Estadão contrata gestora ligada a investigado do Banco Master para captar R$ 142 milhões

Um cargo de confiança em operação de R$ 142,5 milhões para salvar uma empresa em crise
A Trustee DTVM, controlada por investigado, atuou como agente fiduciário com poder de fiscalização sobre toda a operação de debêntures do Estadão.
Mark

Por que o Estadão escolheu uma gestora cujo controlador está sob investigação da PF? Isso não era informação pública na época?

Mimi

Maurício Quadrado já havia sofrido bloqueio de bens em março de 2024, exatamente quando a Trustee foi contratada. Então sim, havia sinal de alerta visível. A empresa optou por um serviço que era mais barato ou mais rápido de estruturar do que buscar alternativas.

Luke

Mas precisamos ser precisos: o bloqueio de bens era por suspeita de propina à Caixa. As investigações ligadas ao Banco Master e ao esquema de combustíveis vieram depois, segundo o Metrópoles. Não sabemos se essas informações estavam disponíveis quando a decisão foi tomada.

Mark

E quanto ao argumento de Bretas de que é um serviço simples, quase de despachante?

Mimi

É tecnicamente verdade que o agente fiduciário faz trabalho burocrático. Mas em uma operação de R$ 142,5 milhões para salvar uma empresa em crise, esse "despachante" tem poder de fiscalização sobre tudo — juros, amortizações, saúde financeira. É um cargo de confiança.

Luke

E aqui está o ponto: Bretas diz que os problemas da Trustee foram em gestão de fundos, não em agente fiduciário. Mas não temos detalhes públicos sobre que tipo de problemas foram esses ou se afetam a capacidade de fazer esse trabalho básico. Ele está se apoiando em uma distinção que não é verificável.

Mark

A captação funcionou? O jornal saiu da crise?

Mimi

Não. Mesmo com R$ 142,5 milhões, o Estadão registrou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025. Os empréstimos só começam a ser cobrados em 2034.

Luke

E isso é importante: não sabemos se o problema é estrutural — modelo de negócio quebrado — ou conjuntural. A captação pode ter apenas adiado o colapso.

  • Estadão captou R$ 142,5 milhões em debêntures em março e maio de 2024
  • Trustee DTVM contratada em 25 de março de 2024; controlador Maurício Quadrado já havia sofrido bloqueio de bens pela PF
  • Jornal acumulava prejuízo de R$ 159 milhões antes da captação e registrou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025
  • Erick Bretas assumiu presidência executiva em 2024, substituindo membro da família Mesquita

Estadão recorreu a gestora cujo controlador, Maurício Quadrado, é sócio de investigado no Banco Master e sofreu bloqueio de bens pela PF. A Trustee foi contratada como agente fiduciário em operação de R$ 142,5 milhões para aliviar crise financeira do jornal que acumulava prejuízo de R$ 159 milhões.

O jornal O Estado de S. Paulo captou R$ 142,5 milhões em debêntures e contratou a Trustee DTVM, cuja controladora é investigada pela PF por suspeitas de lavagem de dinheiro e fraude.

O Estado de S. Paulo enfrentava um aperto financeiro severo no início de 2024. A empresa acumulava prejuízos de R$ 159 milhões e registrava um déficit equivalente ao dobro de seu caixa disponível. Para respirar, o jornal recorreu a uma estratégia pouco convencional: em vez de bater às portas de bancos, buscou captar recursos diretamente com empresários através da emissão de debêntures. A operação foi estruturada em duas rodadas — R$ 45 milhões em março de 2024 e R$ 97,5 milhões em maio do mesmo ano.

O ponto que levanta questões é a escolha do intermediário. O Estadão contratou a Trustee DTVM para atuar como agente fiduciário, o cargo responsável por fiscalizar o cumprimento de todas as obrigações da operação: pagamento de juros, amortizações, indicadores de saúde financeira, uso dos recursos e conformidade com as regras da Comissão de Valores Mobiliários. É um posto estratégico. O problema: a Trustee é controlada por Maurício Quadrado, sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e em outros negócios. Quando foi contratada em 25 de março de 2024, Quadrado já havia sofrido bloqueio de bens em investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de pagamento de propina a funcionários da Caixa Econômica Federal em troca da liberação de empréstimos. Hoje, segundo informações do Metrópoles, ele e a Trustee também estão sob investigação em apurações ligadas ao Banco Master e a um esquema de ocultação de dinheiro associado à adulteração de combustíveis, operado inclusive por integrantes do PCC.

A captação de R$ 142,5 milhões veio de múltiplas fontes. Dos R$ 45 milhões da primeira emissão, a Trustee atuou como intermediária. Os R$ 97,5 milhões restantes vieram de fora do mercado financeiro regulamentado: R$ 15 milhões da Santalice Administração Ltda., do grupo Cutrale, e R$ 82,5 milhões do Província Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, gerido pela Galápagos Capital. A entrada desse dinheiro trouxe mudanças estruturais. Marco Bologna, da Galápagos, integrou o Conselho de Administração do jornal. Outros investidores também passaram a indicar representantes em instâncias decisórias. O grupo de financiadores exigiu ainda que a presidência executiva deixasse de ser ocupada por um membro da família Mesquita e fosse entregue a um profissional de mercado — Erick Bretas assumiu o cargo em 2024, vindo do Grupo Globo, onde havia dirigido o Globoplay.

Questionado sobre a contratação da Trustee, Bretas minimizou a questão. Afirmou que o serviço de agente fiduciário é dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao trabalho de um despachante. "Eles fazem requerimentos, encaminham serviços burocráticos", disse. Segundo ele, os problemas da Trustee foram na gestão de fundos, não nesse serviço básico. "O Estadão é uma empresa entre tantas outras 100% idôneas que usam esse tipo de serviço quando emitem debêntures."

Mesmo com a injeção de R$ 142,5 milhões, o jornal não conseguiu reverter o quadro de perdas. O último balanço, publicado em 9 de abril, apontou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025. Os empréstimos só começarão a ser cobrados em 2034, com possibilidade de prorrogação até 2044 — um horizonte longo que reflete a gravidade da situação. A contratação da Trustee foi aprovada em assembleia presidida por Francisco Mesquita Neto em março de 2024. Nas redes sociais, Bretas ataca diariamente o Supremo Tribunal Federal, com foco especial na relação de ministros como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o Banco Master.

O serviço de agente fiduciário é dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao de um despachante
— Erick Bretas, presidente executivo do Estadão
O Estadão é uma empresa entre tantas outras 100% idôneas que usam esse tipo de serviço quando emitem debêntures
— Erick Bretas
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