A menos de três meses das eleições de outubro de 2022, o Brasil se preparava para uma escolha que ia muito além da disputa presidencial — era um exercício coletivo de autodeterminação que envolveria governadores, senadores e centenas de deputados. Em meio à polarização crescente, vozes como a do cientista político Uriã Fancelli lembravam que os rótulos de direita e esquerda, nascidos nas assembleias da Revolução Francesa, talvez já não fossem suficientes para dar conta da complexidade de um país em busca de si mesmo. Compreender o que se vota, e por quê, é o primeiro ato de soberania de qualqu
Eleições 2022: guia completo sobre cargos, votação e espectro político
Autoidentificar-se com um lado significa abrir mão da autonomia
Então o brasileiro votava em seis cargos diferentes nessa eleição? Como alguém consegue acompanhar tudo isso?
Não exatamente seis — eram vários. Presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Alguns estados tinham mais candidatos a deputado federal do que outros, dependendo da população. São Paulo tinha 70 opções, estados menores tinham 8.
Mas a matéria não explica como o eleitor comum escolhia entre tantos candidatos. Ela lista os cargos e as funções, mas não diz nada sobre como as pessoas realmente decidiam em quem votar.
E esse negócio de voto branco e nulo — eles realmente fazem diferença?
Tecnicamente não contam na apuração, mas afetam o primeiro turno. Se mais gente votasse em branco ou nulo, o candidato precisaria de menos votos válidos para ganhar no primeiro turno.
Espera — a matéria diz que votos em branco e nulo "participam da definição da quantidade absoluta de eleitores que um candidato precisa para vencer". Mas não explica o mecanismo exato. É uma afirmação que fica suspensa.
E sobre direita e esquerda — a matéria realmente resolve essa confusão?
Traz um cientista político explicando as origens na Revolução Francesa, quando nobres se sentaram à direita e pobres à esquerda. Direita é conservadora, menos intervenção estatal. Esquerda é progressista, mais políticas sociais.
Mas isso é história. A matéria não diz como um eleitor em 2022 identifica se é de direita ou esquerda. O cientista até diz que rótulos são ultrapassados, o que é uma posição política em si.
Então qual era a utilidade prática dessa matéria para alguém que ia votar?
Explicava os cargos, o que cada um fazia, e dava contexto histórico sobre o espectro político. Era um guia educativo.
Mas não era um guia para votar. Era um guia para entender conceitos. Diferença importante.
Il Polso
- Com apenas dois meses para o pleito, milhões de eleitores brasileiros ainda não sabiam ao certo em quantos cargos — e com que consequências — iriam votar em outubro de 2022.
- A confusão sobre votos em branco, nulos e o funcionamento do primeiro turno alimentava mitos que distorciam a percepção do peso real de cada escolha nas urnas.
- O espectro político entre direita e esquerda, com raízes no século XVIII francês, continuava a dividir eleitores em campos opostos, muitas vezes sem que compreendessem a origem ou os limites dessas categorias.
- Especialistas alertavam que classificar Lula e Bolsonaro como 'extremos' era um equívoco conceitual — ambos governaram com populismo, mas sem o autoritarismo que define o extremismo de fato.
- A saída apontada por analistas era abandonar os rótulos e apostar no bom senso: crescimento econômico aliado ao respeito aos direitos humanos, sem que nenhum lado do espectro detivesse o monopólio da razão.
A menos de três meses das eleições de outubro de 2022, o Brasil se preparava para uma escolha que ia muito além da disputa presidencial — era um exercício coletivo de autodeterminação que envolveria governadores, senadores e centenas de deputados. Em meio à polarização crescente, vozes como a do cientista político Uriã Fancelli lembravam que os rótulos de direita e esquerda, nascidos nas assembleias da Revolução Francesa, talvez já não fossem suficientes para dar conta da complexidade de um país em busca de si mesmo. Compreender o que se vota, e por quê, é o primeiro ato de soberania de qualquer cidadão.
