Em meio à euforia dos mercados após o primeiro turno eleitoral, o ministro da Fazenda Dario Durigan oferece um contraponto sóbrio: a confiança depositada em promessas de corte fiscal sem detalhamento, diz ele, é uma ilusão que pode custar caro ao país real. Num momento em que números eleitorais movem taxas de juros e expectativas, Durigan convida o mercado — e o eleitor — a distinguir entre a aparência de responsabilidade fiscal e sua substância.
Durigan critica ajuste fiscal de Flávio como 'ilusão barata' e defende gestão de Lula
Você vai matar o corpo a pretexto de vender uma ilusão?
Por que Durigan chama a reação do mercado de "ilusão barata"? O que ele está vendo que o mercado não está?
Ele acredita que o mercado está reagindo positivamente a Flávio Bolsonaro sem examinar de verdade o que a proposta dele significa. A promessa de cortar R$ 200 bilhões soa bem para quem quer austeridade, mas não tem plano real de como fazer isso.
Mas espera — Durigan trabalha para Lula. Ele tem incentivo óbvio para criticar o concorrente. Como sabemos se essa análise é honesta ou apenas campanha?
É verdade, há viés. Mas ele está apontando algo verificável: ninguém conseguiu explicar como R$ 200 bilhões seriam cortados. Isso não é opinião, é fato.
E quanto ao argumento de que o governo Bolsonaro piorou a dívida? Durigan está dizendo que Lula deixou as contas melhores.
Ele atribui o aumento da dívida principalmente aos juros altos, não aos gastos. E cita medidas específicas que Lula tomou: bloqueios orçamentários, revisão de benefícios tributários.
Mas qual é a métrica real? A dívida como percentual do PIB subiu ou caiu? Durigan não dá números concretos sobre isso. Ele fala em juros, mas não quantifica.
Ele também defende o arcabouço fiscal. Isso é importante?
Muito. O arcabouço é a regra que limita o crescimento de gastos. Durigan está dizendo que Lula quer mantê-lo e melhorá-lo, enquanto Flávio quer revisar a reforma tributária — o que sugeriria menos rigor fiscal.
Novamente, atribuições. Flávio disse que quer revisar a reforma tributária? Ou Durigan está interpretando assim?
Durigan está interpretando. Mas a abertura comercial que ele cita — crescimento de exportações para UE, China, Japão, Índia — isso é verificável.
E a questão da previsibilidade? Durigan questiona se Bolsonaro pode oferecer estabilidade.
Ele está dizendo que pedir estabilidade e depois votar em Bolsonaro é contraditório. É um argumento político, mas tem lógica: a família Bolsonaro foi associada a volatilidade política.
Mas isso é especulação sobre o futuro. Ninguém sabe como um governo Flávio se comportaria. Durigan está usando o passado para prever o futuro, o que é sempre arriscado.
Il Polso
- A queda nos juros longos após o resultado do primeiro turno gerou euforia nos mercados, mas Durigan a classifica como reação emocional sem base sólida.
- A proposta de Flávio Bolsonaro de cortar R$ 200 bilhões em gastos — equivalente a toda a despesa discricionária do Executivo — ameaça programas habitacionais, política ambiental e investimentos estratégicos sem explicar como seria executada.
- O ministro rebate a narrativa de que o governo Lula é gastador, citando bloqueios orçamentários, congelamentos e revisão de benefícios tributários como evidências de contenção fiscal real.
- Durigan aponta que nenhuma agência de risco elevou a nota do Brasil durante o governo Bolsonaro, enquanto a gestão Lula acumulou upgrades — e questiona onde estaria, afinal, a credibilidade fiscal alardeada pela oposição.
- O ministro encerra desafiando a premissa central do mercado: buscar previsibilidade e estabilidade em um eventual governo da família Bolsonaro seria, segundo ele, uma incongruência histórica.
Em meio à euforia dos mercados após o primeiro turno eleitoral, o ministro da Fazenda Dario Durigan oferece um contraponto sóbrio: a confiança depositada em promessas de corte fiscal sem detalhamento, diz ele, é uma ilusão que pode custar caro ao país real. Num momento em que números eleitorais movem taxas de juros e expectativas, Durigan convida o mercado — e o eleitor — a distinguir entre a aparência de responsabilidade fiscal e sua substância.
Dario Durigan, ministro da Fazenda, foi à CNN Brasil nesta quinta-feira para contestar o que chamou de 'ilusão barata': a reação positiva dos mercados financeiros ao desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais. Para Durigan, a queda nas taxas de juros longos que se seguiu ao resultado repousa sobre fundações frágeis — e ele veio com dados para sustentá-la.
O ministro argumentou que o governo Bolsonaro não realizou nenhuma correção fiscal genuína durante seu mandato. Ao contrário, o risco-país piorou e o endividamento público cresceu entre o início e o fim daquela gestão. Em contrapartida, Durigan defendeu que ele e seu antecessor Fernando Haddad colocaram as contas em ordem, apresentando ao Congresso uma proposta orçamentária com trajetória de superávit primário para os próximos anos.
O alvo mais direto da crítica foi a proposta de Flávio Bolsonaro de cortar mais de R$ 200 bilhões em despesas públicas. Durigan a chamou de 'tiro no futuro' — uma promessa sem detalhamento de implementação que, segundo ele, nem representantes do mercado financeiro conseguiram compreender. Um corte dessa magnitude, equivalente a toda a despesa discricionária do Executivo, poderia devastar o Minha Casa, Minha Vida, o Fundo Social, a política de descarbonização e o combate ao desmatamento. 'Você vai matar o corpo a pretexto de vender uma ilusão?', questionou.
