Agronegócio, transporte e seguros sofrem com previsão de seca e quebra de safras, criando efeito cascata na economia. Setores como climatização, bebidas e varejo planejam aumentar estoques e antecipam demanda impulsionada pelo calor extremo.
Empresas do Ibovespa dividem-se entre perdas e ganhos com El Niño
O calor faz muita diferença para nós. Vendemos muito.
Por que o El Niño afeta tão diferentemente os setores da economia?
Porque o Brasil é continental. Uma seca no Centro-Oeste quebra safra e afeta bancos que emprestam para o agro. Mas chuva no Sul enche reservatórios e gera mais energia. A mesma coisa que destrói um negócio alimenta outro.
E o varejo? Por que ele ganha com calor?
Porque calor muda comportamento. As pessoas compram ar-condicionado, ventilador, refrigerador. Bebem mais cerveja. É simples assim. A Magazine Luiza já está recebendo estoque dos fornecedores porque sabe que vai vender.
Mas o varejo não estava em crise?
Está. Juros altos, famílias endividadas. O El Niño é uma pequena janela, não uma salvação. Alguns varejistas pediram recuperação judicial este ano mesmo. O calor ajuda, mas não resolve o problema estrutural.
E os produtores rurais? Como eles lidam com isso?
Com dificuldade. A SLC Agrícola perde 7% de produtividade em anos normais de El Niño. Em 2016 perdeu 15%. Agora estão tentando novas técnicas: coberturas de solo, plantio antecipado. Mas é mitigação, não solução. E se perdem safra, não conseguem pagar empréstimo.
O Banco do Brasil está preparado?
Está tentando. Mandou 280 agrônomos para o campo monitorar em tempo real. Quer que os produtores façam mais seguros. Aumentou a provisão para calotes. Mas ninguém sabe exatamente como vai ser este El Niño. É forte demais para prever com precisão.
El Pulso
- SLC Agrícola registra queda média de 7% na produtividade de soja em anos com El Niño
- Abrava projeta faturamento de R$ 55,62 bilhões para climatização em 2026, alta de 10%
- Banco do Brasil enviou 280 profissionais para monitorar lavouras em tempo real
- Receita de cerveja no Brasil deve chegar a R$ 43,4 bilhões em 2026, avanço de 8%
Agronegócio, transporte e seguros sofrem com previsão de seca e quebra de safras, criando efeito cascata na economia. Setores como climatização, bebidas e varejo planejam aumentar estoques e antecipam demanda impulsionada pelo calor extremo.
Companhias listadas na Bolsa brasileira antecipam impactos do El Niño: agronegócio, logística e seguros enfrentam riscos, enquanto varejo e climatização veem oportunidades de vendas.
Desde junho, o El Niño vem alterando padrões climáticos e elevando temperaturas em todo o planeta, e as 76 companhias listadas no Ibovespa já começam a mapear como esse fenômeno de aquecimento atípico das águas do Pacífico vai afetar seus negócios. O levantamento feito pela Folha a partir das teleconferências de resultados do segundo trimestre revela um mercado dividido: enquanto alguns setores veem vulnerabilidades claras, outros identificam janelas de oportunidade nas ondas de calor que se aproximam.
Para o agronegócio, logística, transporte e seguros, o El Niño é principalmente uma ameaça. A seca histórica que o fenômeno traz para o Centro-Oeste e outras regiões produtivas cria um efeito cascata pela economia. A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do país, costuma registrar queda média de 7% na produtividade da soja em anos com El Niño, conforme dados da UBS BB, enquanto o algodão de segunda safra cai cerca de 10%. Em 2016, quando o fenômeno foi particularmente intenso, a quebra de safra da companhia chegou a 15%. Dessa vez, o CEO Aurélio Pavinato anunciou mudanças no manejo das lavouras, com foco em coberturas de solo para reter umidade e antecipação do plantio do algodão na Bahia. A expectativa é que as perdas de 2027 sejam significativamente menores que as de 2016.
O impacto se estende para além da produção. Quando há quebra de safra, o setor financeiro sofre porque aumenta a inadimplência entre produtores rurais que pegam crédito. O Banco do Brasil, que é expoente no seguro do agronegócio, enviou 280 profissionais de ciências agrárias para monitorar lavouras em tempo real e está incentivando produtores a contratar múltiplos seguros. A empresa também considerou o El Niño ao calcular suas provisões para devedores duvidosos em 2026. Transportadoras como a Rumo enfrentam perspectiva de queda no volume de grãos movimentados, enquanto a Minerva, no setor de agropecuária, vê risco de atraso na recomposição de rebanhos, já que a seca força produtores a complementar a alimentação do gado com ração, bem mais cara que pasto.
Por outro lado, o varejo e a indústria de climatização veem o calor como catalisador de vendas. A Magazine Luiza destacou que ar-condicionado, ventilação e refrigeração vendem muito mais em períodos quentes, e a empresa já começou a receber itens dos fornecedores. O vice-presidente de operações Fabrício Garcia afirmou estar bem programado e planejado para aproveitar a demanda. A indústria de climatização como um todo se mobilizou: varejistas antecipam encomendas e fabricantes reforçam estoques. A Abrava, associação do setor, prevê faturamento de R$ 55,62 bilhões em 2026, alta de 10% ante 2025.
O mercado de bebidas também se beneficia. A Ambev, que vivenciou o El Niño de 2024, usa essa experiência para embasar estratégias para os próximos trimestres. Naquele ano, a receita líquida de cerveja no Brasil somou R$ 40,22 bilhões, alta de 3,2% ante 2023. A Bloomberg projeta que esse número chegue a R$ 43,4 bilhões em 2026, avanço de quase 8% ante 2025, impulsionado também pelo consumo durante a Copa do Mundo. O Assaí, por sua vez, enxerga oportunidade nas margens: a volatilidade nos preços de commodities pode ter efeito direto na inflação de alimentos, e o CEO Belmiro Gomes afirmou que a capacidade de repassar preços vai ocorrer, potencialmente gerando efeito positivo no faturamento.
O setor de energia elétrica fica dividido entre os dois lados. Copel e Auren veem oportunidades com reservatórios mais cheios no Sul e alta demanda no Sudeste e Centro-Oeste pelas ondas de calor. Energisa, Cemig e Axia, porém, já mencionam riscos de interrupção, danos à rede elétrica aérea, apagões e volatilidade nos preços. A geografia continental do Brasil complica o quadro: cada região é afetada de forma diferente. Geradores com reservatórios no Sul tendem a ganhar com as chuvas, enquanto no Nordeste e Norte, como no caso da Axia em Belo Monte no Pará, a seca tende a ser prejudicial.
O varejo, castigado por juros altos e endividamento recorde das famílias, é um dos poucos setores que encontra no El Niño alguma janela de oportunidade, embora insuficiente para reverter o momento ruim que resultou em ao menos cinco pedidos de recuperação judicial neste ano. Para a maioria dos setores, porém, o fenômeno climático é principalmente um desafio a ser gerenciado, não uma oportunidade a ser aproveitada.
Citas Notables
O calor faz muita diferença para nós. A linha de ar-condicionado e ventilação vende muito e mexe muito o ponteiro, assim como a categoria de refrigeração, que é a que vende mais na companhia.— Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da Magazine Luiza
O El Niño, historicamente, traz seca para o Centro-Oeste, o que causa quebra de safra. Por consequência, o setor financeiro acaba penalizado porque dá crédito para o agro, então podemos ver um aumento de inadimplência por conta disso.— Aline Cardoso, líder de pesquisa e estratégia de ações do Santander