Faltavam pouco mais de dois meses para o Brasil ir às urnas em outubro de 2022, e a desinformação sobre o próprio processo eleitoral era tão preocupante quanto a polarização política. Além de escolher um presidente, os brasileiros decidiriam sobre 27 governadores, 27 senadores e 513 deputados federais — um número que variava por estado conforme a população, com São Paulo elegendo 70 deputados e estados menores como Amapá e Sergipe ficando com apenas 8 cadeiras.
Cada cargo carregava responsabilidades distintas. O presidente comandava o Executivo, nomeava ministros e conduzia a política externa. Os governadores administravam seus estados. Os senadores, com mandatos de oito anos, fiscalizavam o Executivo e aprovavam escolhas estratégicas. Os deputados — federais e estaduais — tinham como missão central elaborar e fiscalizar leis em suas respectivas esferas.
Um ponto técnico frequentemente mal compreendido era o papel dos votos em branco e nulos: embora não entrassem na contagem final, influenciavam indiretamente o primeiro turno ao reduzir o total de votos válidos necessários para uma vitória imediata. O mito de que 50% de votos nulos anulariam a eleição, esclareceu-se, simplesmente não tinha respaldo legal.
O cientista político Uriã Fancelli trouxe profundidade ao debate sobre o espectro ideológico. Direita e esquerda, explicou, nasceram literalmente de onde as pessoas se sentavam nas assembleias da Revolução Francesa: nobres à direita, povo à esquerda. Desde então, a direita ficou associada ao conservadorismo e à menor intervenção estatal, enquanto a esquerda abraçou o progressismo e as políticas sociais. Thatcher e Chávez foram citados como exemplos históricos de cada polo.
Sobre Bolsonaro e Lula, Fancelli foi preciso: nenhum dos dois governou no extremismo real, que pressupõe autoritarismo e ruptura democrática. O que houve foram vieses ideológicos e, no caso de Bolsonaro, forte negacionismo. Quanto ao centro — frequentemente tratado como sinônimo de indecisão ou do 'centrão' do Congresso —, o especialista defendeu sua legitimidade: há quem genuinamente não se encaixe em nenhum dos dois lados.
Sua reflexão final foi a mais provocadora: no século XXI, autoidentificar-se rigidamente com direita ou esquerda é abrir mão da autonomia de pensamento. A verdadeira maturidade política estaria em lutar pelo crescimento do país com respeito aos direitos humanos — sem que isso pertença a nenhuma caixa ideológica.
Faltavam pouco mais de dois meses para o Brasil ir às urnas em outubro de 2022, e muitos eleitores ainda não tinham clareza sobre o que realmente votariam. A eleição presidencial daquele ano não era apenas sobre escolher um novo presidente — era um processo muito mais amplo que moldaria o país pelos anos seguintes. Além do cargo máximo do Executivo, os brasileiros decidiriam sobre 27 governadores estaduais, 27 senadores e 513 deputados federais. O número de deputados federais variava conforme a população de cada estado: São Paulo elegeria 70, enquanto estados menores como Amapá, Amazonas e Sergipe teriam direito a apenas 8 cadeiras na Câmara. Os deputados estaduais seguiam uma lógica diferente — cada assembleia legislativa estadual teria direito a três vezes mais representantes do que o estado possuía de deputados federais.
Cada um desses cargos carregava responsabilidades distintas e consequências reais para a vida dos cidadãos. O presidente era a autoridade máxima do Poder Executivo, responsável por nomear ministros, conduzir política e economia, aplicar ou vetar leis, editar medidas provisórias, manter relações internacionais e comandar as Forças Armadas. Os governadores administravam seus estados e os representavam em questões jurídicas, administrativas e políticas. Os senadores, que cumpriam mandatos de oito anos — bem mais longos que os outros cargos — formavam o Senado Federal junto com a Câmara dos Deputados, compondo o Congresso Nacional. Eles elaboravam leis, fiscalizavam o Executivo, processavam e julgavam outros cargos, aprovavam escolhas de ministros e operações financeiras. Os deputados federais integravam a Câmara e tinham como função principal elaborar leis e fiscalizar o Poder Executivo. Já os deputados estaduais eram os verdadeiros representantes do povo na esfera regional, legislando e criando, alterando ou vetando leis no âmbito estadual.
