Mendonça determinou afastamento de Andrei Rodrigues e diretor de inteligência da PF, alegando monitoramento indevido de ministros e autoridades. Segunda Turma do STF já formou maioria para manter a decisão, com votos de Fux e Nunes Marques favoráveis ao afastamento.
Decisão de Mendonça aprofunda crise no STF; Fachin enfrenta desafio institucional sem precedentes
Fachin tem a maior crise do STF para resolver
O que exatamente Mendonça alegou para justificar o afastamento?
Que ele e o advogado-geral da União foram monitorados indevidamente pela Polícia Federal durante pelo menos um mês, com pelo menos seis relatórios de inteligência produzidos sem autorização.
Mas quem produziu esses relatórios? A PF como instituição, ou pessoas específicas dentro dela?
A fonte não deixa claro. Mendonça determinou investigações para apurar as condutas dos delegados, mas não especifica quem exatamente ordenou ou produziu os relatórios.
E por que Badaró diz que há um "absurdo técnico" na decisão?
Porque Mendonça se colocou como vítima e como julgador ao mesmo tempo. Ele alegou ter sido monitorado e depois decidiu afastar quem o monitorou.
O STF já fez isso antes?
Sim, em casos como o inquérito das "fake news" conduzido por Moraes. Mas Badaró aponta que isso não resolve o problema institucional.
Quem deveria ter pedido o afastamento?
O Ministério Público Federal ou a própria Polícia Federal. Mas o MPF já disse que o processo de Mendonça teve ilegalidades, e a PF era o alvo.
Então a maioria da Segunda Turma concordou com Mendonça mesmo com esses problemas técnicos?
Sim. Fux e Nunes Marques anteciparam seus votos a favor. Gilmar Mendes pediu vista. Toffoli ainda não se manifestou.
E qual é o impacto político disso tudo?
Um ex-integrante do governo Lula avalia que a crise "fere de morte" a campanha de reeleição do presidente, porque coloca sob suspeição um ministro que a oposição associa a Lula e o comandante da PF.
El Pulso
- Mendonça afastou Andrei Rodrigues e Leandro Almada da Costa da Polícia Federal em 8 de setembro
- Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento, com votos de Fux e Nunes Marques
- Alegação: monitoramento indevido de Mendonça e do advogado-geral da União durante pelo menos um mês
- Ex-integrante do governo Lula avalia que a crise pode impactar negativamente a campanha de reeleição do presidente
Mendonça determinou afastamento de Andrei Rodrigues e diretor de inteligência da PF, alegando monitoramento indevido de ministros e autoridades. Segunda Turma do STF já formou maioria para manter a decisão, com votos de Fux e Nunes Marques favoráveis ao afastamento.
Ministro André Mendonça afasta diretor-geral da Polícia Federal, aprofundando crise institucional no Supremo Tribunal Federal. Jurista avalia que presidente Fachin enfrenta maior crise da história da Corte.
Na terça-feira de manhã, o ministro André Mendonça tomou uma decisão que aprofundou uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal: afastou Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, junto com Leandro Almada da Costa, diretor de inteligência da corporação. A justificativa era que ambos teriam monitorado indevidamente Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias, durante pelo menos um mês, produzindo ao menos seis relatórios de inteligência sem autorização.
A decisão foi liminar, mas rapidamente ganhou força. Mendonça a levou para referendo da Segunda Turma do STF na manhã do mesmo dia. Uma sessão virtual extraordinária foi aberta às dez da manhã. O ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, pediu vista — mais tempo para analisar o caso — o que suspendeu o julgamento. Mesmo assim, dois colegas anteciparam seus votos: Luiz Fux e Nunes Marques concordaram com Mendonça. Com isso, a turma chegou à maioria. A Segunda Turma tem cinco integrantes: além de Mendonça, Fux, Nunes Marques e Gilmar Mendes, está o ministro Dias Toffoli, que ainda não se manifestou.
Para Gustavo Badaró, professor de Processo Penal da Faculdade de Direito da USP, o presidente do Supremo, Edson Fachin, enfrenta agora a maior crise da história da Corte. Badaró identifica um problema técnico grave na decisão de Mendonça: o ministro se colocou simultaneamente como vítima e como julgador. Essa sobreposição de papéis é o que Badaró chama de "absurdo técnico". O STF já havia admitido situação semelhante em outros casos — como no inquérito das "fake news" conduzido pelo próprio Alexandre de Moraes — mas isso não elimina a questão institucional.
Há outro problema: o afastamento deveria ter sido requisitado pelo Ministério Público Federal ou pela própria Polícia Federal. O MPF, porém, já declarou que considerou o processo conduzido por Mendonça marcado por ilegalidades. E a PF era justamente o alvo da decisão. Na decisão de afastamento, Mendonça determinou que investigações sejam abertas na Corregedoria da Polícia Federal para apurar as condutas dos delegados tanto na esfera penal quanto administrativa-disciplinar. Também ordenou investigação sobre as circunstâncias da produção dos relatórios que envolvem o próprio Mendonça, documentos que foram divulgados pelo ministro Alexandre de Moraes.
O contexto que levou a tudo isso envolve revelações sobre mensagens enviadas a Moraes pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O partido Novo já havia entrado com pedido de afastamento do diretor-geral da PF, alegando que haveria uma "suposta rede de influência" a que Vorcaro teria acesso, possibilitando sua "engenharia criminosa" — referindo-se a um dos maiores escândalos financeiros do país. O partido apontava possível caracterização de crimes de impedimento ou embaraço de investigação criminal, corrupção passiva ou advocacia administrativa.
Bardaró avalia que o fato de a Segunda Turma ter formado maioria a favor do afastamento reduz o caráter personalista da decisão de Mendonça. Ainda assim, ele defende que o primeiro passo para equacionar a crise será levar ao plenário do Supremo a investigação do ministro Alexandre de Moraes, após as revelações das mensagens de Vorcaro.
Fora do universo jurídico, a crise no STF projeta sua sombra sobre a campanha de reeleição do presidente Lula. Um ex-integrante do governo Lula ouvido pela reportagem avalia que as revelações sobre as relações de Moraes com Vorcaro e as medidas envolvendo o Supremo "ferem de morte" a campanha presidencial. Para essa pessoa, o problema reside em como parte dos eleitores pode interpretar a situação: um ministro que a oposição associa a Lula e o comandante da Polícia Federal do presidente ambos sob suspeição. A crise institucional, portanto, não é apenas uma questão de direito constitucional — ela reverbera na política eleitoral em um momento crítico.
Citas Notables
Fachin tem a maior crise do STF para resolver— Gustavo Badaró, professor de Processo Penal da USP
As revelações sobre as relações de Moraes com Vorcaro e medidas envolvendo o STF ferem de morte a campanha de reeleição do presidente— Ex-integrante do governo Lula