Quando os preços do combustível atingem máximos históricos, os condutores respondem com um instinto antigo: encher o depósito antes que a fatura suba ainda mais. Em França, esse comportamento coletivo, amplificado pela política de preços fixos da Total, esvaziou cerca de um quinto dos postos de abastecimento numa semana. Portugal observa a crise vizinha com abastecimento garantido até outubro, mas com um paradoxo inquietante: os preços sobem, e o consumo também.
Corrida aos preços fixos da Total seca postos em França; Portugal tem riscos
Os preços fixos atraem em massa, mas esgotam o stock
Porque é que a Total fixou estes preços tão baixos se sabia que ia custar centenas de milhões de euros?
Porque o Governo francês estava a considerar uma taxa extraordinária sobre os lucros. A Total duplicou os lucros para mais de 11 mil milhões de euros — era um alvo óbvio. O presidente executivo avisou que se o imposto avançasse, acabava com o teto. Os preços fixos são uma forma de demonstrar responsabilidade social e evitar a tributação.
Mas isso é especulação sobre intenção. O que sabemos é que a empresa fixou preços e que isso custou dinheiro. O resto é interpretação.
E porque é que isso causa escassez? Se há combustível, porque é que as bombas ficam vazias?
Porque quando os preços estão fixos e mais baixos do que noutros sítios, toda a gente quer abastecer lá. É uma corrida. As bombas da Total não conseguem acompanhar a procura, e as pessoas que abasteciam noutras gasolineiras mudam-se para a Total. Isto esgota o stock mais depressa.
Mas o ministro disse que 91% das ruturas eram na Total. Isso significa que a Total tem um problema de logística ou que simplesmente não consegue repor o stock tão depressa quanto a procura cresce?
Provavelmente ambas as coisas. Mas também há fatores externos — a França importa combustível, e a falta de água nos rios está a afetar o transporte por barco.
E Portugal? Estamos em risco?
A Galp diz que tem abastecimento assegurado até outubro e que a refinaria está a produzir em pleno. Mas há um problema: o consumo de combustíveis continua a subir apesar dos preços altos. As pessoas continuam a encher o depósito.
Espera — o consumo subiu 4% em gasolina e 1% em gasóleo? Com preços recordes?
Sim. Isso é preocupante porque sugere que a procura não está a responder aos preços como seria de esperar. Se os preços continuarem a subir e as pessoas continuarem a consumir, a pressão sobre os stocks pode intensificar-se.
Então Portugal está a monitorizar isto?
A ministra do Ambiente apelou à poupança. Mas o abastecimento está assegurado por enquanto — os stocks estratégicos estão cheios e as refinarias produzem em pleno.
Le Pouls
- Cerca de 17% dos postos franceses ficaram sem stock de pelo menos um combustível, com 91% das ruturas concentradas na rede da Total, que fixou preços abaixo do mercado para escapar a um imposto extraordinário sobre lucros.
- A corrida às bombas da Total — atraindo clientes de supermercados e outras cadeias — transformou uma estratégia empresarial numa crise logística nacional em poucos dias.
- Paris respondeu com medidas de emergência: extensão do prazo de venda do gasóleo de verão e um pedido direto de Macron à Comissão Europeia para flexibilizar normas ambientais sobre refinação.
- Em Portugal, os preços são ligeiramente mais baixos e o abastecimento está assegurado até ao final de outubro, com a refinaria de Sines a operar em pleno e reservas de jet fuel acima do nível do ano anterior.
- O sinal de alerta português é silencioso mas persistente: apesar da escalada de preços, o consumo de gasolina subiu 4% e o de gasóleo 1% até julho, sugerindo que a procura não cede perante o custo.
Quando os preços do combustível atingem máximos históricos, os condutores respondem com um instinto antigo: encher o depósito antes que a fatura suba ainda mais. Em França, esse comportamento coletivo, amplificado pela política de preços fixos da Total, esvaziou cerca de um quinto dos postos de abastecimento numa semana. Portugal observa a crise vizinha com abastecimento garantido até outubro, mas com um paradoxo inquietante: os preços sobem, e o consumo também.
A França vive uma crise de abastecimento que não se resolve com mais petróleo — resolve-se com preços mais baixos. Na semana em que os combustíveis atingiram máximos históricos na Europa, cerca de um quinto dos postos franceses ficou sem stock. O epicentro é a rede da Total, onde mais de 80% das estações registaram ruturas: a empresa fixou um teto de preços há cinco meses — gasóleo a 2,25 euros, gasolina abaixo dos 2 euros — numa decisão que custou entre 250 e 300 milhões de euros e atraiu em massa os clientes de outras gasolineiras.
A medida foi simultaneamente uma resposta à crise no Golfo e uma jogada política. O presidente executivo Patrick Pouyanné deixou claro que, se o Governo francês aprovasse uma taxa extraordinária sobre os lucros — como Portugal fez —, o teto acabaria. Com lucros a duplicar para mais de 11 mil milhões de euros no primeiro semestre, a Total tornou-se um alvo óbvio para essa tributação. Na segunda-feira 17 de setembro, o ministro da Economia Roland Lescure confirmou que 91% das ruturas ocorreram na rede da petrolífera.
