Em meio a uma crise financeira que ameaçava a sobrevivência de um dos jornais mais antigos do Brasil, o Estadão recorreu ao mercado de capitais e escolheu, para gerir parte da operação, uma gestora cujo controlador já estava sob investigação federal. A contratação da Trustee DTVM, em março de 2024, revela como a urgência financeira pode aproximar instituições centenárias de parceiros de reputação nebulosa. O episódio levanta questões duradouras sobre os limites entre necessidade e responsabilidade — e sobre quem, afinal, vigia os guardiões do dinheiro.
Estadão capta R$ 142 mi com gestora investigada por lavagem de dinheiro
Bens bloqueados, mas contratado mesmo assim
Por que o Estadão escolheu uma gestora investigada pela PF para cuidar de uma operação tão importante?
A contratação foi formalizada em março de 2024, quando Quadrado já tinha bens bloqueados, mas talvez o jornal tenha confiado que se tratava apenas de um serviço administrativo, não de gestão de fundos.
Mas o timing é preocupante — a PF já investigava Quadrado quando ele foi contratado. Isso era informação pública?
A investigação sobre propina na Caixa estava em andamento, sim. O bloqueio de bens é um ato que fica registrado.
E quanto aos investidores? Eles sabiam disso?
A ata da assembleia registra a decisão, mas não há informação sobre o que foi divulgado aos investidores antes da captação.
Exatamente. Não sabemos se houve divulgação de risco. E depois, em janeiro de 2026, a PF faz buscas na Trustee — isso é posterior à captação, mas ainda assim preocupante.
Verdade. E o Estadão continua com prejuízos. A captação de R$ 142,5 milhões não resolveu o problema estrutural.
O CEO disse que o serviço é simples, quase como um despachante. Isso reduz a responsabilidade?
Reduz, tecnicamente. Mas a questão é: por que contratar alguém sob investigação, mesmo que para uma tarefa simples? Havia alternativas.
Havia. E essa escolha agora está associada ao jornal de forma permanente.
Il Polso
- Com prejuízos que dobravam o valor do próprio caixa, o Estadão precisava de capital com urgência e optou por emitir debêntures em duas rodadas, somando R$ 142,5 milhões.
- No mesmo dia em que a contratação da Trustee foi formalizada, seu controlador, Maurício Quadrado, já tinha bens bloqueados pela Polícia Federal por suspeita de propina à Caixa Econômica Federal.
- A situação se agravou: Quadrado e a Trustee agora são investigados por lavagem de dinheiro ligada ao Banco Master e a um esquema de ocultação de recursos do PCC envolvendo adulteração de combustíveis.
- Em janeiro de 2026, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Trustee, colocando sob análise documentos de todas as operações da gestora — incluindo as do Estadão.
- O CEO do jornal minimizou o risco, descrevendo o serviço contratado como equivalente ao de um despachante, mas o Estadão ainda registrou prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025, com as dívidas vencendo apenas em 2034.
Em meio a uma crise financeira que ameaçava a sobrevivência de um dos jornais mais antigos do Brasil, o Estadão recorreu ao mercado de capitais e escolheu, para gerir parte da operação, uma gestora cujo controlador já estava sob investigação federal. A contratação da Trustee DTVM, em março de 2024, revela como a urgência financeira pode aproximar instituições centenárias de parceiros de reputação nebulosa. O episódio levanta questões duradouras sobre os limites entre necessidade e responsabilidade — e sobre quem, afinal, vigia os guardiões do dinheiro.
O Estado de S. Paulo chegou a 2023 em situação financeira crítica: seus prejuízos acumulados eram o dobro do caixa disponível. Para evitar a insolvência, a empresa optou por emitir debêntures em vez de buscar crédito em bancos tradicionais. Foram duas rodadas — R$ 45 milhões em março de 2024 e R$ 97,5 milhões em maio do mesmo ano — totalizando R$ 142,5 milhões captados no mercado de capitais.
Para gerir a primeira emissão como agente fiduciário, o Estadão contratou a Trustee DTVM, controlada pelo empresário Maurício Quadrado. A decisão foi tomada em assembleia presidida por Francisco Mesquita Neto em 25 de março de 2024. O problema: naquela mesma data, Quadrado já tinha bens bloqueados pela Polícia Federal, investigado por suspeita de pagamento de propina a funcionários da Caixa Econômica Federal.
Desde então, o cenário piorou consideravelmente. Quadrado e a Trustee passaram a ser investigados por lavagem de dinheiro relacionada ao Banco Master — onde Quadrado era sócio de Daniel Vorcaro — e por um esquema de ocultação de recursos do PCC ligado à adulteração de combustíveis. Em janeiro de 2026, a PF realizou buscas e apreensões na sede da gestora e em endereços associados a Quadrado, colocando sob escrutínio documentos de todas as suas operações.
