Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026, Donald Trump dobrou o espaço dedicado à América Latina em seu discurso — e o Brasil, ausente pelo nome, esteve presente em cada palavra. Ao invocar a captura de Maduro como prova da disposição americana de usar força militar na região, e ao classificar organizações criminosas brasileiras como narcoterroristas, Washington sinalizou preferências sobre um processo eleitoral que analistas consideram o mais decisivo para o continente em anos. É o velho drama das nações que habitam a sombra de uma potência: a soberania não se declara apenas
Discurso de Trump na ONU amplia pressão sobre América Latina às vésperas das eleições brasileiras
O Brasil não cabe no quintal de ninguém
Por que especialistas acreditam que Trump estava falando sobre o Brasil quando nem mencionou o país?
Porque a sequência de ações foi muito clara. Trump classificou o PCC e o CV como terroristas em maio, meses antes do discurso. Depois, na ONU, enfatizou crime organizado como ameaça existencial. Para quem acompanha a política brasileira, era impossível não ver a conexão.
Mas isso é interpretação, certo? Trump poderia estar genuinamente focado em crime organizado regional sem pensar especificamente no Brasil.
Verdade. Mas os diplomatas brasileiros ouvidos pela reportagem — em caráter reservado — viram ali um padrão. E o Rubio já havia dito publicamente que o Brasil não era "amigável" aos EUA.
E por que a mudança de foco? Por que Trump falou mais sobre América Latina em 2026 do que em 2025?
Pelo menos três razões segundo um diplomata. Primeira: a guerra tarifária com a China não está indo bem para Trump, então mencionar a China depois de derrotas não é prudente. Segunda: Rubio quer espaço para sua agenda latino-americana porque pode ser sucessor de Trump em 2028. Terceira: eleições parlamentares de meio de mandato nos EUA em dois meses — Trump quer mostrar à base republicana que está cumprindo promessas.
Essas são estimativas de um diplomata. Quantos diplomatas foram ouvidos? Três, segundo a reportagem. Isso é padrão ou consenso?
Três diplomatas brasileiros em caráter reservado, mais uma professora de relações internacionais. Não é um consenso universal, mas é um padrão de interpretação entre pessoas que trabalham com isso.
E Lula, como respondeu?
De forma direta. Na ONU, rejeitou a ideia de que o Brasil fosse "quintal" de ninguém. Uma semana antes, citou Trump nominalmente e disse que não aceitaria interferência nas eleições brasileiras.
Lula estava respondendo a algo que Trump não disse explicitamente. Como sabemos que Lula não estava apenas sendo defensivo?
Porque a Agência Brasileira de Inteligência havia elaborado um relatório sobre aumento de pressão dos EUA no processo eleitoral. Não era paranoia — havia documentação interna.
Então o Brasil realmente acredita que os EUA querem Bolsonaro no poder?
Auxiliares de Lula acreditam que Washington gostaria de ver alguém mais amistoso ao governo Trump. Flávio Bolsonaro é visto como essa opção. Mas isso é avaliação política, não fato comprovado.
Le Pouls
- Trump duplicou as menções à América Latina em seu discurso na ONU — de 6% para 13% — transformando a região em prioridade estratégica declarada às vésperas das eleições brasileiras.
- A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, atendendo a um pleito de Flávio Bolsonaro, é lida por diplomatas como pressão indireta contra o governo Lula.
- O secretário de Estado Marco Rubio colocou o Brasil no mesmo grupo de Cuba, Nicarágua e Venezuela ao listar nações 'não amigáveis' — um sinal de que o distanciamento entre Brasília e Washington é oficial.
- Lula respondeu na ONU e no Paraná com linguagem direta: 'O Brasil não cabe no quintal de ninguém' e 'não se meta na eleição do Brasil' — transformando a tensão diplomática em discurso eleitoral.
- A Agência Brasileira de Inteligência elaborou relatório sobre aumento da pressão americana no processo eleitoral, enquanto o Departamento de Estado criticou publicamente o Brasil por falhas no combate ao crime organizado.
Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026, Donald Trump dobrou o espaço dedicado à América Latina em seu discurso — e o Brasil, ausente pelo nome, esteve presente em cada palavra. Ao invocar a captura de Maduro como prova da disposição americana de usar força militar na região, e ao classificar organizações criminosas brasileiras como narcoterroristas, Washington sinalizou preferências sobre um processo eleitoral que analistas consideram o mais decisivo para o continente em anos. É o velho drama das nações que habitam a sombra de uma potência: a soberania não se declara apenas em constituições, mas se defende, palavra por palavra, nos palcos onde o poder se encena.
Donald Trump subiu ao púlpito da ONU em setembro de 2026 e dedicou uma fatia crescente de seu discurso à América Latina — passando de 6% para 13% das menções em relação ao ano anterior. Para especialistas consultados pela BBC News Brasil, o recado era direcionado ao Brasil, mesmo sem citá-lo pelo nome.
Trump evocou a captura de Nicolás Maduro na Venezuela como prova de que os EUA não tolerariam mais ameaças ao hemisfério. Prometeu usar 'todo o poderio militar inigualável' americano se necessário. Citou cartéis mexicanos e o Tren de Arágua venezuelano — mas o Brasil estava ali de forma invisível, porque em maio o governo Trump havia classificado o PCC e o Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, contrariando Lula e atendendo a um pleito de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência visto em Washington como mais alinhado aos interesses americanos.
Diplomatas brasileiros ouvidos em caráter reservado identificaram dois recados centrais: o primeiro, dirigido à região, sinalizava que aliados tradicionais como China e Rússia não teriam como conter o avanço americano — a inação de Moscou e Pequim diante da queda de Maduro havia deixado essa lição clara. O segundo era voltado à base eleitoral republicana nos EUA, a pouco mais de dois meses das eleições de meio de mandato.
