Semanas antes das eleições presidenciais de 2022, um levantamento Datafolha na Bahia revelou uma distância expressiva entre os dois principais candidatos — Lula com 61% e Bolsonaro com 20% das intenções de voto —, sinalizando que, neste grande colégio eleitoral, a disputa já parecia resolvida antes mesmo de começar. O episódio, porém, não se limitou aos números: a tentativa de censura judicial movida pela própria coligação petista expôs as tensões que cercam a circulação de dados em períodos eleitorais, quando cada pesquisa pode ser tanto arma quanto alvo.
Datafolha: Lula lidera com 61% contra 20% de Bolsonaro na Bahia
Cinquenta e três por cento dos baianos avaliavam o governo como ruim ou péssimo
Por que uma coligação petista tentaria censurar uma pesquisa que mostra Lula ganhando por margem tão ampla?
Porque nem toda pesquisa que favorece um candidato é bem-vinda. O PT questionava a metodologia — diziam que havia inconsistências no registro, que o instituto não havia informado corretamente como faria a ponderação dos dados.
Mas espera. O Datafolha diz que cumpriu todas as regras do TSE. Então a questão é: a coligação tinha razão sobre as inconsistências, ou estava apenas tentando bloquear números ruins para Bolsonaro?
Essa é a pergunta que o tribunal teria que responder. A decisão foi revogada, então a questão voltaria para análise. Não ficou claro se havia de fato um problema metodológico ou se era disputa política.
E quanto aos números em si? Sessenta e um por cento é uma margem que deixa espaço para erro?
A margem de erro era de três pontos percentuais. Então tecnicamente Lula poderia estar entre 58% e 64%, e Bolsonaro entre 17% e 23%. Mesmo no pior cenário para Lula, ele ainda estaria muito à frente.
O que talvez seja mais revelador é a aprovação do governo. Cinquenta e três por cento dos baianos achavam a gestão Bolsonaro ruim ou péssima. Isso é um número pesado.
Então por que o PT se importava tanto com a pesquisa presidencial se também estava medindo governador e senador?
Boa pergunta. O registro dizia que seria sobre governador e senador, mas o questionário incluía Presidência. Talvez o PT achasse que isso criava uma confusão de contexto ou influenciava as respostas.
Ou talvez simplesmente não quisesse que aquele número — 61% para Lula — circulasse amplamente antes da eleição. Mesmo que tecnicamente correto, números assim moldam narrativas.
E o Ipec? Por que o tribunal rejeitou o pedido contra aquela pesquisa?
A fonte não explica o raciocínio da juíza. Só diz que rejeitou. Pode ter sido porque o Ipec estava em conformidade com as regras, ou porque o tribunal viu que o primeiro pedido não tinha fundamento. Não sabemos.
El Pulso
- Com 61% das intenções de voto na Bahia, Lula abria uma vantagem de mais de 40 pontos sobre Bolsonaro, que marcava apenas 20% — um retrato de isolamento político em um dos maiores estados do país.
- Mais da metade dos eleitores baianos avaliava o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo, sinalizando um terreno hostil para o presidente incumbente a menos de dois meses do primeiro turno.
- A coligação petista, paradoxalmente, tentou censurar a divulgação da pesquisa que favorecia Lula, alegando inconsistências metodológicas e irregularidades no registro junto ao TSE.
- O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia chegou a proibir a publicação dos dados presidenciais sob pena de multa diária de 20 mil reais, mas revogou a decisão no dia seguinte após contestação do Datafolha.
- Na mesma semana, a mesma coligação tentou barrar uma pesquisa do Ipec sobre a Bahia — pedido também rejeitado pela Justiça, revelando um padrão de contestação judicial a levantamentos do período.
Semanas antes das eleições presidenciais de 2022, um levantamento Datafolha na Bahia revelou uma distância expressiva entre os dois principais candidatos — Lula com 61% e Bolsonaro com 20% das intenções de voto —, sinalizando que, neste grande colégio eleitoral, a disputa já parecia resolvida antes mesmo de começar. O episódio, porém, não se limitou aos números: a tentativa de censura judicial movida pela própria coligação petista expôs as tensões que cercam a circulação de dados em períodos eleitorais, quando cada pesquisa pode ser tanto arma quanto alvo.
Em agosto de 2022, o Datafolha realizou uma pesquisa de intenção de voto na Bahia a pedido da rádio Metrópole de Salvador, ouvindo 1.008 eleitores entre os dias 22 e 24 daquele mês. Os resultados mostravam Lula com 61% na modalidade estimulada, Bolsonaro com 20% e Ciro Gomes com 7%. Na versão espontânea, sem apresentação de nomes, a vantagem se mantinha: 54% para Lula e 18% para Bolsonaro. O levantamento também registrava que 53% dos baianos avaliavam o governo federal como ruim ou péssimo.
