Enquanto a medicina convencional oferece apenas silêncio diante da doença de Creutzfeldt-Jakob, Mila Seidl transforma o desespero em estratégia — rastreando ensaios clínicos em dois continentes, mobilizando redes sociais e invocando leis de acesso emergencial para salvar o marido, Lito Sousa, cujo corpo se rende semana a semana enquanto sua mente permanece intacta. É a história antiga de quem recusa a fronteira entre o possível e o impossível, travada agora nos corredores digitais de institutos de pesquisa e nas salas de espera da burocracia médica internacional.
Esposa de Lito Sousa corre contra o tempo por tratamento experimental para doença rara
Tenho duas opções: velar o meu marido ou lutar por ele. Eu decidi lutar.
Como você explica que a mente dele permaneça tão lúcida enquanto o corpo falha tão rapidamente?
É exatamente isso que os médicos chamam de atípico. A doença de Creutzfeldt-Jakob normalmente destrói a cognição primeiro. No caso dele, é como se a doença tivesse escolhido um caminho diferente. Ele vê tudo acontecendo, entende tudo, mas não consegue fazer nada. É uma forma de crueldade muito particular.
Quando você diz que a progressão é semanal, o que isso significa na prática?
Significa que a cada sete dias há algo novo que ele perdeu. Uma semana ele conseguia caminhar um pouco mais, na próxima não consegue. É por isso que não há tempo para esperar, para tentar uma coisa, depois outra. Cada dia conta.
Por que o vídeo no Instagram? Por que não apenas contatar os institutos diretamente?
Porque os institutos recebem centenas de pedidos. Um email pode ser ignorado. Um vídeo que circula, que toca pessoas, que chega aos pesquisadores através de seus colegas, através de redes sociais, tem peso diferente. É visibilidade transformada em oportunidade.
Você acredita que ele será aprovado para o ensaio?
Acredito que há uma chance real agora. O Broad Institute respondeu no mesmo dia. Isso não é coincidência. Mas uma chance real não é a mesma coisa que certeza. Estamos em um espaço muito pequeno entre esperança e realismo.
E se não for aprovado?
Então tentamos a Lei Right to Try. Então tentamos a China. Então tentamos o que mais existir. Mila disse isso com clareza: ela decidiu lutar. Não há plano B que signifique desistência.
Le Pouls
- A doença avança semana a semana, roubando equilíbrio, visão e autonomia de Lito Sousa enquanto sua lucidez permanece cruel e completamente preservada.
- Sem tratamento aprovado e com prognóstico terminal, cada dia de espera por resposta dos institutos americanos equivale a uma perda irreversível de função.
- O Broad Institute respondeu ao apelo público no mesmo domingo, solicitando o prontuário médico — um sinal tênue, mas concreto, de que a porta ainda não está fechada.
- A família navega simultaneamente por dois ensaios experimentais nos EUA, um estudo em fase inicial na China e a Lei Right to Try como última trincheira legal.
- Mila Seidl, diante de críticas sobre 'furar fila', esclarece que não há fila — há apenas a luta singular pela inclusão de um paciente único no Brasil inteiro.
Enquanto a medicina convencional oferece apenas silêncio diante da doença de Creutzfeldt-Jakob, Mila Seidl transforma o desespero em estratégia — rastreando ensaios clínicos em dois continentes, mobilizando redes sociais e invocando leis de acesso emergencial para salvar o marido, Lito Sousa, cujo corpo se rende semana a semana enquanto sua mente permanece intacta. É a história antiga de quem recusa a fronteira entre o possível e o impossível, travada agora nos corredores digitais de institutos de pesquisa e nas salas de espera da burocracia médica internacional.
Na noite de domingo, um email do Broad Institute — centro de pesquisa biomédica ligado ao MIT e a Harvard — chegou como um lampejo de possibilidade para a família Sousa. O instituto solicitava o prontuário completo de Lito Sousa, piloto e influenciador de 59 anos diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, enfermidade neurodegenerativa rara e sem cura conhecida. Para sua esposa, Mila Seidl, de 41 anos, aquele email era o resultado de uma busca frenética por qualquer brecha no muro da medicina convencional.
O diagnóstico de Lito foi confirmado por ressonância magnética com laudo específico e pelo exame RT-QuIC, que detecta proteínas priônicas anormais no líquor — o principal recurso diagnóstico precoce disponível. O que torna o caso clinicamente incomum é que, ao contrário do padrão habitual da doença, a cognição de Lito permanece intacta: ele raciocina, debate e decide, enquanto o corpo perde função a cada semana. Ele caminha apenas dez a quinze metros, com auxílio de duas pessoas, não consegue se alimentar ou se higienizar sozinho, e sofre de visão desalinhada que o impede de focar em qualquer objeto — uma limitação que o isola do mundo visual sem que haja cegueira propriamente dita.
No mesmo domingo em que o email chegou, Lito gravou um vídeo em inglês no Instagram pedindo que seus seguidores compartilhassem o apelo até alcançar pesquisadores. Dois ensaios experimentais foram citados diretamente: o ION717, da Ionis Pharmaceuticals, e o Prism trial, do Broad Institute. A resposta foi imediata. Se aprovado para participar, Lito precisará viajar a Nashville, no Tennessee, para avaliação presencial — e o requisito de falar inglês não é obstáculo para ele.
A família também considera um estudo em fase inicial na China, que testaria um medicamento usado no tratamento do HIV, e a Lei Right to Try dos Estados Unidos, que permite acesso a tratamentos experimentais não aprovados pelo FDA para pacientes em situação terminal sem outras alternativas. Lito se enquadra em todos os critérios.
