Na Índia, a 18ª cúpula do Brics reúne potências que compartilham um palco sem compartilhar um destino. O bloco, nascido como símbolo de uma ordem multipolar alternativa, revela-se uma vez mais como arena de agendas nacionais irreconciliáveis — onde a retórica da unidade mal encobre rivalidades que vão do Golfo Pérsico ao Himalaia. A ausência de Lula e a presença de Xi em solo indiano pela primeira vez em sete anos sublinham que, neste fórum, o que não acontece diz tanto quanto o que acontece.
Cúpula do Brics reafirma falta de coesão entre membros com agendas divergentes
cada país mantém sua própria linha de diálogo com os americanos
Por que a ausência de Lula importa tanto? Ele é o presidente de um dos fundadores.
Porque sinaliza prioridades domésticas sobre o compromisso com o bloco. Mas também porque o Brasil tem sido uma voz moderadora, e sua ausência deixa mais espaço para as tensões entre Xi, Putin e Modi.
Mas o chanceler vai lá. Não é como se o Brasil simplesmente desaparecesse. A questão é: o que ele vai fazer ou dizer que seja diferente de Lula?
Provavelmente nada. Vai ler um discurso. Mas a simbologia importa na diplomacia.
E essa tensão entre Irã e Emirados Árabes Unidos—ela realmente pode bloquear um comunicado?
Já bloqueou este ano. Os Emirados romperam relações comerciais com o Irã, então não há espaço para consenso fácil.
Mas o comunicado é vinculante? Ou é só um documento simbólico que ninguém lê depois?
Simbólico, principalmente. Mas o fato de não conseguirem nem isso mostra o quanto o bloco está rachado.
E Modi com Xi? Por que esse encontro é tão importante?
Porque a Índia e a China têm tensões fronteiriças reais, quase viraram conflito. Modi também está construindo alianças contra a China no Indo-Pacífico. Então quando Xi vai à Índia, é um sinal de que estão tentando gerenciar a rivalidade.
Mas Modi está realmente alinhado com o Brics? Ou está usando o bloco enquanto constrói outras alianças?
Provavelmente os dois. A Índia quer ter opções, não ficar presa a nenhum lado.
E Putin? O que ele quer?
Petróleo. Manter a Índia comprando petróleo russo enquanto o resto do mundo o sanciona. É sobrevivência econômica.
Le Pouls
- A tensão entre Irã e Emirados Árabes Unidos ameaça bloquear novamente um comunicado conjunto, repetindo o impasse que já paralisou o bloco este ano.
- Xi Jinping chega à Índia pela primeira vez em sete anos, tornando o encontro bilateral com Modi o momento geopolítico mais carregado da cúpula.
- Putin prioriza garantir o fluxo de petróleo russo para a Índia e usa o fórum empresarial para atacar o Ocidente — poupando, porém, Donald Trump, com quem tenta uma reaproximação.
- Lula não comparece, representado pelo chanceler Mauro Vieira, enquanto o Brasil aposta na cúpula como vitrine do discurso soberanista diante das pressões de Washington.
- O Brics acumula membros e contradições: a Índia mantém laços militares com países que temem a China, enquanto o Irã está em guerra aberta com os EUA — dois realidades impossíveis de conciliar numa só declaração.
Na Índia, a 18ª cúpula do Brics reúne potências que compartilham um palco sem compartilhar um destino. O bloco, nascido como símbolo de uma ordem multipolar alternativa, revela-se uma vez mais como arena de agendas nacionais irreconciliáveis — onde a retórica da unidade mal encobre rivalidades que vão do Golfo Pérsico ao Himalaia. A ausência de Lula e a presença de Xi em solo indiano pela primeira vez em sete anos sublinham que, neste fórum, o que não acontece diz tanto quanto o que acontece.
A Índia sedia neste fim de semana a 18ª cúpula do Brics, e o encontro já nasce marcado pela contradição que define o bloco: o discurso de unidade contra a hegemonia ocidental coexiste com agendas nacionais que frequentemente se opõem. Cada líder à mesa persegue seus próprios interesses, e a cúpula funciona menos como aliança e mais como espaço onde potências rivais fingem concordância.
As ausências e presenças dizem muito. Lula não comparecerá — ocupado com sua campanha à reeleição, será representado pelo chanceler Mauro Vieira. Xi Jinping, por sua vez, pisa em solo indiano pela primeira vez em sete anos, tornando o esperado encontro bilateral com Modi o momento de maior peso geopolítico da reunião. Os dois líderes estiveram juntos na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai no Quirguistão semanas atrás, mas não se encontraram — uma ausência que a cúpula de Nova Déli pode, ou não, corrigir.
O ponto mais explosivo envolve Irã e Emirados Árabes Unidos. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian chega buscando projetar apoio internacional enquanto seu país enfrenta confronto militar com os EUA. Mas o príncipe herdeiro de Abu Dhabi estará sentado à mesma mesa — os Emirados romperam relações comerciais com Teerã após retaliações iranianas contra aliados americanos no Golfo. Essa tensão já impediu um comunicado conjunto do Brics este ano, e o Kremlin teme repetição.