A segunda rodada de captação, de R$ 97,5 milhões, ocorreu fora do mercado regulamentado e atraiu investidores que, além do capital, ganharam poder de decisão no jornal. A Galápagos Capital aportou R$ 82,5 milhões e seu representante, Marco Bologna, passou a integrar o Conselho de Administração do Estadão. O grupo de investidores também exigiu a substituição do CEO por um executivo externo à família Mesquita.
Apesar de toda a movimentação financeira, o jornal registrou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025. O pagamento das debêntures só começa em 2034, com possibilidade de extensão até 2044. Questionado sobre a escolha da Trustee, o CEO Erick Bretas classificou o serviço de agente fiduciário como algo simples, quase burocrático, e argumentou que os problemas da gestora estariam restritos à administração de fundos — uma distinção que, diante das investigações em curso, ainda está longe de ser aceita sem ressalvas.
O Estado de S. Paulo enfrentava uma crise financeira profunda quando decidiu captar recursos no mercado de capitais. Em 2023, o jornal centenário acumulava prejuízos duas vezes maiores que seu caixa. Diante dessa situação, a empresa optou por emitir debêntures — papéis de dívida — em vez de buscar financiamento junto a instituições financeiras tradicionais. A estratégia resultou em duas rodadas de captação: R$ 45 milhões em março de 2024 e R$ 97,5 milhões em maio de 2024, totalizando R$ 142,5 milhões.
Para gerir essa operação, o Estadão contratou a Trustee DTVM, uma gestora de investimentos controlada pelo empresário Maurício Quadrado. A decisão foi formalizada em 25 de março de 2024, durante uma Assembleia Geral Extraordinária presidida por Francisco Mesquita Neto. Naquela data, porém, Quadrado já estava sob investigação da Polícia Federal. Seus bens haviam sido bloqueados em função de uma apuração que investigava o pagamento de propina a funcionários da Caixa Econômica Federal em troca da liberação de empréstimos.
Atualmente, a situação se agravou. Maurício Quadrado e a Trustee são investigados pela PF por suspeita de lavagem de dinheiro relacionada ao Banco Master, instituição onde Quadrado era sócio de Daniel Vorcaro. A gestora também é alvo de investigações em um esquema de ocultação de dinheiro proveniente da adulteração de combustíveis, operado inclusive por integrantes do PCC. Em janeiro de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Trustee e em endereços ligados a Quadrado. Documentos de todas as operações da gestora estão sob análise.
O papel de agente fiduciário — função exercida pela Trustee na primeira emissão de R$ 45 milhões — é responsável por gerir a relação entre vendedores e compradores de debêntures, verificar o pagamento de juros e amortizações, acompanhar indicadores de saúde financeira da empresa e monitorar o uso dos recursos captados. A segunda emissão de R$ 97,5 milhões ocorreu fora do mercado regulamentado, dispensando a figura do agente fiduciário. Nessa rodada, investiram a Santalice Administração Ltda., do grupo Cutrale (R$ 15 milhões), e o Província Fundo de Investimento em Participações, gerido pela Galápagos Capital (R$ 82,5 milhões).
Os investidores não apenas forneceram capital, mas também ganharam poder de decisão no jornal. Marco Bologna, da Galápagos Capital, tornou-se membro do Conselho de Administração do Estadão, com mandato até maio de 2026. Outros investidores também indicaram representantes em instâncias decisórias. O grupo ainda exigiu a substituição do CEO por um executivo do mercado, não um membro da família Mesquita.
Apesar dos esforços para sanear as contas, o Estadão registrou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025, conforme balanço publicado em 9 de abril de 2026. A cobrança das debêntures só começará em 2034, com possibilidade de prorrogação até 2044. Quando questionado sobre a contratação da Trustee, o CEO Erick Bretas afirmou ao Metrópoles que o serviço de agente fiduciário é "dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao de um despachante". Segundo ele, a Trustee já prestou esse serviço para centenas de empresas, incluindo grandes bancos, distribuidoras de energia e operadores logísticos. Bretas argumentou que os problemas da Trustee ocorreram na gestão de fundos, não na prestação do serviço de agente fiduciário, e recusou-se a comentar sobre o grupo de investidores do jornal.
Citazioni salienti
O serviço de agente fiduciário é dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao de um despachante— Erick Bretas, CEO do Estadão
A Trustee já prestou esse serviço para centenas de empresas, incluindo grandes bancos, distribuidoras de energia, operadores logísticos, shopping centers e operadores de saúde— Erick Bretas, CEO do Estadão