Erika Hilton diz sentir mais medo como deputada do que nas ruas

Erika Hilton viveu nas ruas aos 14 anos após ser expulsa de casa pela mãe, enfrentando prostituição e vulnerabilidade extrema; atualmente recebe ameaças de morte como deputada federal.
Tenho meu nome, meu CPF nas ameaças. É pessoal.
Erika Hilton contrasta o medo anônimo das ruas com a violência direcionada que enfrenta como deputada federal.

Erika Hilton afirma receber ameaças específicas direcionadas a seu nome e CPF, diferente do ódio genérico que enfrentava nas ruas aos 14 anos. A deputada menciona a morte de Marielle Franco como exemplo de que ameaças políticas podem ser cumpridas, com perpetradores saindo impunes.

  • Erika Hilton foi expulsa de casa aos 14 anos e viveu nas ruas
  • Eleita para Assembleia Legislativa em 2018, vereadora em 2020, deputada federal em 2022
  • Recebe ameaças específicas direcionadas a seu nome e CPF como parlamentar
  • Cita morte de Marielle Franco como evidência de que ameaças políticas podem ser cumpridas

Deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) revela em videocast que sente mais medo como parlamentar do que quando vivia nas ruas, citando ameaças direcionadas e o caso de Marielle Franco como evidência de risco real.

Erika Hilton senta diante das câmeras do videocast Desculpa Alguma Coisa para conversar com Tati Bernardi e diz algo que parece impossível à primeira escuta: tem mais medo agora, como deputada federal, do que tinha aos 14 anos vivendo nas ruas de São Paulo. O medo, explica, mudou de forma. Antes era difuso, genérico — o ódio dirigido à comunidade trans como um todo, com a possibilidade de que ela não fosse escolhida naquele dia. Agora é pessoal. É seu nome. É seu CPF. É endereçado.

Hilton entrou na política em 2018 como parte da Bancada Ativista, um grupo de nove pessoas eleito para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Em 2020 virou vereadora da capital. Em 2022, deputada federal pelo PSOL. A trajetória é notável, mas o que ela quer deixar claro nesta conversa é que a ascensão política trouxe um tipo de violência diferente — mais precisa, mais perigosa. Ela recebe ameaças. E quando fala sobre isso, invoca Marielle Franco, a vereadora carioca assassinada em 2018. "A ruptura institucional com a morte de Marielle mostra que isso acontece, eles saem ilesos", diz. Não é paranoia. É observação.

Mas para entender por que isso importa tanto, é preciso voltar. Aos 14 anos, Hilton foi expulsa de casa. Sua mãe havia se convertido a uma religião evangélica e se tornou, nas palavras da filha, "uma louca, uma carola, completamente desequilibrada". A mãe que antes era "aquela tia maravilhosa, uma referência", que trocava de cabelo e era moderna, agora queria limitar quem Hilton era. A adolescente enfrentou a mãe, enfrentou a sociedade, e disse que se era isso o preço de ser quem era, estava pronta. Mas não estava. Ela foi para a rua.

Os anos que se seguiram são, nas suas próprias palavras, um "grande apagão, cinza e nebuloso". Aos 14 anos, ela entrou em carros de estranhos na esquina de prostituição. Tinha medo. Mas, olhando para trás, aquele medo era menor do que o que sente hoje. "Não sou de ferro, não sou de aço", diz. Nas ruas, ela nunca levou um tapa de outra travesti — algo que ela marca como raro, como um tipo de solidariedade que a manteve viva. E quando vê outras meninas em contextos semelhantes, pensa em como sobreviveu pela base que sua mãe lhe deu antes da expulsão. Apesar de tudo, ela carrega gratidão.

Hilton também reflete sobre como a prostituição de pessoas trans não recebe a mesma atenção pública que outras formas de exploração sexual. "A gente não tem, por exemplo, comoção com crianças trans se prostituindo", observa. É um ponto que passa rápido na conversa, mas que carrega peso — a invisibilidade da vulnerabilidade.

Quando o assunto muda para autoestima, ela fala sobre a importância de se valorizar, de se olhar e dizer "sou f*da". Resgatar um lugar de sim, de reconhecimento próprio, é para ela um ato de resistência contra um roubo contínuo. Ela também menciona que começou a se hormonizar muito cedo, nas ruas, sem prescrição, com o que outras meninas recomendavam. "Hormônio é uma coisa séria", avisa. Mas nunca fez cirurgia estética — embora tenha vontade de mexer no nariz.

O que emerge dessa conversa é um retrato de alguém que sobreviveu a formas extremas de vulnerabilidade e agora enfrenta uma vulnerabilidade diferente: a de ser um alvo nomeado dentro de uma instituição que deveria protegê-la. A política, ela diz, não pode ser coisa de casta. Mas a segurança de quem entra nela como mulher trans, como pessoa preta, como alguém que veio das ruas, parece ser uma questão que o sistema ainda não aprendeu a resolver.

Tenho medo, recebo ameaças. A ruptura institucional com a morte de Marielle mostra que isso acontece, eles saem ilesos
— Erika Hilton
Sobrevivi a tudo que passei nas esquinas, nas ruas, nas calçadas, pelo amor da minha mãe, que tive antes
— Erika Hilton
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando você diz que tem mais medo agora do que nas ruas, o que mudou exatamente?

Model

A diferença é que antes o medo era anônimo. Eu era uma entre muitas. Agora tenho meu nome, meu CPF nas ameaças. É pessoal. É direcionado.

Inventor

E Marielle Franco entra nisso como quê, exatamente?

Model

Como prova de que ameaças saem do papel. De que quem faz isso sai ileso. Não é teoria — é história recente.

Inventor

Você diz que sua mãe te criou de um jeito autêntico, mas depois a expulsou. Como você reconcilia isso?

Model

Eu sempre tive gratidão por aquela criação que ela me deu antes. Quando estava nas ruas, pensava em outras meninas sem essa base e percebia que eu tinha sobrevivido por causa dela. O amor dela veio antes da rejeição.

Inventor

Nas ruas você diz que nunca levou um tapa de outra travesti. Por que isso importa tanto?

Model

Porque é raro. É um tipo de solidariedade que você não espera encontrar quando está naquele lugar. A gente cuida uma da outra de formas que a sociedade não vê.

Inventor

Você fala sobre invisibilidade — crianças trans se prostituindo não recebem atenção. Por que você acha que é assim?

Model

Porque a gente não consegue ver a humanidade ali. A prostituição de pessoas trans é tratada como se fosse natural, inevitável. Ninguém se comove. Ninguém age.

Inventor

E agora, como deputada, você consegue fazer algo sobre isso?

Model

Consigo estar aqui, viva, falando sobre isso. Consigo dizer que existimos. Mas a segurança para fazer isso — para estar nesse lugar — ainda é uma questão aberta.

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