De vassoura em mão a professora de Medicina: a jornada de Luzia Sandra

Sandra enfrentou jornadas de 16 horas diárias, dormindo em transportes públicos, enquanto cuidava de um irmão com síndrome de Down.
Chorando e resolvendo: a lição que atravessou gerações
A frase que Dona Ilza ensinou à filha se tornou o mantra que sustentou Sandra através de 16 horas diárias de trabalho e estudo.
Mark

O que você acha que teria acontecido se Sandra tivesse desistido naquele período em que dormia no ônibus?

Mimi

Acho que ela teria carregado aquele peso para sempre. Não era só sobre ela — era sobre o sonho de Dona Ilza, sobre aqueles 13 irmãos que não conseguiram. Desistir significaria deixar a história da família intacta.

Mark

Mas por que a mãe não viu a formatura? Isso não parece injusto?

Mimi

É injusto, sim. Dona Ilza morreu em 2004, oito anos antes de Sandra se formar. Mas acho que a mãe já sabia. Ela viu a determinação da filha, viu a escolha de se mudar para João Pessoa, viu a recusa em desistir. Talvez tenha partido em paz.

Mark

Aquele episódio no IML, com o corpo no ônibus — você acha que foi coincidência ou destino?

Mimi

Sandra mesma não sabia o que significava naquele momento. Mas ela rezou. Ela não teve repulsa. Acho que o destino não escolhe você — você escolhe o destino ao responder com serenidade quando ele bate na porta.

Mark

E aquele colega que a criticou por estar com a vassoura?

Mimi

Ele não entendeu que limpar é um ato de amor. Sandra entendeu. Ela respondeu com uma pergunta que o silenciou para sempre. Isso diz tudo sobre quem ela é.

Mark

Hoje, quando ela conta a história aos alunos, o que ela está realmente ensinando?

Mimi

Que o lugar onde você começa não determina onde você vai chegar. Que "chorando e resolvendo" não é fraqueza — é a forma mais honesta de ser forte. Ela virou a mãe que Dona Ilza foi para ela.

  • Sandra trabalhou como auxiliar de laboratório (7h30 às 17h) e estudava Enfermagem à noite, dormindo no ônibus, até se formar em 2012
  • Dona Ilza teve 14 filhos; Sandra foi a única a completar o ensino superior
  • Professora de Anatomia na Famene desde 2015, já ensinou mais de dezoito turmas
  • Dona Ilza faleceu em 2004, oito anos antes da formatura de Sandra

Sandra trabalhou como auxiliar de laboratório durante o dia e estudava Enfermagem à noite, dormindo no ônibus, até se formar em 2012. Sua mãe, Dona Ilza, teve 14 filhos e sonhava ver ao menos um formado; Sandra se tornou a única a completar o ensino superior.

Luzia Sandra Moreira Moura, nascida em Gurjão, Paraíba, transformou sua vida de limpadora de laboratórios em professora de Anatomia na mesma faculdade, realizando o sonho de sua mãe através de dedicação e persistência.

Luzia Sandra Moreira Moura nasceu em Gurjão, no interior da Paraíba, filha de uma mulher que carregava um sonho tão pesado quanto sagrado: ver ao menos um de seus 14 filhos formar-se. Dona Ilza Moura, viúva de Seu Manoel Abel Moreira, havia se formado em Pedagogia entre tarefas domésticas e trabalhos de costura, tornando-se professora de escola pública com uma devoção à educação que marcaria gerações. Nenhum de seus filhos chegou a se formar — exceto um. A caçula, nascida quando a mãe já tinha 46 anos, seria aquela que realizaria o desejo mais profundo da matriarca. Essa menina era Luzia Sandra, e o sonho de Dona Ilza se tornaria o motor de toda a sua vida.

Ainda no ensino médio, um episódio anunciaria seu futuro de forma estranha e silenciosa. Voltando para casa em um transporte de estudantes, o motorista precisou passar no IML para buscar o corpo de um jovem que havia falecido. Sandra fez a viagem inteira ao lado do defunto, rezando por ele, sem repulsa, sem medo. Ela não sabia que um dia viveria dissecando cadáveres e explicando a futuros médicos cada parte do corpo humano, mas encarou aquele episódio como um sinal em sua jornada.

