Espírito Santo é o Estado mais atingido pelo tarifaço de Trump, aponta estudo da UFMG

Alguns Estados ganham enquanto outros perdem muito mais
O tarifaço de Trump cria vencedores e perdedores regionais, com o Espírito Santo sofrendo o maior impacto proporcional.
Mark

Como um estudo consegue prever o impacto de tarifas com essa precisão? Não há muita incerteza envolvida?

Mimi

Há, sim. O que o Cedeplar fez foi construir um modelo que rastreia fluxos comerciais conhecidos e aplica as tarifas anunciadas a esses fluxos. Eles usam dados históricos de comércio para estimar como os setores reagirão. Não é adivinhação, mas também não é certeza.

Luke

Exatamente. E vale notar que o estudo só consegue contar as tarifas que foram anunciadas. Se Trump mudar de ideia, se houver novas exceções, ou se a China retaliar de forma diferente, os números mudam. O modelo é tão bom quanto as suposições que o alimentam.

Mark

Por que o Amazonas ganha enquanto o Espírito Santo perde tanto?

Mimi

Porque suas economias são estruturadas de forma muito diferente. O Espírito Santo depende de exportações que enfrentam tarifas diretas. O Amazonas, por outro lado, se beneficia quando as tarifas globais redirecionam demanda para produtos que ele exporta — como produtos da Zona Franca de Manaus.

Luke

Mas aqui está o detalhe importante: o ganho do Amazonas depende inteiramente desse efeito de redirecionamento global. Se a demanda global não se redirecionar da forma que o modelo prevê, o Amazonas também sofre. É um cenário mais frágil.

Mark

US$ 12 bilhões em perdas para o Brasil inteiro parece menos do que os US$ 31 bilhões iniciais. Isso significa que o tarifaço não é tão ruim assim?

Mimi

Depende de como você vê. US$ 12 bilhões ainda é uma quantia significativa. E essa compensação de US$ 19 bilhões assume que a demanda global se redireciona exatamente como o modelo prevê. Se não acontecer, o Brasil fica com a perda inteira.

Luke

E há outro ponto: essa compensação é distribuída de forma muito desigual. Alguns Estados ganham, mas muitos perdem. O impacto agregado pode ser menor, mas o impacto regional é severo. Para o Espírito Santo, isso é uma contração real de 0,45 ponto porcentual.

  • Espírito Santo sofrerá impacto de 0,45 ponto porcentual do PIB em dois anos
  • São Paulo perde US$ 2,4 bilhões em valores absolutos
  • Impacto direto das tarifas americanas: US$ 31 bilhões; compensação global: US$ 19 bilhões
  • Amazonas pode ganhar 0,36 ponto porcentual do PIB com o efeito global das tarifas

Espírito Santo sofrerá maior impacto proporcional (-0,45 p.p. do PIB), seguido por Pará, Amapá e Santa Catarina entre os Estados mais prejudicados. Em valores absolutos, São Paulo perde US$ 2,4 bilhões; o impacto direto das tarifas americanas ao Brasil é de US$ 31 bilhões, mas tarifas globais criam demanda que compensa US$ 19 bilhões.

Estudo da UFMG mostra que o Espírito Santo será proporcionalmente o mais atingido pelas tarifas de Trump, com impacto de 0,45 p.p. no PIB em dois anos, enquanto alguns Estados como Amazonas podem ganhar.

Quando as tarifas de Donald Trump entraram em vigor na quarta-feira, 6 de agosto, o Espírito Santo se viu na posição mais vulnerável entre todos os Estados brasileiros. Segundo um estudo conduzido por economistas do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais, o impacto proporcional sobre a economia capixaba será de 0,45 ponto porcentual do PIB ao longo de dois anos — uma contração que leva em conta não apenas as tarifas diretas, mas também as exceções que foram divulgadas nos dias anteriores à implementação.

O Pará, Amapá e Santa Catarina completam o quarteto de Estados mais prejudicados, com perdas proporcionais de 0,33, 0,31 e 0,28 ponto porcentual respectivamente. Quando se olha para números absolutos em vez de proporções, porém, São Paulo assume o lugar de maior perdedor, com um impacto calculado em US$ 2,4 bilhões. Essa diferença entre impacto proporcional e absoluto revela uma realidade importante: Estados menores sofrem proporcionalmente mais, enquanto Estados maiores e mais diversificados absorvem perdas maiores em volume, mas menores em relação ao tamanho de suas economias.

O que torna este estudo particularmente sofisticado é sua metodologia. Os pesquisadores não se limitaram a calcular o efeito direto das tarifas americanas sobre as exportações brasileiras. Eles também incorporaram as tarifas que Trump aplicou a outros parceiros comerciais dos Estados Unidos — Japão, União Europeia e China — bem como a retaliação chinesa, que mantém uma tarifa de 10% sobre produtos americanos. Esses movimentos globais, segundo os autores, desencadeiam uma série de redirecionamentos de demanda entre setores e países, criando um efeito em cascata que precisa ser contabilizado para se chegar a uma compreensão realista do impacto.

Os números revelam uma dinâmica complexa. O impacto direto das tarifas americanas sobre o Brasil representa uma perda de 0,26 ponto porcentual do PIB em dois anos, ou US$ 31 bilhões. Mas aqui entra o aspecto contra-intuitivo: as tarifas aplicadas ao restante do mundo criam uma demanda adicional que beneficia a economia brasileira em US$ 19 bilhões. Quando se soma tudo — perdas diretas e ganhos indiretos — o efeito líquido cai para 0,1 ponto porcentual, ou US$ 12 bilhões em perdas totais.

Essa compensação parcial abre a porta para uma realidade ainda mais inesperada: alguns Estados brasileiros podem sair ganhando com o tarifaço global. O Amazonas é o caso mais dramático. Se consideradas apenas as tarifas sobre o Brasil, o Estado sofreria uma contração de 0,93 ponto porcentual. Mas o efeito global das tarifas ao restante do mundo — que aumenta a demanda por produtos que o Amazonas exporta — gera um impacto positivo de 1,29 ponto porcentual. O resultado líquido é um ganho de 0,36 ponto porcentual do PIB. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul também aparecem com ganhos modestos de 0,01 e 0,10 ponto porcentual respectivamente.

Essa distribuição desigual dos impactos reflete a estrutura das economias estaduais. Estados com forte presença em setores que enfrentam tarifas diretas — como o Espírito Santo, que depende significativamente de exportações de minério de ferro e produtos siderúrgicos — sofrem mais. Já Estados com economias mais voltadas para produtos que se beneficiam do redirecionamento de demanda global conseguem compensar as perdas diretas. O estudo, portanto, não apenas quantifica o impacto do tarifaço, mas também expõe as vulnerabilidades e forças relativas de cada região da economia brasileira diante de uma guerra comercial que se estende muito além das fronteiras entre Brasil e Estados Unidos.

O estudo contabiliza não apenas o impacto direto das tarifas dos EUA ao Brasil, mas também as taxas aplicadas a outros parceiros comerciais e a retaliação chinesa, produzindo um efeito global
— Economistas do Cedeplar, UFMG
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Valor Econômico ↗
Nous contacter FAQ