Em um país onde a aposentadoria representa, para muitos, a única renda estável, a escolha de quem administra esses recursos carrega um peso que vai além das finanças. Na quinta-feira, 24 de outubro, Crefisa e Banco Mercantil venceram o leilão que definirá a gestão dos depósitos do INSS de 2025 a 2029, garantindo prioridade no crédito consignado aos novos aposentados — um mercado que movimenta bilhões e toca a vida de milhões de brasileiros. A disputa, porém, não terminou no pregão: uma batalha judicial questiona se essa concentração de preferência serve ao interesse público ou fere a livre con
Crefisa e Mercantil vencem leilão da folha do INSS; nova regra segue contestada
O banco vencedor tem uma vantagem inicial que nem todo aposentado vai contornar
Por que o INSS decidiu fazer um leilão assim, concentrando tanto poder em duas instituições?
O instituto argumenta que está buscando aumentar a concorrência e arrecadar mais recursos — R$ 15 bilhões em quatro anos. Mas a estrutura do pregão, onde quem oferece mais lance ganha prioridade, naturalmente favorece quem tem mais capital para investir.
E essa regra do consignado sem bloqueio de 90 dias — por que os bancos contestam?
Porque muda o jogo completamente. Hoje, há um período de espera antes de você poder pegar empréstimo. A nova regra elimina isso para os bancos vencedores. Significa mais clientes, mais rápido, mais lucro. Os bancos que não venceram veem isso como injusto.
Mas o aposentado não pode simplesmente mudar de banco?
Pode, mas só depois do primeiro saque. E há uma fricção aí — você precisa fazer um pedido, ir à agência. Nem todo mundo vai se dar ao trabalho. O banco vencedor tem uma vantagem inicial real.
A Crefisa ganhou 25 de 26 lotes. Isso não é concentração demais?
É. E reflete o poder financeiro dela. Ofereceu muito mais que o lance mínimo. Mas também mostra que o mercado de consignado é lucrativo — vale a pena investir pesado para ganhar.
E se a Justiça anular essa regra do consignado?
O leilão continua válido — a gestão da folha de pagamento segue. Mas a vantagem competitiva que a Crefisa e o Mercantil ganhariam desaparece. Voltamos ao bloqueio de 90 dias para todos.
Il Polso
- A Crefisa dominou o leilão ao arrematar 25 dos 26 lotes disponíveis, consolidando um poder de mercado que preocupa concorrentes e alimenta a disputa nos tribunais.
- Uma liminar do TRF-1, obtida pela Associação Brasileira de Bancos uma semana antes do pregão, suspendeu a regra que elimina o bloqueio de 90 dias para consignado nos bancos vencedores — deixando o resultado do leilão em compasso de espera jurídico.
- O INSS recorreu da liminar, teve o pedido negado, mas promete levar a disputa até a última instância, argumentando que o modelo beneficia a sociedade e não distorce a concorrência.
- Aposentados atuais não são afetados — a mudança vale apenas para quem começar a receber benefícios a partir de janeiro de 2025, e mesmo esses poderão migrar livremente para outros bancos após o primeiro saque.
- O instituto projeta arrecadar R$ 15 bilhões com a gestão da folha nos próximos quatro anos, enquanto o mercado aguarda o desfecho judicial que definirá se as novas regras do consignado de fato vigorarão.
Em um país onde a aposentadoria representa, para muitos, a única renda estável, a escolha de quem administra esses recursos carrega um peso que vai além das finanças. Na quinta-feira, 24 de outubro, Crefisa e Banco Mercantil venceram o leilão que definirá a gestão dos depósitos do INSS de 2025 a 2029, garantindo prioridade no crédito consignado aos novos aposentados — um mercado que movimenta bilhões e toca a vida de milhões de brasileiros. A disputa, porém, não terminou no pregão: uma batalha judicial questiona se essa concentração de preferência serve ao interesse público ou fere a livre concorrência.
Na quinta-feira, 24 de outubro, Crefisa e Banco Mercantil saíram vencedores do leilão que determinará quem gerencia os depósitos de benefícios do INSS entre 2025 e 2029. A Crefisa conquistou 25 dos 26 lotes disponíveis; o Mercantil ficou com o lote de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A vitória garante a ambos prioridade na oferta de crédito consignado para novos aposentados que passarem a receber a partir de 2 de janeiro de 2025.
O pregão ocorreu em meio a turbulências jurídicas. Uma semana antes, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região concedeu liminar à Associação Brasileira de Bancos, suspendendo a regra criada pelo INSS em agosto que elimina o bloqueio de 90 dias para consignado nos bancos vencedores. O INSS recorreu, mas teve o pedido negado. O mérito da questão ainda será julgado, e o presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, afirmou que o órgão vai recorrer até a última instância, defendendo que o modelo atende ao interesse da sociedade.
A mudança não afeta quem já é aposentado: os atuais beneficiários continuam recebendo nos bancos onde estão e podem transferir suas contas livremente. O novo aposentado, ao receber seu primeiro benefício, deverá sacar na agência do banco vencedor em sua região — mas pode solicitar transferência logo em seguida. O INSS estima conceder 437 mil benefícios mensais e espera arrecadar R$ 15 bilhões com a gestão da folha ao longo de quatro anos.
