Aos 55 anos, Ed Motta lança seu 15º álbum, 'Toc-Toc', e com ele encerra décadas de conflito consigo mesmo: o artista que se dizia americano, que renegou seus maiores sucessos comerciais e que acumulou polêmicas públicas, encontra agora uma paz improvável com suas próprias contradições. É a história de um homem que sempre soube quem era, mas precisou de quase quarenta anos para aceitar isso sem pedir desculpas — exceto quando realmente precisava.
Ed Motta abraça contradições e retorna ao pop português em novo disco
Sem contradição, a vida não tem graça. A coerência é medíocre.
Por que agora, aos 55 anos, Ed Motta decide abraçar as batidas eletrônicas que criticou por tanto tempo?
Ele diz que é sobre idade e cansaço. Começou muito jovem, carregou muita coisa. Agora está menos crítico consigo mesmo, menos implicante. As batidas eletrônicas que o fizeram famoso em 1997 deixaram de ser uma violência e viraram uma formatação interessante.
Mas é importante notar que isso não é uma mudança de opinião sobre a música em si. Ed ainda acha que a música parou de ser boa nos anos 1980. Ele está aceitando seu próprio passado, não necessariamente validando a indústria que o forçou a fazer aquele disco.
Ele pede desculpas constantemente por coisas que diz. Como isso se encaixa com sua defesa da incoerência?
Acho que são duas coisas diferentes. Os pedidos de desculpas parecem genuínos —ele fala sobre a cadeira que jogou como "a coisa mais triste que já passei". A incoerência que ele defende é mais sobre não ser uma unanimidade, sobre ter posições que irritam metade das pessoas.
Sim, mas há uma diferença entre ser provocador e ser prejudicial. Chamar alguém de "paraíba" como insulto, mesmo que em áudio, não é exatamente incoerência inteligente. É discriminação. Os pedidos de desculpas sugerem que ele sabe disso.
O que "Toc-Toc" representa musicalmente em relação ao resto da carreira?
É uma ponte. Ele passou anos em jazz complexo e soft rock, explorando coisas barrocas. Agora volta ao pop em português, mas não é um retorno ao Ed de 1997. É um Ed que absorveu tudo aquilo e está trazendo de volta com uma leveza contemplativa.
O disco incorpora batidas eletrônicas que lembram seu começo, mas com uma atmosfera de R&B etérea. Isso é verificável no que ele diz sobre a produção. O que ainda não sabemos é como o público vai receber isso —se vai ser visto como uma volta genuína ou como uma concessão comercial.
Ele realmente acredita que a incoerência é mais inteligente que a coerência?
Ele diz acreditar. E há algo nessa defesa que parece honesto —ele não quer ser uma unanimidade, quer irritar tanto quanto agradar. Mas também é uma forma de justificar comportamentos que o prejudicaram.
É uma filosofia conveniente para alguém que faz coisas polêmicas e depois pede desculpas. Permite que ele seja provocador sem ser responsabilizado completamente. Dito isso, há uma verdade em que artistas genuinamente interessantes raramente agradam a todos.
The Pulse
- Depois de três álbuns em inglês e anos de distância do pop brasileiro, Ed Motta retorna ao português com batidas eletrônicas que ele mesmo passou décadas condenando — uma virada que sinaliza reconciliação, não rendição.
- 'Manual Prático para Festas', disco que Ed descreveu por anos como uma violência contra sua identidade artística, é hoje reconhecido por ele com afeto — uma revisão que levou quase trinta anos para acontecer.
- Polêmicas com fãs de rap, com Maria Bethânia, com Raul Seixas e, mais recentemente, um incidente com uma cadeira em restaurante do Rio colocam em xeque a linha tênue entre persona provocadora e comportamento real.
- Ed defende a incoerência como forma superior de inteligência e a coerência como mediocridade — uma filosofia que serve tanto de escudo quanto de espelho para sua trajetória errática e brilhante.