A percepção de desalinhamento já havia sido verbalizada pelo secretário de Estado Marco Rubio, que incluiu o Brasil em um grupo de nações 'não amigáveis' ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Um relatório do Departamento de Estado criticou o Brasil por supostas falhas no combate ao crime organizado, e a inteligência brasileira registrou aumento da pressão americana sobre o processo eleitoral.
Lula respondeu com firmeza. Na ONU, rejeitou a ideia de que a América Latina pudesse ser tratada como 'quintal' de qualquer potência. No Paraná, foi mais direto ainda, citando Trump pelo nome: 'Não se meta na eleição do Brasil. Esse país não é um vira-lata e nem uma republiqueta de banana.' A tensão diplomática havia se convertido em combustível eleitoral — e o mundo assistia.
Donald Trump subiu ao púlpito da Assembleia Geral da ONU em setembro de 2026 e dedicou uma fatia crescente de seu discurso à América Latina — passando de 6% das menções em 2025 para 13% em 2026. O que disse ali, segundo especialistas consultados pela BBC News Brasil, não era apenas retórica regional genérica. Era um recado direto ao Brasil, mesmo que o país não tivesse sido mencionado pelo nome.
Trump falou sobre a captura de Nicolás Maduro na Venezuela em janeiro daquele ano como prova de que os Estados Unidos não tolerariam mais ameaças ao hemisfério ocidental. "Ao vencedor, o espólio", disse ele, antes de deixar claro: se necessário, usaria "todo o nosso poderio militar inigualável" para assegurar os interesses vitais americanos. Mencionou nominalmente os cartéis de drogas mexicanos e o Tren de Arágua da Venezuela. Mas o Brasil estava ali, invisível e presente, porque em maio daquele ano o governo Trump havia classificado o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas — uma decisão que contrariava o governo Lula e atendia a um pleito específico do senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência e visto em Washington como mais alinhado aos interesses americanos.
Carol Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, e três diplomatas brasileiros ouvidos em caráter reservado pela reportagem avaliaram que o foco de Trump sobre crime organizado na região colocava o Brasil na berlinda. A classificação do PCC e CV como terroristas era, na verdade, uma forma indireta de endereçar ao Brasil um tema que poderia ser mobilizado na reta final das eleições contra Lula, favorecendo Bolsonaro. Um auxiliar do presidente Lula tentou minimizar as menções, dizendo que Trump apenas repetia retórica sobre o chamado Escudo das Américas — uma aliança de 15 países liderada pelos EUA e composta por nações latino-americanas e caribenhas governadas por líderes de direita e centro-direita. O Brasil não fazia parte dessa aliança.
Um diplomata brasileiro identificou dois recados principais que Trump havia enviado à região. O primeiro: os EUA pretendiam ampliar sua influência na América Latina, e aliados tradicionais de países não alinhados, como China e Rússia, não teriam condições de impedir esse avanço. A ação militar que tirou Maduro do poder e não foi respondida economicamente ou militarmente pelos governos russo e chinês havia deixado essa lição clara. O segundo recado era endereçado à base eleitoral republicana nos EUA, indicando que Trump estava cumprindo sua promessa de aumentar a força americana na região — tudo isso acontecendo a pouco mais de dois meses das eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos.
A percepção de que o Brasil não era um país alinhado aos EUA havia sido expressa publicamente pelo secretário de Estado Marco Rubio em junho daquele ano, quando incluiu o Brasil em um grupo de nações não "amigáveis" aos Estados Unidos que incluía Cuba, Nicarágua e Venezuela. Rubio, descendente de cubanos e com uma carreira política marcada pelo foco na América Latina, era visto como um dos possíveis sucessores de Trump nas eleições de 2028. A ênfase dada por Trump à atuação de Rubio na questão cubana — país que vivia sob embargo comercial desde os anos 1960 e havia tido seu acesso a combustíveis ainda mais restringido nos últimos dois anos — sinalizava que a agenda latino-americana era prioridade estratégica do governo.
Lula respondeu na ONU com um discurso que contrastava frontalmente com o tom de Trump. Rejeitou a ideia de que a América Latina pudesse ser vista como um "quintal" dos Estados Unidos. "Na América Latina e no Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo no contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse o presidente. Criticou também o que chamou de tentativas de interferência estrangeira em eleições na região e gestos "anacrônicos" de divisão do mundo em zonas de influência. Uma semana antes, em discurso no Paraná, Lula havia sido ainda mais direto, citando Trump nominalmente: "O Trump sabe que eu já falei para ele: não se meta na eleição do Brasil. Esse país não é um vira-lata e nem uma republiqueta de banana. Esse país tem 215 milhões de homens e mulheres que têm orgulho."
Essas falas ecoavam uma preocupação que circulava entre auxiliares de Lula de que os EUA estariam tentando influenciar os rumos das eleições brasileiras para favorecer Flávio Bolsonaro, visto como mais alinhado a Trump. Um relatório do Departamento de Estado publicado na semana anterior havia criticado o Brasil por supostamente ter falhado no combate ao crescimento do crime organizado. A Agência Brasileira de Inteligência havia elaborado um relatório citando um aumento da pressão dos EUA sobre o processo eleitoral brasileiro. O contexto era claro: a eleição brasileira era vista por analistas como a mais decisiva para o futuro da região nos últimos anos, e Washington havia deixado evidente que tinha preferências sobre seu resultado.
Citations marquantes
Ao vencedor, o espólio. Os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos.— Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU
Na América Latina e no Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável. O Brasil não cabe no quintal de ninguém.— Luiz Inácio Lula da Silva, na ONU