Terminado o ensino médio em 2002, Sandra convenceu a mãe a se mudarem para João Pessoa em busca de melhores condições para estudar. A situação financeira apertava: Dona Ilza viúva, sem dar mais aulas, e a maioria dos irmãos seguindo cada um sua própria vida. Sandra começou a trabalhar em uma loja de roupas e objetos indianos no Centro Turístico da cidade. Os donos, um casal de professores da Universidade Federal da Paraíba, amantes da educação, garantiram a ela tempo para estudar. Rapidamente virou gerente da loja e, com o salário, pagou um curso técnico de enfermagem na Facene, que concluiu em 2008. Mas ela queria mais: sonhava com o ensino superior de Enfermagem, bem mais caro que o técnico.

Quando a loja dos professores indianos fechou e o casal voltou para a Índia, Sandra ficou sem como pagar o curso superior. Procurou a direção da faculdade e pediu desconto. Por ter sido uma boa aluna, ganhou não apenas a redução, mas um emprego de auxiliar de laboratório: organizar e limpar os laboratórios para os alunos da escola técnica de enfermagem. Abraçou a função com dedicação, mesmo diante do preconceito. Certa vez, um ex-colega a viu de vassoura na mão e disse que aquele não era trabalho para ela. Sandra respondeu com uma lição sobre o verdadeiro sentido de cuidar: "Faço com amor porque é a única chance que tenho e, além disso, se um paciente vomitar na sua frente, você o deixará na sujeira até que possa vir alguém?". Nunca mais o viu.

A rotina daquele período era brutal. Trabalhava das 7h30 às 17h e corria direto dos laboratórios para o curso superior de Enfermagem à noite, chegando em casa apenas às 23h. Sem tempo para estudar, dormia no ônibus. O curso exigia cada vez mais. Ela se viu chorando várias vezes e chegou a querer desistir. Cuidava também de um irmão com síndrome de Down. Era nesses momentos que a lembrança da mãe a resgatava. "Na vida, minha filha, muitas vezes, é chorando e resolvendo", havia dito Dona Ilza certa vez, ao vê-la observar a mãe resolver as pendências deixadas pelo pai enquanto chorava a cada parada. Foi repetindo essa frase como um mantra que Sandra engoliu o choro e se manteve na pesada agenda diária.

A persistência deu resultado. Luzia Sandra se formou enfermeira em 2012. Sua mãe não estava fisicamente presente — Dona Ilza havia falecido em 2004, sem ter visto em vida a formatura de sua única filha formada — mas Sandra sabia o quanto ela estava ali, naquela festa que reuniu mais de 50 pessoas entre irmãos, sobrinhos, primos e cunhados, numa das maiores mesas da turma. O ciclo então se fechou de forma simbólica. Sandra fez seleção para professora do curso técnico de enfermagem da Facene, a mesma faculdade onde limpava os laboratórios, e passou. No primeiro dia de aula, encontrou estudantes que a tinham visto de vassoura na mão; havia gente chorando e gente aplaudindo. Pouco depois, ela se submeteu a um teste ainda mais exigente para lecionar Anatomia no curso de Medicina: dar uma aula para cirurgiões experientes e para a direção da faculdade. Foi selecionada.

Luzia Sandra está como professora de Anatomia desde 2015, é especialista em Urgência e Emergência e tem mestrado e doutorado na área de terapia intensiva. Já ensinou mais de dezoito turmas, e a primeira delas, quando se formou, rendeu homenagens à professora Sandrinha durante a formatura. Hoje, ao fim de cada semestre, ela conta a própria história aos alunos, não para se vangloriar, mas para estimular os futuros profissionais e manter viva a memória da mãe. "Não devemos desistir nunca", resume, lembrando que já viu ex-alunos voltarem para dizer que a frase "chorando e resolvendo" os fortaleceu em momentos difíceis. Sem talvez se dar conta, ela se tornou uma espécie de Dona Ilza para seus próprios alunos.

Faço com amor porque é a única chance que tenho e, além disso, se um paciente vomitar na sua frente, você o deixará na sujeira até que possa vir alguém?
— Luzia Sandra, respondendo a crítica sobre seu trabalho como auxiliar de laboratório
Na vida, minha filha, muitas vezes, é chorando e resolvendo
— Dona Ilza Moura, ensinamento que se tornou o mantra de Sandra
Contact Us FAQ