Sobre a dívida pública, o ministro atribuiu seu crescimento principalmente aos juros altos, não ao resultado primário. Citou bloqueios de R$ 20 bilhões no orçamento anterior, R$ 16 bilhões congelados no ano corrente e revisão linear de benefícios tributários como provas de contenção real. Para um eventual quarto mandato de Lula, defendeu uma abordagem equilibrada — crescimento, emprego, balança comercial e projetos estratégicos — em vez de cortes abruptos.
Ao final, Durigan virou a questão sobre o mercado: nenhuma das principais agências de classificação de risco elevou a nota do Brasil durante o governo Bolsonaro, enquanto a gestão Lula acumulou upgrades. E encerrou com uma provocação direta: 'Você vai procurar previsibilidade na família Bolsonaro?'
Dario Durigan, ministro da Fazenda, saiu em defesa da gestão econômica de Lula nesta quinta-feira (8 de outubro) com críticas contundentes ao que chamou de "ilusão barata" — a reação positiva dos mercados financeiros após o primeiro turno das eleições presidenciais. Em entrevista à CNN Brasil, o ministro questionou a euforia que tomou conta do mercado após Flávio Bolsonaro (PL) aparecer à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas apurações, particularmente a queda nas taxas de juros longos que se seguiu ao resultado.
Durigan argumentou que essa confiança do mercado repousa sobre fundações frágeis. Ele apontou que durante o governo Bolsonaro, nenhuma correção fiscal genuína foi implementada. Ao contrário, disse, o risco-país piorou e o endividamento público aumentou quando se compara o início e o fim daquele mandato. O ministro negou que o governo atual seja gastador e afirmou que ele e seu antecessor, Fernando Haddad, colocaram as contas públicas em ordem. O governo, segundo Durigan, não gastou além do que deveria.
O ponto central da crítica de Durigan recaiu sobre a proposta de Flávio Bolsonaro de um ajuste fiscal superior a R$ 200 bilhões nos gastos públicos. O ministro classificou essa medida como "um tiro no futuro" e apontou a falta de detalhamento sobre como seria implementada. Representantes do mercado financeiro com quem Durigan conversou, disse ele, não conseguiram entender como um corte dessa magnitude seria executado. Em contraposição, o ministro destacou que o governo Lula apresentou ao Congresso uma proposta orçamentária com projetos que estabelecem a trajetória de superávit primário para os próximos anos.
Durigan alertou que um corte de R$ 200 bilhões — equivalente a toda a despesa discricionária do Executivo — poderia devastar áreas estratégicas. Ele exemplificou dizendo que tal medida poderia resultar no retorno do desmatamento e comprometeria a política de descarbonização da economia. Programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, o Fundo Social e o uso de recursos do FGTS para financiamento habitacional também seriam afetados. "Você vai matar o corpo a pretexto de vender uma ilusão, uma baforada de mau hálito para o mercado financeiro?", questionou o ministro.
Sobre a evolução da dívida pública nos últimos anos, Durigan atribuiu o problema principalmente aos juros altos, não ao resultado primário. O governo Lula, segundo ele, adotou medidas de contenção de despesas, incluindo o bloqueio de R$ 20 bilhões no Orçamento do ano anterior, R$ 16 bilhões congelados no ano corrente e uma revisão de benefícios tributários com redução linear de 10%. Para um eventual quarto mandato de Lula, o ministro defendeu que o compromisso fiscal não deve se basear em cortes abruptos, mas em uma abordagem equilibrada que considere crescimento, emprego, balança comercial e projetos estratégicos.
Durigan também criticou a proposta de Flávio de revisar pontos da reforma tributária, argumentando que o modelo atual de tributação brasileira é um dos piores do mundo. Questionado sobre a defesa do arcabouço fiscal pelo PT, o ministro afirmou que o programa de governo de Lula prevê a manutenção e o aprimoramento da regra. Ele destacou ainda a política de abertura comercial do governo, citando a ampliação do acesso a mercados como União Europeia, China, Japão e Índia, com crescimento nas exportações para todos esses países.
Ao ser perguntado sobre como o governo pretende reconstruir a confiança do mercado financeiro, Durigan questionou a capacidade de um eventual governo Flávio Bolsonaro de oferecer a previsibilidade e estabilidade que o mercado demanda. Ele considerou "incongruente" associar a busca por reformas estruturais e estabilidade econômica à família Bolsonaro. "Você vai procurar previsibilidade na família Bolsonaro?", indagou. Durigan também comparou o desempenho do Brasil nas avaliações das agências internacionais de classificação de risco: nenhuma das principais agências elevou a nota de crédito durante o governo Bolsonaro, enquanto a gestão Lula obteve aumentos. O ministro ressaltou que não há risco de gestão da dívida pública brasileira, já que ela é toda doméstica, resultado de uma troca realizada no passado pelo presidente Lula.
Citazioni salienti
É uma ilusão barata, uma ilusão vazia, que está se vendendo e o mercado tem comprado isso— Dario Durigan, ministro da Fazenda, sobre a reação positiva do mercado ao resultado eleitoral
No governo Bolsonaro, não foi feita nenhuma correção de ajuste fiscal. Inclusive, o risco país piorou, o endividamento público piorou— Dario Durigan