Depressão resistente pode ter origem inflamatória, aponta pesquisa

A inflamação pode explicar por que muita gente não responde aos tratamentos de primeira linha
David Goldsmith, professor de psiquiatria, sobre o papel da inflamação na depressão resistente.
Mark

Por que levou tanto tempo para alguém conectar inflamação e depressão?

Mimi

Porque a psiquiatria sempre pensou em depressão como um problema químico do cérebro isolado—serotonina, dopamina. A ideia de que o corpo inteiro está inflamado e isso afeta o humor é mais recente, vem de pesquisa em imunologia e neurociência que só convergiu nos últimos anos.

Mark

Então nem toda depressão é inflamatória?

Mimi

Não. Apenas cerca de 25% das pessoas com depressão têm esses níveis altos de proteínas inflamatórias. É um subtipo. Mas é um subtipo que responde mal aos antidepressivos tradicionais, então identificá-lo importa muito.

Mark

Se os estudos clínicos não estão funcionando bem, por que os pesquisadores continuam?

Mimi

Porque os dados experimentais são convincentes—quando você induz inflamação em voluntários, eles ficam deprimidos. Então há algo ali. Os estudos clínicos podem estar falhando por outras razões: talvez o medicamento errado, a dose errada, ou porque precisamos de amostras maiores para ver o efeito.

Mark

E se a inflamação for apenas um marcador, não a causa?

Mimi

Ótima pergunta. Pode ser que ambas sejam consequência de algo mais profundo—trauma, estresse crônico. Mas mesmo se for um marcador, medir inflamação nos ajuda a identificar quem vai responder a qual tratamento.

Mark

O que um paciente deveria fazer agora?

Mimi

Se tem depressão resistente, conversar com o psiquiatra sobre medir inflamação é razoável. E as recomendações de estilo de vida—exercício, dieta—ajudam a reduzir inflamação de qualquer forma. Mas esperar por um medicamento anti-inflamatório específico ainda é cedo.

  • Aproximadamente 25% das pessoas com depressão têm níveis elevados de proteínas inflamatórias no sangue
  • Pessoas com inflamação alta respondem menos aos antidepressivos tradicionais
  • Estudo recente com 30 pacientes usando medicamento para artrite reumatoide não mostrou benefício estatisticamente significativo comparado ao placebo
  • Alguns psiquiatras já começaram a medir inflamação e recomendar exercícios e dieta para reduzir sintomas

Cerca de um quarto dos pacientes com depressão têm níveis altos de proteínas inflamatórias, sugerindo um subtipo inflamatório da doença mental. Estudos mostram que pessoas com inflamação elevada respondem menos aos antidepressivos tradicionais e podem se beneficiar de tratamentos anti-inflamatórios.

Pesquisadores investigam se medicamentos anti-inflamatórios podem tratar depressão resistente, com 25% dos pacientes apresentando níveis elevados de proteínas inflamatórias no sangue.

A psiquiatria sempre teve um jeito peculiar de roubar medicamentos de outras especialidades. O primeiro antidepressivo surgiu de um remédio para tuberculose. A cetamina, um dos tratamentos mais modernos, começou como anestésico. Agora, pesquisadores estão olhando para uma direção inesperada: medicamentos anti-inflamatórios podem ajudar pessoas com depressão que não respondem aos tratamentos convencionais.

O ponto de partida é um número que intriga: aproximadamente 25% das pessoas com depressão apresentam níveis elevados de proteínas inflamatórias circulando no sangue. Não é uma coincidência menor. Há décadas de pesquisa sugerindo que a inflamação não apenas acompanha a depressão, mas pode precedê-la. Em experimentos onde voluntários ingeriram substâncias para provocar inflamação, muitos relataram sentimentos de tristeza e ansiedade logo em seguida. Aqueles com inflamação mais pronunciada também tendem a responder pior aos antidepressivos tradicionais, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina.

David Goldsmith, professor de psiquiatria na Universidade Emory, é cauteloso: isso não explica a depressão em todas as pessoas. Mas, segundo ele, a inflamação "pode ajudar a explicar por que muita gente não responde aos tratamentos de primeira linha". John Matthews, psiquiatra do Instituto Benson-Henry em Massachusetts, vai além. A inflamação pode ser a ponte que conecta depressão a problemas de saúde física como doenças metabólicas e autoimunes. Traumas na infância e estresse crônico também podem elevar a inflamação no corpo, aumentando o risco de depressão.

O mecanismo é elegante e perturbador. Proteínas inflamatórias no cérebro reduzem a disponibilidade de neurotransmissores essenciais como serotonina e dopamina, que regulam o humor. Elas também alteram regiões cerebrais ligadas a recompensa e motivação—exatamente as áreas que falham na depressão. Pessoas com esse padrão inflamatório apresentam um conjunto particular de sintomas: fadiga extrema, perda de apetite, insônia, falta de vontade de buscar experiências prazerosas. Golam Khandaker, professor em Bristol, chama isso de "depressão inflamatória"—um subtipo distinto dos outros casos.

Os testes clínicos, porém, revelam um quadro confuso. Um estudo inicial com 60 pacientes testou um medicamento normalmente usado para doença de Crohn. Quando analisados em conjunto, o remédio não superou o placebo. Mas quando os pesquisadores focaram apenas nos pacientes com inflamação basal mais alta, viram melhora real nos sintomas depressivos. Vários outros estudos menores chegaram a conclusões semelhantes: apenas quem tinha sinais de inflamação ou histórico de trauma se beneficiou significativamente.

O estudo mais recente, usando um medicamento para artrite reumatoide, incluiu 30 pessoas com depressão e inflamação elevada. Os que tomaram o remédio tiveram redução pequena em suas pontuações de depressão, particularmente em sintomas somáticos. Mas a melhora não foi estatisticamente significativa comparada ao placebo. Khandaker, que liderou o trabalho, o descreveu como "prova de conceito"—pequeno demais para resultados definitivos, mas útil para identificar quais sintomas poderiam responder e quando os pacientes começariam a melhorar.

A inconsistência dos resultados deixa cientistas perplexos. Michael Irwin, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, expressa a frustração: "Os dados experimentais mostrando que inflamação estimula esse tipo de depressão são bastante convincentes. Os estudos de tratamento deveriam estar funcionando." Goldsmith concorda que há indícios de um subtipo inflamatório, mas questiona: "Qual será, no fim das contas, o medicamento certo para combater a inflamação?" Essa pergunta permanece aberta.

Por enquanto, prescrever anti-inflamatórios para depressão é prematuro. Mas alguns psiquiatras, incluindo Khandaker, já começaram a medir proteínas inflamatórias no sangue de seus pacientes e a recomendar mudanças no estilo de vida—exercícios, dieta—para reduzir a inflamação. Moira Rynn, da Universidade Duke, que cuida de pessoas com depressão resistente ao tratamento, acha a ideia "convincente", mas sua clínica ainda não incorpora sistematicamente a inflamação nas avaliações. O desafio, ela diz, é que "não está claro como conduzir o tratamento, dado o estado atual das informações". A hipótese é promissora, mas o caminho até a prática clínica ainda está sendo traçado.

Não acho que isso seja relevante para todas as pessoas com depressão
— David Goldsmith, professor de psiquiatria da Universidade Emory
Os dados experimentais que mostram que a inflamação estimula esse tipo de depressão são bastante convincentes, mas os estudos de tratamento deveriam estar funcionando
— Michael Irwin, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles
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