Ao todo, 25 instituições financeiras participaram do processo. Em São Paulo, a Crefisa ofereceu R$ 85,63 por segurado — quase quatro vezes o lance mínimo de R$ 22,32. O Banco Mercantil, apesar de ter ficado com apenas um lote, terminou em segundo ou terceiro lugar em outros 21, o que lhe garante atuação preferencial em boa parte do país. Com mais de 300 agências e 8 milhões de clientes, o banco afirmou estar preparado para operar sob qualquer desfecho judicial. A disputa legal sobre as regras do consignado segue aberta, e com ela, o futuro do modelo que acaba de ser desenhado.
Na quinta-feira, 24 de outubro, a Crefisa e o Banco Mercantil saíram vencedores de um leilão que vai determinar quem gerencia os depósitos de benefícios do INSS pelos próximos cinco anos. A Crefisa conquistou 25 dos 26 lotes disponíveis. O Mercantil ficou com o lote que abrange Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Essa vitória lhes garante prioridade na oferta de crédito consignado — aquele empréstimo com desconto direto no benefício — para os novos aposentados que começarem a receber a partir de 2 de janeiro de 2025.
O leilão, tecnicamente chamado de pregão por se tratar de uma licitação de serviço e não de venda de produto, foi realizado em meio a uma batalha judicial. Uma semana antes, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região havia concedido uma liminar a pedido da Associação Brasileira de Bancos que suspendeu os efeitos de uma nova regra do consignado criada pelo INSS em agosto. Essa regra é o cerne da disputa: ela elimina o bloqueio de 90 dias para empréstimos consignados nos bancos vencedores do leilão, mas apenas para aposentadorias concedidas a partir de janeiro de 2025. O INSS já recorreu da decisão, mas teve seu pedido negado pelo desembargador Paulo Zuniga Dourado, que será o relator do caso. Como se trata de uma decisão provisória, o mérito ainda não foi julgado.
O instituto espera arrecadar R$ 15 bilhões com essa gestão da folha de pagamento ao longo dos próximos quatro anos. A mudança, porém, afeta apenas quem vai se aposentar a partir de 2025. Os atuais beneficiários continuam recebendo nos bancos onde já estão e podem transferir suas contas livremente para qualquer instituição que ofereça melhores condições. Quando um novo aposentado recebe seu primeiro benefício, ele é obrigado a sacar na agência do banco vencedor do leilão naquela região. Depois disso, pode solicitar a transferência para outra instituição.
Ao todo, 25 bancos e instituições financeiras se habilitaram para participar do processo. O pregão funcionou como uma lista de preferência: quem oferecia o maior lance ganhava a prioridade naquele lote, seguido pelo segundo e terceiro colocados. Em São Paulo, por exemplo, a Crefisa ofereceu R$ 85,63 por segurado — bem acima do lance mínimo de R$ 22,32 — e conquistou a preferência. Os 26 lotes foram divididos conforme microrregiões geográficas, com São Paulo distribuído em quatro deles.
Bruno Simão, vice-presidente de clientes, crescimento e marketing do Banco Mercantil, destacou que sua instituição ficou em segundo lugar em 13 lotes e em terceiro em outros oito, totalizando 21 lotes onde poderá atuar preferencialmente. O banco possui mais de 300 agências no país, cerca de 8 milhões de clientes e é o quinto maior pagador de benefícios previdenciários, com foco no público acima de 50 anos. Simão afirmou estar preparado para operar sob qualquer cenário, independentemente do desfecho judicial da norma contestada.
O consignado permite que aposentados e pensionistas comprometam até 45% de sua renda mensal — 35% com empréstimo pessoal, 5% com cartão de crédito e 5% com cartão de benefício — com parcelas que podem se estender por até 84 meses. O INSS estima conceder 437 mil benefícios mensais, dos quais 46% são permanentes e 54% temporários, com valor médio atual de R$ 1.824,67.
O presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, declarou à Folha que o órgão vai recorrer até a última instância disponível. Seu argumento é que o leilão, tal como foi estruturado, atende ao interesse da sociedade e não prejudica a livre concorrência — justamente o ponto que a Associação Brasileira de Bancos questiona na Justiça. No leilão anterior, realizado em 2019 e válido até o final de 2024, seis bancos saíram vencedores: Santander, Mercantil do Brasil, Itaú, Agibank, BMG e Crefisa. Agora, com essa nova configuração, o cenário se concentra ainda mais, enquanto a disputa legal sobre as regras do consignado segue em aberto.
Citazioni salienti
O INSS vai recorrer até a última instância que lhe couber, porque acredita que o leilão foi desenhado no interesse da sociedade e não prejudica a livre concorrência— Alessandro Stefanutto, presidente do INSS
A gente está acostumado a trabalhar com as novas instruções normativas feitas ao longo do tempo. O importante é assegurar o melhor atendimento e a melhor condição para esse cliente— Bruno Simão, vice-presidente do Banco Mercantil