Internado no hospital Einstein, ele deve receber alta entre terça e quarta-feira para um home care já aprovado, com adaptações em andamento na residência. Seu maior desejo é estar ao lado do filho. Quando Mila perguntou por que aquilo havia acontecido com ele, Lito respondeu com outra pergunta: 'E se essa é minha missão? E se eu preciso dar luz e visibilidade para isso?' Mila ouviu e escolheu seu caminho: 'Tenho duas opções — velar o meu marido ou lutar por ele. Eu decidi lutar.'
No domingo à noite, um email chegou à caixa de entrada da família Sousa vindo do Broad Institute, um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo, com sede em Cambridge e parceria com MIT e Harvard. O instituto solicitava o prontuário médico completo de Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, o piloto e influenciador de 59 anos. Aquele email representava algo que sua esposa, Mila Seidl, de 41 anos, havia estado perseguindo com urgência crescente: uma chance, ainda que remota, de acesso a um tratamento experimental para a doença de Creutzfeldt-Jakob, uma enfermidade neurodegenerativa rara e progressiva que não tem cura conhecida.
O diagnóstico de Lito foi fechado tanto clinicamente quanto por exame laboratorial. Mila insiste nesse ponto com precisão: ele fez ressonância magnética com laudo específico e o RT-QuIC, um teste de líquor que detecta proteínas priônicas anormais e é considerado o principal auxiliar no diagnóstico precoce da doença. O resultado levou duas semanas e meia para chegar. O único exame que não realizaram foi a biópsia cerebral, porque, explica Mila, esse procedimento não é mais utilizado na prática médica contemporânea. Não há espaço para dúvida ou suposição: o diagnóstico está correto.
O que torna o caso de Lito particularmente raro é sua apresentação clínica atípica. A doença de Creutzfeldt-Jakob costuma começar com alterações cognitivas e comportamentais, mas em Lito a cognição permanece intacta. Ele discute, raciocina, toma decisões, mantém o fio da meada. Sua mente está funcional enquanto seu corpo se desintegra. Ele anda apenas dez a quinze metros, sempre com ajuda de duas pessoas porque não tem equilíbrio. Não consegue se alimentar sozinho, não toma banho sozinho, não consegue sustentar o próprio tronco. A visão é um dos problemas mais debilitantes: seus olhos estão desalinhados, cada um olhando para um lado diferente, de modo que ele não consegue focar em nada. Não é cegueira, mas uma incapacidade funcional que o impede de assistir televisão, de ler notícias no celular, de ler um livro. E como não consegue usar as mãos, fica inteiramente dependente do que outras pessoas fazem por ele.
A progressão é semanal. Mila observa que cada semana traz perdas novas, e nenhum medicamento promete recuperar o que já foi perdido. Por isso a urgência não é apenas médica, é existencial: esperar significa perder mais. No domingo, Lito apareceu em um vídeo no Instagram onde, em inglês, fez um apelo urgente aos seus seguidores. Um porta-voz então dirigiu-se diretamente a três instituições: a Ionis Pharmaceuticals, o Broad Institute e a Mayo Clinic. Citou dois ensaios experimentais específicos que poderiam ajudar: o ION717 trial, da Ionis, e o Prism trial do Broad Institute. O vídeo foi um grito por visibilidade, um pedido para que fosse compartilhado até chegar aos pesquisadores.
O Broad Institute respondeu no mesmo domingo solicitando documentação médica. Se aprovado, Lito precisará viajar a Nashville, no Tennessee, para uma avaliação presencial e tentar sua inclusão no estudo. É obrigatório que o paciente fale inglês, o que não é problema para ele. Mila também mencionou outras possibilidades: um estudo que começará na China testando um medicamento usado para HIV, embora reconheça que seria menos promissor porque apenas reduziria a velocidade da doença. Existe ainda a Lei Right to Try dos Estados Unidos, que permite que pacientes com doenças terminais usem medicamentos experimentais não aprovados pelo FDA quando não há outras opções de tratamento. Lito se enquadraria: sua doença é terminal, e sem intervenção ele morrerá, embora ninguém saiba em quantas semanas.
Mila respondeu às críticas sobre "furar fila" com clareza: não existe fila. O estudo não admite mais pessoas. O que a família quer lutar é pela inclusão de uma pessoa, e essa pessoa é rara no Brasil. Hoje, Lito é o único caso no país. Ela fala com a precisão de quem entende que cada detalhe importa quando se trata de uma doença tão rara.
No hospital Einstein, onde Lito está internado, o home care já foi aprovado. Mila fará adaptações na residência. A expectativa é que ele tenha alta entre terça e quarta-feira. O desejo dele é ficar ao lado do filho. Quando Mila questionou por que isso havia acontecido com alguém tão bom de coração, Lito respondeu com uma pergunta de volta: "E por que não eu? E se essa é minha missão? E se eu preciso de alguma forma dar luz e visibilidade para isso?". Mila vê nele uma inteligência emocional notável, capaz de encontrar inspiração até nos momentos mais difíceis. "Tenho duas opções", disse ela à reportagem. "Velar o meu marido ou lutar por ele. Eu decidi lutar."
Citations marquantes
Ele discute, raciocina, não perde o fio da meada, toma decisões e está totalmente funcional— Mila Seidl, esposa de Lito Sousa, descrevendo a preservação da cognição dele apesar da doença
E por que não eu? E se essa é minha missão? E se eu preciso de alguma forma dar luz e visibilidade para isso?— Lito Sousa, respondendo à pergunta de Mila sobre por que isso havia acontecido com ele