A divulgação dos dados, no entanto, encontrou resistência judicial. A coligação do candidato petista ao governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues, pediu ao Tribunal Regional Eleitoral que impedisse a publicação do trecho presidencial da pesquisa, alegando inconsistências metodológicas e divergências entre o escopo registrado e as perguntas efetivamente feitas. O juiz Paulo Sérgio Barbosa de Oliveira acatou o pedido na terça-feira, impondo multa diária de 20 mil reais em caso de descumprimento.
O Datafolha reagiu, afirmando ter seguido rigorosamente as normas do TSE. A diretora Luciana Chong reafirmou a conformidade do procedimento, e a liminar foi revogada no dia seguinte. O caso retornaria ao tribunal para análise posterior. Na mesma semana, a coligação petista também tentou barrar uma pesquisa do Ipec sobre o estado, mas o pedido foi rejeitado pela Justiça, permitindo sua publicação normalmente.
O episódio iluminou uma contradição reveladora: a força política que liderava com folga nas pesquisas foi também a que mais empenho colocou em tentar suprimi-las. Na Bahia, historicamente favorável à esquerda, a batalha sobre os números tornou-se, ela própria, parte do cenário eleitoral.
Uma pesquisa Datafolha encomendada pela rádio Metrópole de Salvador traçou um retrato da intenção de voto na Bahia em agosto de 2022, mostrando o cenário político do estado semanas antes da eleição presidencial. O levantamento, realizado entre 22 e 24 de agosto com 1.008 eleitores e margem de erro de três pontos percentuais, registrou Luiz Inácio Lula da Silva com 61% das intenções de voto na modalidade estimulada — aquela em que os nomes dos candidatos são apresentados aos entrevistados. Jair Bolsonaro aparecia com 20%, Ciro Gomes com 7%, enquanto Simone Tebet e Luiz Felipe D'Ávila marcavam 1% cada. Votos em branco ou nulo somavam 5%, e 4% dos eleitores ainda se diziam indecisos.
Quando a pesquisa foi conduzida sem apresentar os nomes dos candidatos — a chamada modalidade espontânea — Lula mantinha sua vantagem com 54%, enquanto Bolsonaro caía para 18%. Ciro Gomes marcava 3% e Simone Tebet 1%. Nesta versão, 18% dos baianos não souberam responder, 4% disseram votar em branco ou nulo, e 2% mencionaram variações como "candidato do PT" ou o número 13.
O mesmo levantamento também mediu a aprovação do governo federal entre os eleitores baianos. A gestão Bolsonaro era avaliada como ruim ou péssima por 53% deles, regular por 35%, e boa ou ótima por apenas 20%. Dois por cento não souberam responder. Esses números sugeriam um cenário desafiador para o presidente em um dos maiores colégios eleitorais do país.
A divulgação dos dados, porém, enfrentou obstáculos legais. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, atendendo a um pedido da coligação do candidato a governador Jerônimo Rodrigues, havia censurado parcialmente a pesquisa na terça-feira 23 de agosto. O juiz Paulo Sérgio Barbosa de Oliveira determinou que o trecho relativo à disputa presidencial não fosse divulgado, sob pena de multa diária de 20 mil reais. A coligação petista argumentava que a pesquisa estava "eivada de inconsistências" e que havia indução ao erro nas questões. Questionava também o fato de o registro indicar que seriam medidas intenções de voto para governador e senador, mas o questionário incluía perguntas sobre a Presidência. Além disso, alegava ausência de informações sobre o plano amostral e as ponderações por gênero, idade, escolaridade, nível econômico e localização geográfica.
O Datafolha contestou a censura, afirmando que havia cumprido todas as regras de registro estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Luciana Chong, diretora do instituto, reafirmou que o procedimento estava em conformidade com as normas. A decisão liminar foi revogada na quarta-feira 24 de agosto, e o caso voltaria a ser apreciado pelo tribunal em análise posterior.
Na mesma semana, a coligação petista também havia movido ação contra pesquisa do Ipec, instituto formado por ex-executivos do Ibope Inteligência. A juíza Carina Cristiane Ganguçu Virgens rejeitou esse pedido, permitindo que o levantamento do Ipec — contratado pela TV Bahia e previsto para divulgação na sexta-feira 26 de agosto — fosse publicado normalmente.
O episódio refletia as tensões em torno da medição de intenções de voto no período pré-eleitoral, com campanhas questionando metodologias e buscando limitar a circulação de dados que as desfavoreciam. A Bahia, historicamente reduto de força eleitoral para candidatos de esquerda, apresentava-se como terreno onde essas disputas sobre números e sua interpretação ganhavam intensidade.
Citas Notables
O instituto cumpriu todas as regras de registro estabelecidas pelo TSE— Luciana Chong, diretora do Datafolha
Permitir a divulgação de pesquisa que não expressa a realidade causará prejuízos irreversíveis à lisura eleitoral— Coligação liderada por Jerônimo Rodrigues (PT)