Emagrecimento rápido reduz metabolismo basal e massa muscular, aumentando risco de sarcopenia e fragilidade física, especialmente em maiores de 45 anos sem atividade física. Deficiências de ferro, vitamina B12 e cálcio são comuns; problemas digestivos e formação de cálculos na vesícula biliar podem ocorrer sem acompanhamento nutricional adequado.
Especialistas alertam para riscos silenciosos das 'canetas emagrecedoras' sem acompanhamento
O peso diminui, mas a proteção do joelho também
Por que essas medicações causam perda muscular se o objetivo é justamente emagrecer?
Porque emagrecer e perder peso não são a mesma coisa. O medicamento reduz apetite e acelera o metabolismo, mas não distingue entre gordura e músculo. Se você não está fazendo exercício de força, o corpo queima ambos — e músculo é metabolicamente ativo, então perde-se a capacidade de queimar calorias mesmo em repouso.
E por que ninguém fala sobre isso nas redes sociais?
Porque é invisível. A pessoa vê o número na balança cair, vê as roupas ficarem folgadas, tira uma foto bonita. Os problemas — cansaço, fraqueza, deficiências nutricionais — aparecem depois, lentamente, e não são tão fotogênicos quanto uma transformação.
A vesícula é realmente um risco tão sério?
Sim. Perda de peso rápida concentra a bile, formando cálculos. Muitas pessoas têm cálculos dormentes que nunca causariam problema. Mas com essas medicações, eles podem migrar e desencadear uma pancreatite aguda — uma emergência médica real.
Então o exercício é realmente obrigatório?
Não é obrigatório, mas sem ele você está aceitando consequências. Perda muscular, fragilidade, articulações sobrecarregadas. O exercício não é um extra — é parte do tratamento.
Qual é o maior risco que as pessoas subestimam?
A deficiência nutricional. O medicamento mata a fome, então as pessoas comem menos e pior. Ferro, B12, cálcio desaparecem da dieta. Anemia, ossos frágeis, cansaço crônico — tudo isso se desenvolve enquanto a pessoa acha que está apenas emagrecendo.
Se alguém já está usando, o que deveria fazer agora?
Procurar um médico, um nutricionista e um educador físico. Não é tarde. Mas tem que ser supervisionado, não pode ser mais uma coisa que a pessoa faz sozinha.
El Pulso
- Obesidade em adultos brasileiros cresceu 118% entre 2006 e 2024
- Perda rápida de peso sem exercício aumenta risco de sarcopenia, especialmente após os 45 anos
- Deficiências de ferro, B12 e cálcio são comuns em usuários sem acompanhamento nutricional
- Cálculos na vesícula podem desencadear pancreatite aguda em casos graves
- Programas de fortalecimento muscular reduzem em até 30% o risco de dor no joelho
Emagrecimento rápido reduz metabolismo basal e massa muscular, aumentando risco de sarcopenia e fragilidade física, especialmente em maiores de 45 anos sem atividade física. Deficiências de ferro, vitamina B12 e cálcio são comuns; problemas digestivos e formação de cálculos na vesícula biliar podem ocorrer sem acompanhamento nutricional adequado.
Especialistas alertam que o uso indiscriminado de medicamentos como Ozempic e Mounjaro sem supervisão médica pode causar perda muscular, deficiências nutricionais, problemas digestivos e sobrecarga nas articulações, apesar de eficazes para emagrecimento.
Abra qualquer rede social e encontrará o mesmo comentário repetido sob fotos de transformações corporais: "foi natural ou tomou Mounjaro?". As canetas emagrecedoras se tornaram tão onipresentes que viraram referência automática para qualquer perda de peso acelerada. O que começou como uma solução médica legítima para a obesidade — doença que cresceu 118% entre adultos brasileiros de 2006 a 2024, segundo dados do Ministério da Saúde — transformou-se em fenômeno de uso desenfreado e frequentemente sem supervisão profissional adequada. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro funcionam, sim. O problema é que funcionam sozinhos, sem o acompanhamento necessário, deixam um rastro de consequências silenciosas que ninguém comenta nas redes sociais.
