Do Emmy ao iPhone: testamos o Modo IA do Google e entendemos por que a Web está em alerta

A resposta aparece pronta, mas você não sabe exatamente por quê
O Modo IA sintetiza informações de múltiplos sites, mas não oferece transparência total sobre suas fontes e critérios de seleção.
Mark

Por que o Google está fazendo isso agora? Não era mais lucrativo manter as pessoas clicando em links?

Mimi

O Google está respondendo a uma ameaça real. ChatGPT e outras IAs começaram a oferecer respostas diretas sem passar por links. Se as pessoas migrarem para essas ferramentas, o Google perde relevância. Então ele está tentando oferecer o mesmo serviço, mas mantendo o controle.

Mark

Mas nos testes, o Modo IA errou bastante. Como isso é competitivo?

Mimi

É verdade. Errou em recomendações locais, sugeriu um café fora de São Paulo. Mas em comparações de produtos e buscas factuais funcionou bem. A tecnologia ainda está aprendendo. O que importa é que o Google está apostando que vai melhorar rápido.

Mark

E os sites? Como eles se sentem com isso?

Mimi

Assustados. Se as pessoas param de clicar em links porque já têm a resposta dentro do Google, os sites perdem tráfego. E sem tráfego, não há publicidade, não há receita. É um modelo de negócio que pode desaparecer.

Mark

O Google diz que gera "cliques de qualidade". Isso é verdade?

Mimi

Ninguém sabe ao certo. O Google nega que haja queda de tráfego, mas pesquisas independentes sugerem o contrário. É uma questão em aberto. O que sabemos é que quando um resumo de IA aparece no topo, as pessoas clicam menos nos links abaixo.

Mark

Então a web está realmente em perigo?

Mimi

Não em perigo imediato. Mas em transição. O modelo que funcionou por 25 anos — ranquear sites por relevância — está sendo substituído por um modelo onde a IA sintetiza a informação. Quem se adaptar sobrevive. Quem não se adaptar desaparece.

Mark

E a transparência? O usuário sabe de onde vem a informação?

Mimi

Nem sempre. O Modo IA promete mostrar os links, mas nos testes nem sempre fez isso de forma clara. E mesmo quando mostra, o usuário não entende por que aquele site foi escolhido em vez de outro. Há menos controle, menos clareza.

  • Modo IA liberado em 180 países, incluindo Brasil, na semana de 16 de setembro de 2025
  • Sistema consulta múltiplos sites simultaneamente usando método chamado query fan-out
  • 2 bilhões de usuários mensais recebem resumos de IA no topo das buscas do Google
  • Testes mostraram acertos em Emmy e comparações de iPhone, mas falhas em recomendações locais

O Modo IA funciona como conversa similar ao ChatGPT, quebrando perguntas em subtópicos e consultando múltiplos sites simultaneamente para gerar respostas resumidas. Testes mostram resultados variáveis: acertos em buscas de Emmy e comparações de iPhone, mas falhas em recomendações locais e precisão de endereços.

Google liberou o Modo IA no Brasil, combinando inteligência artificial com seu sistema de buscas. O recurso promete respostas mais diretas para consultas complexas, mas gera preocupações sobre transparência e impacto no tráfego de sites.

O Google acaba de liberar uma nova aba em seu buscador. Fica ali, bem visível, ao lado das opções de imagens e notícias. Chama-se Modo IA. A partir da semana passada, usuários em 180 países, incluindo o Brasil, começaram a notar essa mudança. Não é apenas mais um recurso dentro da plataforma mais usada do planeta para buscar informação. É o sinal mais claro até agora de que o Google está disposto a se reinventar diante da ascensão das ferramentas de inteligência artificial — e possivelmente redefinir como as pessoas procuram por respostas na web.

O Modo IA funciona como uma conversa, parecido com o ChatGPT. Quando você faz uma pergunta, o sistema não entrega apenas uma lista de links. Em vez disso, ele quebra sua questão em subtópicos e faz dezenas de consultas simultâneas em diferentes sites. Depois, sintetiza tudo em uma resposta pronta, em linguagem natural. A interface mostra parte do processo: "pensando", "iniciando dez pesquisas", "analisando x sites". Você vê os links de onde as informações vieram, embora nem sempre de forma tão clara quanto o Google promete. O recurso funciona com texto, imagem e voz. Segundo a empresa, é especialmente útil para buscas que exigiriam múltiplas consultas seguidas ou comparações complexas.

