Desemprego em massa força jovens chineses a reinventar carreiras

Milhões de jovens chineses enfrentam desemprego prolongado, com impacto psicológico e social documentado através de partilhas online sobre isolamento e culpa internalizada.
Estava a fazer o trabalho de três pessoas por 762 euros
Anna Wang explica por que deixou um emprego num banco estatal chinês apesar da pressão económica.
Mark

O que torna esta crise diferente de outras recessões económicas que a China enfrentou?

Mimi

A rejeição deliberada. Jovens com diplomas universitários estão a escolher desemprego em vez de aceitar empregos com horas extraordinárias não remuneradas e salários que não correspondem às suas qualificações. Isto não é apenas falta de oportunidades — é uma recusa consciente.

Luke

Mas quantos estamos a falar? Os números de desemprego juvenil foram suspensos. O 17,1% em Julho é apenas para zonas urbanas e exclui estudantes. Não sabemos realmente a escala completa.

Mark

He Ajun transformou o desemprego numa carreira. Isso é uma solução ou um sintoma?

Mimi

É ambos. Ela ganhou agência numa situação sem controlo — 632 euros por mês através de vídeos e consultoria. Mas o facto de isto ser notável mostra como a maioria não tem essa opção.

Luke

E quanto tempo isto é sustentável? 8400 seguidores gerando 632 euros mensais é um modelo que funciona para alguns, mas não escala para 11,79 milhões de licenciados.

Mark

O governo está a tentar resolver isto?

Mimi

Está a tentar, mas de forma contraditória. Quer "novas forças produtivas" em IA e robótica, mas deixa para trás uma geração qualificada que não consegue requalificar-se. E até o sector público — historicamente um emprego vitalício — está a fazer despedimentos.

Luke

O ministro dos Recursos Humanos disse que há escassez de soldadores e talentos digitais. Isso sugere que o problema não é falta de empregos, mas desajuste entre qualificações e oportunidades.

Mark

As pessoas estão a falar sobre isto online?

Mimi

Massivamente. 2,1 mil milhões de visualizações em hashtags sobre desemprego. Estão a reduzir o estigma, a conectar-se, a partilhar estratégias de sobrevivência.

Luke

Mas um sociólogo da Colúmbia nota que isto também pode ser uma forma de internalizar a culpa em vez de questionar o sistema. Estão a "ficar deitados" — a aceitar a situação em vez de a contestar.

Mark

Qual é o custo real disto?

Mimi

Um economista chinês alertou que 48 milhões de estudantes universitários podem ter salários iniciais baixos e contribuir pouco para impostos ao longo da vida. É desperdício de capital humano numa escala geracional.

Luke

Mas isso é uma projecção. O que sabemos com certeza é que 25% dos licenciados entre 23 e 35 anos estão em postos abaixo das suas qualificações. Isso é verificado.

  • 11,79 milhões de licenciados enfrentam desemprego em 2024, número recorde
  • Desemprego juvenil urbano atingiu 17,1% em Julho; máximo histórico de 21,3% em Junho de 2023
  • 25% dos licenciados entre 23 e 35 anos ocupam postos abaixo das suas qualificações
  • 2,1 mil milhões de visualizações em hashtags sobre desemprego na rede social Xiaohongshu

Recém-licenciados chineses rejeitam empregos com longas horas não remuneradas e salários baixos, optando pelo desemprego ou trabalho freelancer. O desemprego juvenil urbano atingiu 17,1% em Julho, com despedimentos generalizados em sectores financeiro, tecnológico e até no sector público.

A China enfrenta uma crise de desemprego juvenil sem precedentes, com 11,79 milhões de licenciados a competir por postos de trabalho enquanto muitos preferem ficar desempregados a aceitar condições precárias.

He Ajun tinha um emprego respeitável na educação até Agosto de 2023, quando o governo chinês apertou o cerco às aulas particulares e o sector desabou. Aos 31 anos, encontrou-se desempregada e sem perspectivas. Mas em vez de desaparecer silenciosamente, transformou a sua experiência numa carreira improvável: tornou-se influenciadora de desemprego. Hoje, aos 32 anos, vive em Cantão e ganha cerca de 632 euros por mês através de publicações em vídeo sobre a vida sem trabalho, consultoria de carreira para os seus 8400 seguidores, edição de conteúdos e venda de artesanato. A sua história é apenas um sintoma de uma crise muito maior que está a remodelar o mercado de trabalho chinês.