Putin chegou a Nova Déli na sexta-feira e reuniu-se com Modi com uma prioridade clara: preservar o canal de exportação de petróleo russo para a Índia, vital para Moscou sob sanções pela Guerra da Ucrânia. No fórum empresarial, aproveitou para acusar o Ocidente de atacar infraestrutura energética de países do bloco — referindo-se aos drones ucranianos contra refinarias russas e, implicitamente, aos bombardeios americanos ao Irã — mas poupou Trump, com quem tenta uma reaproximação.
Para o Brasil, a cúpula serve sobretudo como vitrine do discurso soberanista diante de Washington. A integração de meios de pagamento digital entre os membros será debatida — de difícil execução, mas suficiente para irritar Trump, que enxerga o Brics como frente hostil aos EUA. Na prática, porém, cada país mantém sua própria relação com Washington: a Índia é aliada próxima dos americanos; o Irã está em guerra com eles. Essa contradição não é uma falha do Brics — é sua natureza mais honesta.
A Índia recebe neste fim de semana a 18ª cúpula do Brics, um encontro que promete expor mais uma vez as fraturas internas de um bloco que existe menos como aliança coerente e mais como espaço onde potências com interesses conflitantes fingem falar com uma só voz. O discurso oficial celebra a união contra a hegemonia ocidental, mas a realidade é bem mais fragmentada: cada membro persegue sua própria agenda, frequentemente em desacordo com a dos vizinhos à mesa.
O padrão já estava evidente no ano passado, quando o Brasil sediou a cúpula como país rotativo do bloco. Xi Jinping, o líder chinês que havia impulsionado a expansão do Brics em 2023 segundo sua própria visão, simplesmente não compareceu. Desta vez, o comparecimento é mais robusto, mas ainda marcado por ausências significativas. Luiz Inácio Lula da Silva não estará presente, ocupado com sua campanha à reeleição no Brasil; o chanceler Mauro Vieira o representará. Dos quatro fundadores do bloco em 2009—Brasil, Rússia, Índia e China—apenas Lula faltará. Estarão presentes o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, cujo país deu o S ao acrônimo em 2010, além de alguns dos novos membros incorporados em 2023.
O ponto mais delicado da reunião envolve o Irã e os Emirados Árabes Unidos, dois membros cuja relação é tudo menos amigável. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian virá a Nova Déli para projetar uma imagem de apoio internacional enquanto seu país enfrenta confronto militar com os Estados Unidos. Xi e Vladimir Putin apoiam o Irã, mas a Índia não. Pior ainda: os Emirados Árabes Unidos, que se tornaram membro do bloco, romperam relações comerciais com a teocracia iraniana após se tornarem alvo de retaliação iraniana contra aliados americanos no Golfo Pérsico. O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed, estará sentado à mesma mesa que Pezeshkian. Essa tensão já bloqueou um comunicado conjunto do Brics este ano, e o Kremlin manifestou temor de que o mesmo ocorra agora na Índia.
O encontro ganha relevância política particular com a presença de Xi em solo indiano pela primeira vez em sete anos. Trata-se de mais um movimento no complexo balé entre as potências nucleares asiáticas, especialmente após escaramuças fronteiriças que quase escalaram para conflito real nos últimos anos. Narendra Modi, o anfitrião, já havia visitado a China e se encontrado com Xi na cúpula do Brics em Kazan, na Rússia, em 2024. Mas Modi também articula uma rede de alianças militares com países desconfiados das intenções chinesas no Indo-Pacífico, mantendo viva a ameaça de bloqueio a rotas marítimas. Espera-se um encontro bilateral entre Modi e Xi, algo que não ocorreu quando ambos estiveram na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai no Quirguistão há uma semana, onde Modi encontrou-se com Putin e Putin com Xi, mas os dois líderes asiáticos não se encontraram.
Putin chegou a Nova Déli na sexta-feira e já se reuniu com Modi. Sua prioridade é manter aberto o canal de exportação de petróleo russo para a Índia, que se tornou, junto com a própria Índia, a tábua de salvação do setor energético de Moscou sob sanções por causa da Guerra da Ucrânia. No fórum empresarial da cúpula, que ocorre oficialmente no sábado e domingo, Putin aproveitou para fazer proselitismo, acusando o Ocidente de engendrar ataques a oleodutos e instalações petrolíferas de países do Brics para retomar sua hegemonia econômica. Referia-se aos ataques com drones da Ucrânia contra refinarias russas e, presumivelmente, aos bombardeios americanos contra o Irã, embora tenha poupado Donald Trump, com quem se reaproximou numa tentativa do republicano de mediar algum acordo entre Moscou e Kiev.
Para o Brasil, a cúpula é mais uma oportunidade de passar em branco ou repassar o discurso nacionalista diante de Trump. Será abordada a questão da integração de meios de pagamento digital entre os países do Brics, algo de difícil execução, mas que só de ser debatido garantirá irritação em Washington. Trump enxerga o bloco como uma frente hostil aos Estados Unidos, e não está completamente errado na retórica. Na prática, porém, cada país mantém sua própria linha de diálogo e interesses com os americanos: a Índia tem relação estreita com Washington, enquanto o Irã está em guerra com os EUA. Essa é a verdadeira natureza do Brics—não uma aliança unificada, mas um espaço onde potências rivais se encontram e fingem concordância enquanto perseguem objetivos que frequentemente se contradizem.
Citations marquantes
O bloco existe menos como aliança coerente e mais como espaço onde potências com interesses conflitantes fingem falar com uma só voz— análise da dinâmica do Brics