A endocrinologista Alessandra Rascovski explica que o emagrecimento rápido traz uma armadilha metabólica. Quando o corpo perde peso rapidamente, perde também massa muscular — e músculo consome energia mesmo em repouso. Sem essa queima basal, o corpo gasta menos calorias por dia, sabotando a manutenção do peso a longo prazo. Para pessoas acima dos 45 anos que não praticam atividades físicas, o risco é ainda maior: o uso dessas medicações pode acelerar a sarcopenia, a perda progressiva de massa, força e função muscular que marca o envelhecimento. Alguns pacientes relatam cansaço tão intenso durante o tratamento que abandonam qualquer ideia de exercício, piorando paradoxalmente sua qualidade de vida enquanto tentam melhorá-la.
Os riscos não param na musculatura. Segundo Rascovski, a formação de cálculos na vesícula biliar é uma complicação real e frequentemente ignorada. Esses cálculos podem migrar para o ducto biliar e desencadear uma pancreatite aguda — inflamação potencialmente grave do pâncreas. Muitas pessoas tomam essas medicações por conta própria sem saber que já têm cálculos na vesícula, transformando um emagrecimento em uma emergência médica. Há também relatos de desenvolvimento de transtornos alimentares em pessoas que usam essas drogas sem orientação profissional.
A redução drástica do apetite causada por esses medicamentos cria outro problema: negligência nutricional. O nutricionista Brian Sumner aponta que muitos pacientes, sentindo menos fome, descuidam da qualidade das refeições. O resultado é deficiência de ferro e vitamina B12, diretamente ligadas ao desenvolvimento de anemia — condição frequentemente relatada em tratamentos prolongados. A baixa ingestão de cálcio compromete a saúde óssea, aumentando risco de osteopenia e osteoporose. A redução de fibras alimentares intensifica constipação intestinal, efeito colateral já bem documentado nessa classe de medicamentos. A gastroenterologista Claudia P. Oliveira complementa que má digestão, absorção deficiente de alimentos, supercrescimento bacteriano e retardo do esvaziamento gástrico são complicações reais que podem se desenvolver silenciosamente.
No plano ortopédico, a situação é paradoxal. Cada quilo perdido reduz até quatro quilos de carga sobre o joelho durante a caminhada — teoricamente, uma vitória. Mas quando essa perda é rápida e sem preservação muscular, o joelho fica desprotegido. O ortopedista Jonatas Brito, professor da Universidade Federal do Ceará, explica que o músculo funciona como estabilizador da articulação, distribuindo forças, amortecendo impactos e protegendo cartilagem, ligamentos e menisco. Sem essa proteção muscular, a carga na articulação aumenta, deixando o paciente vulnerável a dor, inflamação e lesões — especialmente quando começa a se exercitar sem preparação adequada.
O exercício, portanto, não é opcional: é essencial. Mas deve ser feito com inteligência. Muitas pessoas, animadas com a perda de peso, começam rotinas intensas demais, muito rápido, sem orientação. O corpo ainda não está preparado para essas demandas. Brito recomenda começar com atividades de baixo impacto — caminhadas, bicicleta, exercícios na água — com progressão gradual e treinamento de força supervisionado. O foco deve estar no fortalecimento de quadríceps, glúteos e posterior de coxa, criando o equilíbrio muscular que estabiliza o joelho. Estudos mostram que programas de fortalecimento reduzem em até 30% o risco de dor no joelho em pessoas que retomam atividade física após períodos sedentários.
A verdade incômoda é que as canetas emagrecedoras não fazem o trabalho sozinhas. Podem ser boas ferramentas, mas exigem acompanhamento médico rigoroso, supervisão nutricional, atividade física regular e, acima de tudo, compreensão de que a qualidade da perda de peso importa mais que a quantidade de quilos. Sem isso, o que parece uma solução rápida se torna um problema lento, silencioso e potencialmente grave.
Citas Notables
Quando se usa esses medicamentos, o importante não é apenas quantos quilos a pessoa está emagrecendo, mas a qualidade dessa perda de peso— Alessandra Rascovski, endocrinologista
O ideal é começar com atividades de baixo impacto e progressão gradual. Caminhadas, bicicleta, exercícios na água e treinamento de força supervisionado costumam ser boas opções no início— Jonatas Brito, ortopedista