Executivos do Google já sugeriram que esse modo poderia substituir o sistema atual de busca. Um gerente de produto respondeu em rede social que o formato será o padrão "em breve". Oficialmente, a empresa diz que pretende "incorporar recursos e funcionalidades do Modo IA à experiência principal de busca". Essa expansão acontece em um momento delicado. No início de setembro, em um processo antimonopólio nos EUA, a Justiça considerou que ferramentas de IA finalmente representam alguma concorrência real para o Google. A decisão poupou a empresa de medidas mais severas, como a venda do navegador Chrome.

Para entender como funciona na prática, testamos o Modo IA em três tarefas diferentes. Na primeira, pedimos uma lista dos mais premiados no Emmy 2025, com sinopse e onde assistir. O Modo IA consultou 14 sites e trouxe uma lista correta, com os três títulos mais consagrados. Mas não vinculou cada informação ao seu link de origem, como promete. Quando pedimos para verificar novamente, a IA mudou a ordem dos vencedores e só então forneceu os links. Na segunda tarefa, solicitamos sugestões de cafés no bairro da Santa Cecília, em São Paulo, abertos até as 18h e que aceitassem cachorros. Das três sugestões, apenas duas atenderam aos critérios. Uma delas nem ficava em São Paulo, mas em uma cidade a mais de uma hora de distância. Só na segunda tentativa a IA acertou. Na terceira, pedimos as melhores ofertas de iPhone em sites de e-commerce que entregam em São Paulo, com uma tabela comparativa de prós e contras. Aqui o resultado foi rápido e útil.

Fernando Ferreira, doutor em inteligência computacional pela UFRJ e pesquisador do Netlab, explica o que acontece por trás: o sistema "lê" os resultados da busca e, em vez de listar páginas, cria um resumo em linguagem natural. As vantagens são claras — respostas mais diretas para questões complexas, economia de tempo. Mas há problemas. "Um problema direto é a falta de transparência: o usuário não sabe exatamente quais fontes foram usadas nem por que elas apareceram no resultado. Isso significa menos controle sobre a origem da informação", diz Ferreira. Ele também aponta o risco de "alucinações" — quando a IA inventa informações. Nos testes, a IA não "alucinou" quando questionada sobre absurdos, como dieta de pedras ou receita de cola na pizza.

Mas a preocupação real não é sobre alucinações ocasionais. É sobre o futuro da web. Durante duas décadas e meia, o Google rastreou a internet e entregou listas de links ranqueados por relevância. Esse sistema transformou a empresa em verbo. Hoje, 2 bilhões de usuários mensais recebem respostas com resumos de IA no topo da busca. Pesquisas já mostram que quando esses resumos aparecem, as pessoas clicam menos nos primeiros links abaixo deles. A preocupação é que o formato de conversa concentre toda a interação dentro do Google e das plataformas de IA, reduzindo o acesso direto a sites. "A busca por termos e respostas em links sempre gerou um mercado baseado em venda e ranqueamento de acordo com o grau de relevância. O próprio Google monetiza a partir do clique nos resultados de busca", lembra Ferreira. Sempre que questionado sobre isso, o Google nega prejuízos aos sites e afirma que essas buscas geram "cliques de qualidade". Mas a web está em alerta. O que antes era uma jornada do usuário até um site agora pode terminar dentro do Google.

Um problema direto é a falta de transparência: o usuário não sabe exatamente quais fontes foram usadas nem por que elas apareceram no resultado
— Fernando Ferreira, pesquisador do Netlab e doutor em inteligência computacional
A busca por termos e respostas em links sempre gerou um mercado baseado em venda e ranqueamento de acordo com o grau de relevância. O próprio Google monetiza a partir do clique nos resultados de busca
— Fernando Ferreira, pesquisador do Netlab
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