Dino proíbe Tesouro de reter taxa da CVM e cobra plano de reestruturação em 20 dias

Fraudes no mercado de capitais prejudicam investidores e poupadores; caso Master ilustra riscos de supervisão inadequada.
Recursos arrecadados sistematicamente apropriados pelo Tesouro
Descrição do desvio de finalidade que levou Dino a proibir a retenção da taxa de fiscalização da CVM.
Mark

Por que o Tesouro estava retendo essa taxa? Parecia uma prática estabelecida.

Mimi

Era. A lei que alterou o cálculo da taxa permitiu que o Tesouro desvinculasse esses recursos — é uma prática comum no governo, redirecionar receitas. Mas Dino argumentou que isso desviava a finalidade da taxa, que deveria bancar a CVM.

Luke

Espera — o Novo diz que a CVM arrecadou 2,4 bilhões e recebeu 670 milhões. Mas quanto disso era realmente apropriado pelo Tesouro versus quanto era desvinculação legal? A decisão de Dino assume que toda a diferença é confiscatória.

Mimi

É uma questão de interpretação constitucional. Dino entendeu que uma taxa deve financiar a atividade que a origina. Se você cobra do mercado para fiscalizar o mercado, aquele dinheiro deveria voltar para fiscalização.

Mark

E por que a CVM está com apenas dois conselheiros? Isso é negligência?

Mimi

Há um impasse político sobre quem vai presidir. Otto Lobo foi indicado, mas o mercado o rejeita. A sabatina no Senado não foi marcada. Enquanto isso, as vagas ficam vazias.

Luke

Mas a decisão de Dino dá 20 dias para explicar a falta de conselheiros e 90 dias para um plano de médio prazo. Esses prazos são realistas? O governo consegue preencher cinco cadeiras em 20 dias?

Mimi

Provavelmente não. O que Dino está pedindo é que o governo reconheça o problema e apresente um caminho. Os 20 dias são para explicação e plano emergencial, não para resolver tudo.

Mark

E se o governo não cumprir?

Mimi

A decisão ainda vai ao plenário do Supremo. Se confirmada, o não cumprimento seria desobediência a uma ordem judicial.

Luke

Um detalhe — a CVM não julgou nenhum processo em 2026. Nenhum. Isso é verificado ou é o que o superintendente disse?

Mimi

Foi o que Daniel Valadão afirmou em audiência. É a informação oficial que temos.

Mark

E o caso Master? Quanto tempo a CVM sabia e não agiu?

Mimi

Desde antes de 2022, segundo João Accioly, presidente interino da CVM. Ele disse que as apurações poderiam ter sido mais rápidas se não houvesse acúmulo de processos por pessoa.

  • CVM opera com apenas 2 de 5 conselheiros preenchidos
  • De 2022 a 2024, CVM arrecadou R$ 2,4 bilhões em taxas, recebeu R$ 670 milhões em orçamento
  • Nenhum processo foi julgado pela CVM em 2026
  • Governo tem 20 dias para explicar e apresentar plano emergencial
  • Multas aplicadas caíram de mais de R$ 1 bilhão em 2024 para R$ 511 milhões em 2025

CVM opera com apenas 40% de seus conselheiros, prejudicando julgamentos e deixando mercado vulnerável a fraudes como o caso Master. De 2022 a 2024, CVM arrecadou R$ 2,4 bilhões em taxas, mas recebeu apenas R$ 670 milhões em orçamento, caracterizando apropriação sistemática pelo Tesouro.

Ministro Flávio Dino proibiu o Tesouro de reter taxa de fiscalização da CVM e exigiu plano emergencial de reestruturação em 20 dias, após autarquia operar com apenas 2 de 5 conselheiros.

Na terça-feira, o ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão que coloca em xeque anos de prática orçamentária: proibiu o Tesouro Nacional de continuar retendo a taxa de fiscalização que o mercado de valores mobiliários paga à Comissão de Valores Mobiliários. A ordem vem acompanhada de um ultimato ao governo Lula: apresentar um plano emergencial de reestruturação da autarquia e explicar, em até 20 dias, por que o colegiado da CVM está tão esvaziado.

