinventando para atrair trabalho remoto. A chamada sobre os protestos era pequena, quase invisível: "Milhares vão às ruas contra Bolsonaro e causam aglomeração". O tom rebaixava o evento, transformando uma mobilização política em um problema de saúde pública.

O contraste com o passado era gritante. Cinco anos antes, em 13 de março de 2016, quando o Brasil vivia o momento do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, a capa do Estadão não trazia manchete. Apenas uma fotografia: a Avenida Paulista lotada, com o pato amarelo da Fiesp em destaque. Naquele momento, a velha mídia apoiava com orgulho o que viria a ser reconhecido como um golpe. Agora, diante de protestos contra Bolsonaro, o mesmo jornal era incapaz de se posicionar verdadeiramente contra o governo. Não apoiava sequer o impeachment que muitos consideravam necessário.

A inconsistência não passou despercebida. O Estadão entrou nos Trending Topics do Twitter, sendo detonado por usuários que apontavam a hipocrisia editorial. Jornalistas e comentaristas públicos comparavam as duas coberturas lado a lado. Eliane Brum, colunista, lembrou que na ditadura militar alguns jornais apoiaram o golpe e depois foram forçados a publicar receitas de bolo como forma cifrada de denunciar a censura — e questionou se havia lição a aprender. Gregorio Duvivier, humorista, ironizou a prioridade do jornal em responder se as cidades turísticas estavam se reinventando. Outros apontaram que enquanto o Estadão falava de home office e o Globo de PIB reaquecendo, o fato jornalístico mais importante do dia era um protesto em vinte e uma capitais.

O padrão revelava algo mais profundo que uma simples falha editorial. Sugeria uma incapacidade estrutural da mídia tradicional brasileira em se opor com força real ao bolsonarismo — a mesma força que havia dedicado ao apoio do golpe de 2016. Era menos uma questão de viés político explícito e mais uma questão de classe: a velha imprensa não conseguia abraçar mobilizações convocadas por lideranças de esquerda conectadas aos pobres. Podia apoiar golpes parlamentares. Podia ignorar protestos de massa. Mas se posicionar verdadeiramente contra Bolsonaro, com a mesma clareza e destaque que merecia o fato, parecia estar além de sua capacidade editorial.

Incrível como a velha mídia apoiou com orgulho o golpe parlamentar de 2016 — e é incapaz de se posicionar verdadeiramente contra Bolsonaro
— Crítica editorial do Diário do Centro do Mundo
Na ditadura militar, alguns jornais apoiaram o golpe e depois tiveram que publicar receitas de bolo como denúncia à censura. Tem gente que não aprende com a história.
— Eliane Brum, colunista, no Twitter
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