Em meio à corrida eleitoral que se desenha no horizonte brasileiro, o ministro da Fazenda Dario Durigan assumiu o papel de principal interlocutor econômico do governo Lula contra Flávio Bolsonaro, transformando o debate fiscal em campo de disputa política. Suas críticas — que vão da desregulação financeira do governo anterior à influência da guerra no Oriente Médio sobre a inflação doméstica — revelam uma estratégia de antecipar o confronto antes mesmo que as urnas sejam abertas. É o eterno dilema das democracias: governar e, ao mesmo tempo, justificar o que foi governado.
Durigan assume papel de porta-voz de Lula em críticas à economia de Flávio
Anarquia regulatória promovida pelo governo anterior causou no país
Por que Durigan escolhe atacar Flávio justamente na economia, sendo esse um ponto fraco do próprio governo Lula?
Porque a ofensiva não é sobre defender números — é sobre deslegitimar o adversário antes que ele consiga ganhar espaço. Se Durigan conseguir convencer o eleitor de que Flávio não é confiável em fiscal, a conversa muda de lugar.
E a questão da inflação? Culpar a guerra no Irã não soa como esquiva?
Não é esquiva se for verdade. O petróleo subiu mesmo, e isso afeta preços. Mas sim, é uma forma de dizer: não é culpa nossa, é culpa do mundo lá fora — e de quem apoiou essas guerras.
Flávio realmente apoiou a guerra no Irã?
Não explicitamente. Mas Durigan está conectando bolsonarismo a uma postura pró-EUA e pró-Israel que, na sua narrativa, resulta em inflação. É uma acusação política, não uma acusação literal.
E a "anarquia regulatória" — isso é real ou também é retórica?
É real. A Operação Carbono Oculto provou que fintechs desreguladas viraram ferramenta de lavagem de dinheiro do PCC. Durigan está usando um fato concreto para construir uma narrativa maior sobre incompetência.
Qual é o risco para Durigan nessa estratégia?
Se a economia piorar antes da eleição, ele fica vulnerável. Ninguém acredita em críticas ao adversário quando seus próprios números estão ruins. A dívida em 81,9% do PIB é um problema que nenhuma retórica resolve.
O Pulso
- Durigan descartou como 'balela' a proposta de Flávio Bolsonaro de criar um conselho fiscal, questionando a credibilidade do senador em falar de responsabilidade enquanto o bolsonarismo, segundo ele, ataca outros Poderes diariamente.
- O ministro vincula a inflação de 4,44% acumulada nos últimos doze meses à guerra entre EUA, Israel e Irã — apoiada pelo bolsonarismo, em sua avaliação —, citando a disparada do barril de petróleo de 70 para 120 dólares como vetor de contaminação dos preços.
- A crítica mais grave recai sobre o que Durigan chama de 'anarquia regulatória' do governo Bolsonaro: a desregulação de fintechs e empresas de apostas que, segundo ele, abriu caminho para esquemas bilionários de lavagem de dinheiro como o investigado na Operação Carbono Oculto.
- O cenário fiscal permanece tenso dos dois lados: a dívida bruta chegou a 81,9% do PIB, o déficit de 2025 foi de 61,7 bilhões de reais, e a meta de superávit para 2026 exige um ajuste que nenhum dos candidatos explicou com clareza como pretende alcançar.
Em meio à corrida eleitoral que se desenha no horizonte brasileiro, o ministro da Fazenda Dario Durigan assumiu o papel de principal interlocutor econômico do governo Lula contra Flávio Bolsonaro, transformando o debate fiscal em campo de disputa política. Suas críticas — que vão da desregulação financeira do governo anterior à influência da guerra no Oriente Médio sobre a inflação doméstica — revelam uma estratégia de antecipar o confronto antes mesmo que as urnas sejam abertas. É o eterno dilema das democracias: governar e, ao mesmo tempo, justificar o que foi governado.
Dario Durigan, que assumiu o Ministério da Fazenda em março após Fernando Haddad deixar o cargo para disputar o governo de São Paulo, tornou-se nas últimas semanas o principal porta-voz econômico do governo Lula contra Flávio Bolsonaro. Em entrevista à Rádio CBN, o ministro chamou de 'balela' a ideia da equipe do senador de criar um conselho fiscal para controle de gastos — proposta que, segundo ele, sequer consta documentada no plano de governo do candidato do PL. A ofensiva ganha peso justamente porque o controle de despesas é um dos pontos mais vulneráveis do atual governo.
Durigan foi além e atribuiu parte da inflação acumulada de 4,44% nos últimos doze meses não aos gastos do governo Lula, mas à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã — conflito que, em sua avaliação, conta com o apoio do bolsonarismo. O argumento passa pelo petróleo: o barril brent saiu de cerca de 70 dólares em fevereiro para 120 dólares durante os ataques, sendo negociado a 94,17 dólares no dia da entrevista. Essa volatilidade se espalha pelo custo de produtos em toda a economia.
