15 países assinaram acordo designando 24 facções narcotraficantes como alvos de sanções, congelamento de ativos e restrições de visto. Escudo das Américas foi criado em março de 2026 com governos ideologicamente alinhados a Trump; Brasil, México, Colômbia e Venezuela ficaram de fora inicialmente.
Escudo das Américas sanciona PCC e CV; Brasil não integra aliança de Trump
O Brasil não cabe no quintal de ninguém
Por que o Brasil não foi convidado para essa aliança se o país enfrenta problemas graves com PCC e CV?
A coalizão foi construída em torno de governos ideologicamente alinhados a Trump. Lula representa uma posição política oposta, e há uma questão de soberania em jogo — o Brasil não quer ser enquadrado como parte de uma esfera de influência americana.
Mas isso significa que o Brasil fica fora das sanções? Ou as sanções funcionam mesmo sem participação brasileira?
As sanções podem funcionar através de mecanismos internacionais, mas a efetividade depende de cooperação. Se o Brasil não as implementa internamente, o impacto é limitado.
E essa questão de chamar as facções de terroristas — por que o Brasil se opõe?
Para o Brasil, terrorismo tem uma definição legal específica ligada a motivações ideológicas ou religiosas. PCC e CV são organizações criminosas movidas por lucro, não por ideologia.
Então é uma questão semântica, ou há consequências práticas reais em ser classificado como terrorista?
Consequências reais. Terroristas enfrentam sanções internacionais mais severas, congelamento de ativos global, restrições de visto. A classificação muda o regime legal.
Trump mencionou usar as Forças Armadas dos EUA. Isso significa intervenção militar no Brasil?
O discurso foi retórico, mas reflete a Doutrina Monroe — a ideia de que o hemisfério é zona de influência americana. Não sabemos se há planos concretos de ação militar.
O que é claro é que há duas visões em conflito: a de Trump sobre hegemonia hemisférica, e a de Lula sobre multilateralismo e não interferência.
El Pulso
- 15 países assinaram acordo designando 24 facções como alvos de sanções em 22 de setembro
- Escudo das Américas criado em março de 2026 por convite de Trump na Flórida
- Brasil não foi convidado; Lula discursou na ONU horas antes de Trump com posição oposta
- Governo brasileiro discorda da classificação de PCC e CV como terroristas globais
15 países assinaram acordo designando 24 facções narcotraficantes como alvos de sanções, congelamento de ativos e restrições de visto. Escudo das Américas foi criado em março de 2026 com governos ideologicamente alinhados a Trump; Brasil, México, Colômbia e Venezuela ficaram de fora inicialmente.
Coalizão liderada por Trump designa PCC e CV como ameaças compartilhadas e aprova sanções. Brasil não foi convidado para a aliança ideologicamente alinhada ao governo republicano.
Na terça-feira 22 de setembro, quinze países assinaram um acordo que formalizaria as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como alvos de sanções internacionais. O documento, assinado pelos membros da coalizão Escudo das Américas, designava vinte e quatro organizações criminosas como "ameaças compartilhadas" ao hemisfério, abrindo caminho para congelamento de ativos, restrições de visto e responsabilização criminal de quem oferecesse apoio material a esses grupos.
O Escudo das Américas nasceu em março de 2026, durante uma reunião de líderes continentais na Flórida, convocada pelo presidente dos EUA Donald Trump. O evento ocorreu em um resort de propriedade do próprio Trump. A coalizão reúne governos ideologicamente alinhados ao republicano: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos. Uma ausência notável marcou a formação da aliança. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, não recebeu convite. Também ficaram de fora líderes de esquerda como Claudia Sheinbaum, do México; Gustavo Petro, da Colômbia; e Delcy Rodríguez, da Venezuela. A Colômbia ingressaria posteriormente, com a posse de Abelardo de la Espriella.
O acordo aprovado pelos membros da coalizão prevê medidas concretas contra as organizações listadas. Além do congelamento de ativos e restrições de imigração e visto para membros, associados e apoiadores, o texto autoriza a responsabilização criminal de indivíduos que conscientemente forneçam apoio logístico a essas facções. O mecanismo será viabilizado através de um instrumento de reciprocidade da Organização dos Estados Americanos. O documento classifica essas organizações como "narcoterroristas transnacionais" que ameaçam a paz, segurança e prosperidade do hemisfério.
No mesmo dia, Trump discursou na Assembleia Geral da ONU em Nova York, reforçando a posição. Descreveu os cartéis de drogas como "o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental", inimigos em guerra contra a civilização que usam assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror. Anunciou o emprego das Forças Armadas dos EUA para eliminar essas organizações, afirmando que seus membros "devem ser mortos, exilados ou detidos". A retórica alinhava-se com a Doutrina Monroe, estabelecida no século dezenove, que busca manter as Américas como zona de influência exclusiva dos Estados Unidos. Membros do governo Trump frequentemente referem-se ao continente como "nosso quintal".
Poucas horas antes, Lula havia ocupado o mesmo púlpito da ONU com mensagem radicalmente distinta. O presidente brasileiro defendeu o multilateralismo, a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", declarou, em resposta implícita à linguagem de hegemonia que Trump empregaria em seguida.
A classificação das facções brasileiras como terroristas globais criou uma divergência fundamental entre Washington e Brasília. O governo brasileiro discorda da denominação. Segundo a legislação interna, terrorismo é definido pela prática de atos violentos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, quando cometidos para provocar terror social generalizado. Em maio do ano anterior, Mario Sabburro, então secretário nacional de Segurança Pública, havia explicado essa distinção a uma comitiva americana em reunião no Ministério da Justiça. Afirmou que as organizações criminosas brasileiras carecem de qualquer viés ideológico, político ou religioso. Não buscam transformar o sistema, disse; sua motivação é a prática de infrações penais e lavagem de dinheiro.
A ação do Escudo das Américas reflete uma reconfiguração das alianças hemisféricas sob a administração Trump, deixando o Brasil fora de uma coalizão de segurança que inclui vizinhos como Argentina, Bolívia e Peru. A divergência sobre como nomear e tratar as facções criminosas aponta para uma fissura mais profunda: visões opostas sobre soberania, interferência externa e o papel que cada país desempenha na ordem internacional.
Citas Notables
Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental. São inimigos em guerra contra a civilização, usando assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror, e por isso eles devem ser mortos, exilados ou detidos.— Donald Trump, discurso na Assembleia Geral da ONU
Estas organizações criminosas não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema. Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro.— Mario Sabburro, então secretário nacional de Segurança Pública do Brasil