Um aspecto técnico que poucos compreendiam era o papel dos votos em branco e nulo. Embora não contassem na apuração final, esses votos afetavam indiretamente o primeiro turno ao influenciar a quantidade absoluta de eleitores que um candidato precisava para vencer. Para ser eleito logo no primeiro turno, um candidato à presidência precisava de 50% dos votos válidos mais um. Quanto mais votos em branco ou nulo, menor era a quantidade de votos válidos necessária para atingir esse patamar. Um eleitor que desejasse votar nulo precisava apenas digitar um número que não correspondesse a nenhum partido ou político — e era importante derrotar o mito de que se 50% da população votasse nulo a eleição seria anulada, pois isso simplesmente não acontecia.
Mas havia outra dimensão da eleição que confundia muitos eleitores: o espectro político entre direita e esquerda. O cientista político Uriã Fancelli explicou que a direita era teoricamente conhecida por seguir comportamentos mais tradicionais e conservadores, com um governo que interferia menos na economia, focando em políticas liberais como privatizações. A esquerda, por sua vez, era associada à luta dos trabalhadores, com comportamentos progressistas e um governo que intervinha mais na economia, abordando pautas sociais como leis em prol de minorias. Essa divisão tinha raízes profundas: remontava ao século XVIII, durante as assembleias na França. Naquela época, uma burguesia buscava junto à população diminuir os poderes dos nobres e do clero durante a Revolução Francesa. Quando foi montada uma Assembleia Nacional Constituinte para criar a nova constituição, os nobres não gostaram da ideia dos pobres participarem e preferiram ficar sentados separadamente — coincidentemente no lado direito. Os pobres ficaram no lado esquerdo. Daí nasceu a associação da esquerda com a luta pelos direitos dos trabalhadores e da direita com os interesses da elite.
Quanto aos principais representantes históricos, Fancelli citou Margaret Thatcher como grande exemplo de governo de direita e Hugo Chávez como representante de esquerda. Quando questionado se Bolsonaro era extrema direita e Lula era extrema esquerda, o cientista político foi cauteloso. Extremismo, explicou, estava ligado ao autoritarismo e ditaduras, e ele não acreditava que nenhum dos dois governos tivesse sido extremo nesse sentido. O que ocorreu em ambos foram medidas populistas e, principalmente no governo Bolsonaro, negacionistas. Os dois possuíam vieses direcionados em suas políticas, mas não podiam ser classificados como extremos.
O conceito de centro também merecia esclarecimento. No Brasil, era um termo frequentemente considerado pejorativo, com muitos dizendo que se referia a pessoas indecisos ou ao "centrão" que dominava o Congresso Nacional. Mas Fancelli argumentava que o centro realmente existia — eram pessoas que não se encaixavam completamente nos pensamentos de direita nem de esquerda, ou que acreditavam em um pouco de cada ideologia. Sua reflexão final, porém, foi provocadora: no século XXI, não deveríamos nos colocar em rótulos. Esquerda e direita eram ideias ultrapassadas. Num mundo tão polarizado, a solução era lutar pelo crescimento e evolução do país respeitando direitos humanos e sem preconceitos, focando no bom senso. A luta de minorias deveria ser de todos, assim como políticas econômicas deveriam visar o bem-estar da população. Autoidentificar-se com um lado do espectro político significava abrir mão da autonomia de pensamento, como se fôssemos colocados em caixas limitadoras que impediam uma visão de mundo própria.
Citazioni salienti
Extremo está ligado ao autoritarismo e ditaduras, porém eu creio que não tivemos isso em nenhum dos dois governos— Uriã Fancelli, cientista político
Lutar pelo crescimento e evolução do país respeitando os direitos humanos e sem preconceitos é a solução para um mundo melhor— Uriã Fancelli, cientista político