Aos 55 anos, Ed Motta lança seu 15º álbum, 'Toc-Toc', e com ele encerra décadas de conflito consigo mesmo: o artista que se dizia americano, que renegou seus maiores sucessos comerciais e que acumulou polêmicas públicas, encontra agora uma paz improvável com suas próprias contradições. É a história de um homem que sempre soube quem era, mas precisou de quase quarenta anos para aceitar isso sem pedir desculpas — exceto quando realmente precisava.
Ed Motta canta há quase quarenta anos que sua vida seria diferente se fosse americano. Mas aos 55 anos, lançando 'Toc-Toc', seu 15º álbum, ele está pronto para contar uma história diferente sobre quem sempre foi. "Falar que sou americano é uma forma de provocar", admite. "A música brasileira mudou a forma como passei a compor."
O novo disco traz batidas eletrônicas que Ed criticou por décadas, um retorno ao português após três álbuns em inglês e um tom pop que ele descreve como tendo "a leveza de um queijo quente". A reconciliação com o próprio passado, porém, vem de longe. Em 1997, sem dinheiro e pressionado pela Universal, gravou 'Manual Prático para Festas, Bailes e Afins' com Liminha — um disco que chamou de "violência" por anos, mas que hoje reconhece com carinho: "Das canções sempre gostei, mas não gostava da moldura. Hoje acho a formatação interessante."
A trajetória é feita de recusas e preços altos. Quando lançou 'Dwitza' em 2001, mergulhando na música brasileira, o público que o conhecia de 'Manuel' abandonou os shows. O disco o exportou para Europa e Japão, mas o isolou no Brasil. "Fiz um negócio radical. Paguei um preço alto", reconhece.
As polêmicas também fazem parte do retrato. Declarações sobre plateia europeia "mais culta", críticas a fãs de rap, a Maria Bethânia e a Raul Seixas — todas seguidas de pedidos de desculpas públicos. Em maio deste ano, um incidente com uma cadeira em restaurante no Rio e uma acusação de injúria voltaram a colocá-lo no centro da controvérsia. "Foi a coisa mais triste que já passei na vida", diz sobre o episódio.
Mas Ed não abre mão de sua persona. "Adoro que me amem, mas saber que irritei é uma delícia", confessa. Aos 55 anos, acorda cedo, ouve cerca de dez discos por dia e defende a incoerência como virtude: "Uma vida de coerência é uma coisa medíocre. Prefiro ser um incoerente." Com 'Toc-Toc', Ed Motta não pede permissão para ser quem sempre foi. Está, finalmente, em paz com isso.
Ed Motta canta há quase quarenta anos que sua vida seria diferente se fosse americano. É a abertura de "Manuel", seu primeiro grande sucesso em 1988, e durante décadas ele reforçou essa persona: um artista que se sentia mais próximo da música americana do que da brasileira, alguém que carregava a estética e a ambição dos Estados Unidos dentro de um corpo que fazia música no Brasil. Mas aos 55 anos, lançando seu 15º álbum, "Toc-Toc", nesta sexta-feira, Ed Motta está pronto para contar uma história diferente sobre quem ele sempre foi.
"Falar que sou americano é uma forma de provocar", diz agora. "Faz parte da minha personalidade. A música brasileira mudou a forma como passei a compor." O que mudou não é apenas o discurso. O novo disco traz batidas eletrônicas que Ed passou décadas criticando, um retorno ao português depois de três álbuns em inglês lançados pela gravadora alemã MPS, e um tom pop que ele descreve como tendo "a leveza de um queijo quente". Depois de anos explorando orquestrações barrocas, harmonias intrincadas e a profundidade do jazz e soft rock, Ed quer algo que comunique de forma mais direta.