O cenário que levou a essa intervenção é preocupante. Apenas duas das cinco cadeiras do conselho da CVM estão ocupadas. Isso significa que a comissão responsável por fiscalizar todo o mercado de capitais brasileiro está operando com 40% de sua capacidade de julgamento. Durante uma audiência no Supremo, o superintendente Daniel Valadão confirmou que nenhum processo foi julgado pela autarquia em 2026. A produtividade desabou. E enquanto isso, o mercado fica exposto — particularmente vulnerável a esquemas como o do Banco Master, que a própria CVM admitiu ter detectado sinais de irregularidades desde antes de 2022, mas não conseguiu agir com rapidez.

O que disparou essa ação judicial foi uma reclamação do partido Novo, que apontou um descompasso gritante nos números. Entre 2022 e 2024, a CVM arrecadou aproximadamente 2,4 bilhões de reais em taxas de fiscalização. Desse total, 2,1 bilhões vieram especificamente das taxas cobradas dos agentes do mercado. Mas o orçamento que a autarquia recebeu para funcionar foi de apenas 670 milhões — menos de um terço do que foi arrecadado. O Tesouro ficou com a diferença. Dino descreveu isso como um desvio de finalidade: recursos que deveriam bancar as operações da CVM foram sistematicamente apropriados pelo governo.

O ministro não apenas bloqueou essa retenção. Ele também exigiu que o governo apresente um plano emergencial com medidas concretas para este ano: mutirões de julgamento, fiscalizações extraordinárias, gratificações temporárias para servidores, aproveitamento de aprovados no Concurso Nacional Unificado e julgamentos em horas extras. O documento deve detalhar metas, investimentos, ações e resultados esperados, organizados em quatro eixos — atuação repressiva acelerada, recomposição de pessoal e tecnologia, inteligência financeira e supervisão preventiva.

Para o médio prazo, o governo tem 90 dias para apresentar um planejamento que resolva cinco problemas estruturais que a CVM identificou: eliminar gargalos na fiscalização do mercado, eliminar gargalos na gestão interna, ampliar prevenção de fraudes com tecnologia, reduzir a evasão de servidores e revisar a remuneração. Esse último ponto é crítico — a CVM hoje tem 482 servidores, 7% a menos do que em 2015, e mais de 130 cargos vagos. Servidores saem porque ganham pouco.

Por trás dessa crise institucional há também um impasse político. Há uma disputa sobre quem vai presidir a CVM. Lula sinalizou a aliados que pode rever a indicação de Otto Lobo, um advogado que o mercado financeiro considera tecnicamente inadequado para o cargo. Lobo ainda precisa passar por sabatina no Senado, mas essa sabatina sequer foi marcada pelo presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, Renan Calheiros.

Os números de 2025 ilustram o custo dessa paralisia. A CVM sancionou 65 pessoas e absolveu 67 em processos disciplinares — bem abaixo dos 176 sancionados e 150 absolvidos em 2024. As multas aplicadas caíram de mais de um bilhão de reais para 511 milhões. O estoque de processos aguardando julgamento cresceu. Enquanto isso, o mercado de capitais fica exposto a riscos crescentes, particularmente à atuação de organizações criminosas que, segundo Dino, têm sofisticado suas operações para infiltrar-se em ambientes regulados.

A decisão de Dino ainda será analisada pelo plenário do Supremo, onde os demais ministros votarão. Mas o sinal está dado: a CVM não pode continuar funcionando como está, e o Tesouro não pode mais reter recursos que foram arrecadados especificamente para que a autarquia cumpra sua missão.

A autarquia sabia de possíveis irregularidades do Banco Master desde antes de 2022 e as apurações poderiam ter sido mais rápidas se não houvesse acúmulo de processos por pessoa
— João Accioly, presidente interino da CVM
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