Desaceleração chinesa preocupa mercado, mas Brasil deve ser poupado

Desemprego juvenil na China atingiu novo recorde de 21,3% na faixa etária até 24 anos, gerando pressão política interna.
Mesmo que a China cresça mais lentamente, continuará precisando alimentar sua população
Secretária de Comércio Exterior explica por que exportações brasileiras de alimentos devem resistir à desaceleração chinesa.
Mark

Por que um crescimento de 6,3% causa frustração? Não é um número sólido?

Mimi

É sólido em termos absolutos, mas o contexto importa. Os economistas esperavam 7%, e a China não entregou. Além disso, quando você compara trimestre a trimestre, a expansão foi de apenas 0,8%.

Luke

Mas espera — a comparação ano a ano é com um período em que a China estava sob restrições de Covid zero. Não é um pouco injusto usar isso como base?

Mimi

Exatamente. Por isso os analistas olham para a comparação trimestral, que é mais significativa. E aí o número fica bem menor.

Mark

E o que está causando essa desaceleração? É apenas o fim do efeito pós-Covid?

Mimi

Não. A indústria está cautelosa, o mercado imobiliário segue fraco, e o consumo de serviços não decolou como esperado. São problemas estruturais, não apenas um rebote que está perdendo força.

Luke

Qual é o número que realmente assusta os formuladores de política?

Mimi

O desemprego juvenil. 21,3% entre menores de 24 anos. Isso é politicamente explosivo.

Mark

E o Brasil? Vai sofrer com isso?

Mimi

Menos do que se poderia imaginar. As exportações brasileiras para a China cresceram 5,9% no primeiro semestre, justamente quando a desaceleração estava acontecendo. Soja, milho e carne não são bens de luxo que as pessoas cortam.

Luke

Mas e as commodities industriais? Minério de ferro, petróleo?

Mimi

Aí há risco real. Mas o minério de ferro brasileiro é tão competitivo que uma queda na demanda afeta preço, não volume. E há sinais de que a China prefere petróleo brasileiro.

Mark

Então o Brasil está protegido?

Luke

Parcialmente. Depende de como a China responde. Se Pequim estimular a economia, o risco diminui. Se não estimular, commodities industriais podem sofrer mais.

  • O PIB chinês de 6,3% frustrou mercados que esperavam 7%, revelando que a recuperação pós-Covid perdeu força mais rápido do que o previsto.
  • O desemprego juvenil de 21,3% — recorde histórico — transforma a desaceleração econômica em uma crise política de estabilidade social para o governo Xi.
  • Commodities industriais como minério de ferro e petróleo ficam mais expostas, enquanto alimentos essenciais brasileiros resistem por serem demanda inelástica da população chinesa.
  • Pequim acelera mensagens de confiança e convoca investidores internacionais, mas ainda evita anunciar pacotes de estímulo de grande escala.
  • As exportações brasileiras para a China cresceram 5,9% no primeiro semestre de 2023, mesmo durante a desaceleração, sinalizando resiliência estrutural da pauta agrícola.

Quando a China desacelera, o mundo prende a respiração — e o crescimento de 6,3% no segundo trimestre de 2023, abaixo das projeções de 7%, é menos um número e mais um aviso. Para o Brasil, porém, a história tem uma nuance: a dependência chinesa por alimentos essenciais como soja e carne cria um amortecedor que protege as exportações nacionais mesmo quando a locomotiva asiática perde vapor. O verdadeiro peso do momento não está nos gráficos de PIB, mas nos 21,3% de jovens chineses sem emprego — uma pressão social que transforma questões técnicas em questões de estabilidade.

A China cresceu 6,3% no segundo trimestre de 2023 — um número que deveria tranquilizar, mas que deixou mercados globais em alerta. Economistas projetavam 7%, e a diferença de 0,7 ponto percentual revelou algo mais profundo: a maior economia asiática está perdendo velocidade. A comparação mais honesta não é com o segundo trimestre de 2022, quando o país ainda sufocava sob a política de Covid zero e cresceu apenas 0,4%. O dado relevante é o avanço de apenas 0,8% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2023 — e ele conta uma história de indústria cautelosa, mercado imobiliário fraco e consumo de serviços aquém do esperado.

O número mais perturbador, contudo, não está no PIB. O desemprego entre jovens de até 24 anos atingiu 21,3%, um recorde histórico. Quando mais de um quinto da juventude chinesa está sem trabalho, a pressão por estímulos deixa de ser debate técnico e passa a ser questão de estabilidade social — um terreno que o governo Xi não pode ignorar.