Essa reconciliação com seu próprio passado começou muito antes do novo disco. Em 1997, quando Ed tinha pouco mais de vinte anos e voltava dos Estados Unidos com trezentos dólares no bolso, a Universal concordou em lançar um álbum apenas com uma condição: que fosse comercial e produzido por Liminha. "Eu estava muito duro. Falei que, para não pagar aluguel, vou precisar ajoelhar no milho e fazer um disco que não quero", recorda. O resultado foi "Manual Prático para Festas, Bailes e Afins", que se tornou seu maior sucesso comercial, com hits como "Fora da Lei" e "Vendaval", seguido por "As Segundas Intenções do Manual" em 2000, que trouxe "Colombina". Por décadas, Ed criticou aquelas batidas eletrônicas criadas por Liminha, descrevendo o período como "uma violência" para um jovem artista que sentia sua música sendo deturpada. Mas quase trinta anos depois, o sentimento arrefeceu. "Hoje é um disco de que gosto, mas levei tempo", diz. "Das canções sempre gostei, mas não gostava da moldura. Hoje acho a formatação interessante."
A trajetória de Ed é marcada por recusas e reviravoltas. Quando retornou dos Estados Unidos em 1992, esperava encontrar portas abertas com suas novas influências brasileiras. Em vez disso, a indústria queria o Ed Motta americano para sempre. Depois de "Manual", quando finalmente conseguiu fazer o que desejava com "Dwitza" em 2001, um álbum que incorporava profundamente a música brasileira e que hoje é celebrado pela crítica, o público que o conhecia de "Manuel" saía no meio dos shows. "Fiz um negócio radical. Paguei um preço alto. Tem cidades e regiões em que nunca mais toquei", afirma. Aquele disco o exportou para Europa e Japão, mas o isolou no Brasil.
Ed Motta é conhecido tanto por suas declarações polêmicas quanto por sua música. Disse que sua plateia europeia era "mais culta" do que brasileiros "simplórios", chamou fãs de rap de "burros", criticou Maria Bethânia por não saber tocar piano e condenou Raul Seixas por trabalhar em gravadora. Em todas essas ocasiões pediu desculpas publicamente. Em maio deste ano, jogou uma cadeira no chão durante uma confusão em um restaurante no Rio de Janeiro sobre uma taxa de rolha, e foi investigado por injúria após chamar um barman de "paraíba". Novamente pediu desculpas. "Foi a coisa mais triste que já passei na vida, essa porcaria dessa cadeira que joguei no chão", diz. Ele nega ter xingado diretamente o funcionário, afirmando que as ofensas foram ditas em áudio para o dono do restaurante um ano antes, quando estava "enfurecido, louco de raiva".
Ed defende sua persona provocadora como parcialmente personagem, mas muito dele mesmo. "O humor, a acidez, o sarcasmo, o cinismo, tudo isso vem junto", explica. "Adoro que me amem, mas saber que irritei é uma delícia. Desde o colégio, sempre adorei ter metade da turma me amando e metade me odiando." Ele atribui seus gostos refinados à sua criação —seus pais eram pessoas sofisticadas que gostavam de Fellini, Buñuel e Antonioni, não assistiam novelas. Mas seu lado "leonino", que se acha genial, e seu lado "ditador", que não crê em criação coletiva na arte, vieram de outro lugar. "Godard dizia que todo artista é um ditador em potencial", diz. "A arte de verdade não é feita em conjunto."
Aos 55 anos, Ed diz estar em paz com "quase tudo que escutei de música" e se considera "menos implicante com minhas coisas". Acorda cedo, dorme cedo, bebe vinho três vezes por semana, ouve cerca de dez discos diariamente e não dirige, mas adora escutar música nos carros de aplicativo. É uma pessoa feita de contradições, e ele não apenas aceita isso como o defende. "Sem contradição, a vida não tem graça. Uma vida de coerência é uma coisa medíocre. A coerência é medíocre. Prefiro ser um incoerente. A incoerência é muito mais inteligente." Com "Toc-Toc", Ed Motta não está pedindo permissão para ser quem sempre foi. Está finalmente em paz com isso.
Notable Quotes
Falar que sou americano é uma forma de provocar. Faz parte da minha personalidade. A música brasileira mudou a forma como passei a compor.— Ed Motta
Sem contradição, a vida não tem graça. Uma vida de coerência é uma coisa medíocre. Prefiro ser um incoerente.— Ed Motta