Este ano, um número recorde de 11,79 milhões de licenciados enfrentam uma escassez de emprego sem precedentes. O desemprego juvenil nas zonas urbanas — abrangendo cerca de 100 milhões de chineses entre os 16 e os 24 anos — atingiu 17,1% em Julho, um valor que os analistas reconhecem estar subestimado porque exclui milhões de desempregados das áreas rurais. O governo suspendeu a divulgação de dados sobre desemprego juvenil depois de ter atingido um máximo histórico de 21,3% em Junho de 2023, ajustando posteriormente os critérios para excluir estudantes actuais. Grandes empresas como Tesla, IBM e ByteDance cortaram postos de trabalho nos últimos meses. Os despedimentos não se limitam ao sector privado: o governo de Pequim anunciou uma redução de 5% dos efectivos no ano passado, e desde então milhares foram despedidos. A província de Henan reduziu 5600 postos de trabalho no início deste ano; Shandong cortou quase 10 mil desde 2022.

Mas o que distingue esta crise é a rejeição deliberada de muitos jovens em aceitar qualquer emprego. Anna Wang, 23 anos, deixou um cargo num banco estatal em Shenzhen porque, por um salário de 762 euros por mês, "estava a fazer o trabalho de três pessoas" com horas extraordinárias não remuneradas. Agora trabalha a tempo parcial como editora de CV e cliente mistério. Olivia Lin, 30 anos, abandonou a função pública em Julho depois de cortes nos bónus e sinais de mais despedimentos por vir. Está há um mês à procura de emprego na tecnologia sem receber uma única proposta de entrevista — um contraste gritante com 2021, quando lhe era garantida uma entrevista por dia. Estes não são casos isolados. Yao Lu, sociólogo da Universidade de Colúmbia, estima que cerca de 25% dos licenciados entre os 23 e os 35 anos ocupam postos de trabalho abaixo das suas qualificações académicas.

O governo chinês está a tentar libertar "novas forças produtivas" através de políticas direccionadas para a inteligência artificial e robótica, mas críticos argumentam que isto deixa para trás uma geração de jovens altamente qualificados que perderam o último boom económico e se formaram demasiado tarde para se requalificarem. Mais de 200 milhões de chineses têm trabalhos temporários — um sector que outrora crescia rapidamente mas agora está saturado. Este ano, 12 cidades alertaram para a saturação do sector dos serviços de transporte. Entretanto, 3,9 milhões de licenciados do ensino profissional estão capacitados principalmente para empregos de baixo nível na indústria transformadora e nos serviços, e as reformas anunciadas em 2022 levarão anos a corrigir o subinvestimento histórico na formação profissional.

Em Março, o ministro dos Recursos Humanos admitiu que o país enfrenta escassez de soldadores, marceneiros, prestadores de cuidados a idosos e "talentos digitais altamente qualificados" — uma contradição reveladora. Um economista chinês, cujo nome não foi divulgado, alertou que é provável que muitos dos quase 48 milhões de estudantes universitários chineses tenham salários iniciais baixos e contribuam pouco para os impostos ao longo da vida. "Apesar de não se poder dizer que se trata de uma geração perdida, é um enorme desperdício de capital humano", afirmou.

Os jovens desempregados chineses encontraram uma forma de lidar com o isolamento e o estigma: partilham as suas experiências online. As hashtags "desempregado", "diário de desemprego" e "despedido" receberam um total de 2,1 mil milhões de visualizações na rede social Xiaohongshu, o "Instagram chinês". Os utilizadores descrevem rotinas mundanas, contam os dias desde que foram despedidos, partilham conversas embaraçosas com gestores e dão conselhos, por vezes acompanhados de selfies a chorar. Segundo Lu, esta visibilidade crescente "aumenta a aceitação social mais ampla e reduz o estigma em torno do desemprego" e permite que os isolados se conectem e "talvez até redefinam o que significa estar desempregado no actual clima económico".

Mas há um lado mais sombrio. Lu observa que os licenciados desempregados perceberam que culpar o governo seria arriscado e ineficaz, caindo em vez disso numa "interiorização do descontentamento e da culpa" ou simplesmente "ficando deitados". Em Julho, responsáveis políticos disseram discretamente a diplomatas estrangeiros que têm vindo a pedir às empresas que parem com os despedimentos — um sinal de que o governo reconhece a gravidade da situação mas tem opções limitadas. He Ajun, a influenciadora de desemprego, acredita que o trabalho freelancer se tornará normal e uma competência essencial como ter carta de condução. Mas para milhões de jovens chineses qualificados, o futuro permanece incerto, e a escolha entre aceitar trabalho precário e ficar desempregado tornou-se uma decisão que define uma geração.

Acho que no futuro a actividade de freelancer vai ser normal. Mesmo que exista um local de trabalho, vai continuar a ser necessário ter capacidades de freelancer.
— He Ajun, influenciadora de desemprego
Apesar de não se poder dizer que se trata de uma geração perdida, é um enorme desperdício de capital humano.
— Economista chinês (anónimo)
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