Para o Brasil, a preocupação existe, mas é matizada. As exportações brasileiras para a China cresceram 5,9% no primeiro semestre de 2023, justamente enquanto a desaceleração se aprofundava. A razão é estrutural: soja, milho e carne não são luxos que consumidores cortam quando a renda aperta. Mesmo crescendo menos, a China continuará precisando alimentar sua população. O risco maior recai sobre commodities industriais, mas até aí há proteção — o minério de ferro brasileiro é competitivo o suficiente para sobreviver a quedas de demanda, e há sinais de que a China prefere o petróleo brasileiro ao saudita.

Pequim, por sua vez, ainda não anunciou grandes pacotes de estímulo, mas acelera mensagens de confiança: o banco central prometeu evitar deflação e reguladores convocaram investidores internacionais. A questão que permanece aberta é se essas sinalizações serão suficientes — ou se a desaceleração exigirá respostas mais contundentes antes que o desemprego juvenil se torne uma crise maior.

A China cresceu 6,3% no segundo trimestre de 2023, um número que deveria soar robusto mas que deixou o mercado financeiro global segurando a respiração. Economistas de Pequim e Xangai haviam projetado 7%. A diferença de 0,7 ponto percentual não é apenas um desvio estatístico — é um sinal de que a maior economia asiática está perdendo velocidade, e quando a China desacelera, o mundo inteiro sente.

Cao Heping, economista da Universidade de Pequim, saiu em defesa do resultado, chamando-o de conquista difícil diante de desafios internos e externos. Argumentou que a confiança dos consumidores chineses permanecia intacta e que a estratégia de Xi Jinping de priorizar o consumo doméstico compensava a queda na demanda internacional. Mas essa narrativa oficial não conseguia mascarar uma realidade mais incômoda: as pesquisas de instituições financeiras como Yicai e Caixin haviam apontado para um crescimento maior, e a realidade não acompanhou.

O contexto torna o número ainda mais preocupante. A comparação ano a ano — 6,3% contra o segundo trimestre de 2022 — é enganosa porque naquele período a China ainda estava sob restrições severas da política de Covid zero, com crescimento de apenas 0,4%. Quando se olha para a comparação mais relevante, entre o primeiro e o segundo trimestre de 2023, a expansão foi de apenas 0,8%. Economistas de bancos e consultorias chinesas como China Minsheng, Zheshang e Zhixin apontaram para a mesma conclusão: a indústria está cautelosa, o mercado imobiliário segue fraco, e o consumo de serviços não ganhou a força esperada.

O dado mais explosivo, porém, não está no PIB. O desemprego entre jovens menores de 24 anos atingiu 21,3%, um novo recorde. Esse número carrega peso político que nenhuma estatística de crescimento consegue neutralizar. Quando mais de um quinto dos jovens chineses está desempregado, a pressão sobre o governo Xi por medidas de estímulo deixa de ser uma questão técnica e vira uma questão de estabilidade social.

No Brasil, a preocupação é legítima mas matizada. Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior, ofereceu uma perspectiva tranquilizadora: as exportações brasileiras para a China cresceram 5,9% no primeiro semestre de 2023, justamente o período em que a desaceleração chinesa se aprofundava. Commodities essenciais — soja, milho, carne — não são luxos que os consumidores chineses cortam quando a renda cai. Mesmo que a China cresça mais lentamente, continuará precisando alimentar sua população.

O risco real está em outro lugar. Commodities industriais como minério de ferro e petróleo são mais vulneráveis porque dependem da demanda por investimento e construção, setores que sofrem quando o crescimento desacelera. Mas aqui também há proteção: o minério de ferro brasileiro é extremamente competitivo. Se a demanda global cair, o impacto será no preço, não no volume, porque fornecedores de qualidade inferior serão descartados em favor do produto nacional. Quanto ao petróleo, há sinais de que a China prefere o brasileiro ao saudita, especialmente após a Sinopec sinalizar intenção de aumentar compras do Brasil em detrimento do óleo mais caro da Arábia Saudita.

O governo chinês, por sua vez, não anunciou pacotes de estímulo, mas acelerou mensagens de confiança. O banco central garantiu que evitará deflação, um temor que ronda os mercados financeiros. Reguladores financeiros convocaram investidores internacionais para um encontro na semana seguinte. São sinais de que Pequim está ciente da situação e tenta restaurar a confiança sem recorrer a gastos massivos. A questão que fica é se essas mensagens serão suficientes ou se a desaceleração exigirá medidas mais robustas — e se essas medidas virão a tempo de evitar que o desemprego juvenil se torne um problema ainda maior.

É um feito duramente conquistado em meio a múltiplos desafios internos e externos. Reflete que a confiança dos consumidores chineses não foi seriamente prejudicada.
— Cao Heping, economista da Universidade de Pequim
Mesmo que a China cresça num ritmo mais lento, ela continuará demandando soja, milho e carne do Brasil.
— Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior
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