A crítica mais estruturada do ministro, porém, mira o que ele chama de 'anarquia regulatória' do governo anterior. Em entrevista à Rádio Metrópole da Bahia, Durigan apontou a desregulação de fintechs e empresas de apostas como terreno fértil para esquemas criminosos, citando o caso do Banco Master e da Reag na Operação Carbono Oculto — investigação que desarticulou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal ligado ao PCC e operado por meio de fintechs.
Essas intervenções refletem uma estratégia deliberada do governo de antecipar o debate econômico antes da campanha formal. O problema é que o cenário fiscal pressiona os dois lados: a dívida bruta atingiu 81,9% do PIB, o déficit de 2025 chegou a 61,7 bilhões de reais, e a meta de superávit para este ano exige um resultado que ainda está longe de ser garantido. Tanto Durigan quanto Flávio Bolsonaro terão de explicar, mais cedo ou mais tarde, como pretendem lidar com números que não escolhem lado político.
Dario Durigan, ministro da Fazenda, tem se transformado em porta-voz econômico de Lula contra Flávio Bolsonaro nas últimas semanas, lançando críticas que vão desde propostas de política fiscal até a herança regulatória do governo anterior. Na quinta-feira passada, em entrevista à Rádio CBN, Durigan descartou como "balela" uma ideia da equipe econômica de Flávio para criar um conselho fiscal de controle de gastos públicos — uma proposta que sequer consta documentada no plano de governo do senador e candidato presidencial pelo PL.
A ofensiva de Durigan ganha força num momento em que o controle de despesas públicas é um dos pontos mais vulneráveis do governo Lula. O ministro questionou a credibilidade de Flávio em falar de responsabilidade fiscal enquanto a família Bolsonaro, em sua avaliação, mantém uma postura de desrespeito institucional aos outros Poderes. "Como que se propõe isso, se no fundo a gente está vendo todo dia ataque aos outros Poderes, desrespeito institucional?", indagou durante a entrevista, sem citar nominalmente o candidato da oposição.
Na sequência, Durigan ampliou o escopo de suas críticas para incluir a inflação acumulada de 4,44% nos últimos doze meses. O ministro atribuiu parte dessa pressão inflacionária não aos gastos do governo atual, mas à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã — um conflito que, em sua visão, recebe apoio do bolsonarismo. A conexão passa pelo preço do petróleo: quando começou em fevereiro deste ano, o barril brent oscilava perto de 70 dólares; durante os ataques, chegou a 120 dólares. No dia da entrevista, era negociado a 94,17 dólares. Essa volatilidade nos preços do combustível contamina o custo de diversos produtos na economia.
Durigan, que assumiu o Ministério da Fazenda em março após Fernando Haddad deixar o cargo para se candidatar ao governo de São Paulo, é visto no mercado e no Congresso como um nome de continuidade. Formado em direito pela USP com mestrado pela UnB, ele é servidor de carreira da Advocacia-Geral da União e acumulou experiência em formulação de políticas públicas e articulação jurídica de projetos econômicos. Antes de chegar ao topo da pasta, foi secretário-executivo — o número dois da Fazenda.
A crítica mais estruturada de Durigan, porém, recai sobre o que ele chama de "anarquia regulatória" durante o governo Bolsonaro. Em entrevista à Rádio Metrópole da Bahia, o ministro apontou a desregulação de fintechs e empresas de apostas como exemplos dessa falta de controle, ligando-a diretamente a esquemas criminosos. Mencionou especificamente o caso do Banco Master e da Reag, envolvidos na Operação Carbono Oculto — deflagrada em agosto do ano passado pela Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal para desarticular um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal do Primeiro Comando da Capital que operava através de fintechs.
Essas intervenções públicas de Durigan refletem uma estratégia mais ampla do governo Lula de antecipar o debate econômico em relação à campanha de Flávio. Enquanto o ministro defende o legado econômico do mandato atual e sinaliza os rumos de um possível quarto mandato lulista a partir do próximo ano, o cenário fiscal permanece desafiador: a dívida bruta do país atingiu 81,9% do PIB, e o país acumula déficits primários. Para 2025, o déficit foi de 61,7 bilhões de reais. A meta fiscal para este ano é de superávit de 0,25% do PIB — o equivalente a 34,2 bilhões de reais — com uma margem de tolerância que permite até equilíbrio fiscal. A disputa econômica entre os dois lados da política brasileira, portanto, ocorre num contexto em que ambos os candidatos terão de explicar como pretendem lidar com números que continuam a pressionar as contas públicas.
Citações Notáveis
Como que se propõe isso, se no fundo a gente está vendo todo dia ataque aos outros Poderes, desrespeito institucional? Isso é balela, isso não é crível— Dario Durigan, ministro da Fazenda, em entrevista à Rádio CBN
A gente olha a situação de fintech, a situação da desregulação que foi feita, e depois a gente vê o que acontece com Banco Master, com Reag, dentro da Operação Carbono Oculto, a gente vê o quanto essa anarquia regulatória promovida pelo governo anterior e Banco Central anterior causou no país— Dario Durigan, em entrevista à Rádio Metrópole da Bahia