O Governo francês reagiu com medidas de curto prazo: extensão do prazo de venda do gasóleo de verão até novembro e um pedido de Macron à Comissão Europeia para flexibilizar normas ambientais sobre refinação. Lescure afastou um cenário de crise imediata — stocks estratégicos cheios, refinarias a pleno — mas admitiu que o prolongamento do conflito no Médio Oriente aumenta os riscos. A escassez de água nos rios franceses agrava ainda o transporte fluvial de combustíveis.
Em Portugal, o abastecimento está assegurado até ao final de outubro, com a Galp a garantir que a refinaria de Sines adapta a produção conforme as necessidades e que as reservas de jet fuel estão acima do nível do ano anterior. Os preços são ligeiramente inferiores aos franceses: 2,210 euros no gasóleo e 2,107 euros na gasolina. Mas há um paradoxo que a ministra Maria da Graça Carvalho não pode ignorar: apesar da enorme subida de preços, o consumo de gasolina cresceu 4% e o de gasóleo 1% até julho. A procura não recua. Se os preços continuarem a subir e os condutores continuarem a encher o depósito por antecipação, a pressão sobre os stocks portugueses pode intensificar-se mais depressa do que os números atuais sugerem.
A França enfrenta uma crise de abastecimento que não se resolve com mais combustível — resolve-se com preços mais baixos. Na semana em que a gasolina e o gasóleo atingiram máximos históricos em toda a Europa, cerca de um quinto dos postos de retalho franceses ficou sem stock de pelo menos um combustível. A situação é particularmente aguda na rede da Total, a maior petrolífera do país, onde mais de 80% das estações registaram ruturas. O padrão é claro: quando os preços sobem, os condutores correm às bombas para encher o depósito antes da fatura aumentar ainda mais. Desta vez, porém, há um fator que amplifica o problema.
A Total fixou um teto de preços há cerca de cinco meses — gasóleo a 2,25 euros por litro, gasolina abaixo dos 2 euros — uma decisão que custou à empresa entre 250 e 300 milhões de euros. A medida foi uma resposta à escalada de preços causada pela crise no Golfo, mas também uma estratégia política. O presidente executivo Patrick Pouyanné deixou claro que se o Governo francês aprovasse uma taxa extraordinária sobre os lucros, como Portugal fez, a empresa acabaria com o teto. A Total duplicou os lucros para mais de 11 mil milhões de euros no primeiro semestre, tornando-se um alvo óbvio para a tributação. Os preços fixos atraem em massa os clientes de outras gasolineiras, particularmente das grandes cadeias de supermercados que eram os principais vendedores de combustíveis em França. Na segunda-feira 17 de setembro, o ministro da Economia Roland Lescure confirmou que 17% das mais de 9.000 estações de serviço do país tinham défice de pelo menos um combustível — e 91% dessas ruturas ocorreram na rede da Total.
O Governo francês respondeu com medidas de curto prazo. O gasóleo de verão, cujas especificações são menos exigentes, pode agora continuar a ser vendido até novembro em vez de terminar em outubro. Emmanuel Macron escreveu à Comissão Europeia pedindo o alívio de normas regulamentares sobre combustíveis aplicáveis à indústria refinadora, muitas delas fundamentadas em objetivos ambientais. Lescure afastou por enquanto um cenário de crise no abastecimento — os stocks estratégicos estão cheios, as refinarias produzem em pleno, e não haverá problemas nos próximos dois meses. Mas reconheceu que o prolongamento do conflito no Médio Oriente aumenta os riscos de aprovisionamento.
A pressão no mercado francês não resulta apenas da política comercial da Total. A França importa parte dos combustíveis que consome, particularmente gasóleo, e a falta de água em muitos rios está a ter impacto no transporte por barco. Curiosamente, apesar da maior pressão sobre os preços do gasóleo, é a gasolina o combustível que mais falta em França.
Em Portugal, a situação é diferente mas não isenta de riscos. O preço médio do gasóleo está nos 2,210 euros por litro e o da gasolina nos 2,107 euros — ambos abaixo dos preços franceses. A Galp garante que a refinaria de Sines reforça a produção de jet fuel ou diesel conforme as necessidades do mercado nacional, e que as importações estão asseguradas até ao final de outubro. Durante a paragem programada para manutenção de uma das unidades ao longo de outubro, as necessidades de jet e diesel continuarão cobertas. A ministra do Ambiente e Energia Maria da Graça Carvalho afastou em particular a falta de combustível para aviação, cujas reservas estão atualmente acima do nível do ano anterior.
Mas há um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Apesar da enorme subida dos preços este ano, o consumo de combustíveis em Portugal continua a subir. De acordo com dados da Direção-Geral de Energia e Geologia, o consumo de gasolina subiu 4% até julho e o de gasóleo cresceu 1%, face ao mesmo período do ano passado. O grosso deste acréscimo concentrou-se nos primeiros três meses do ano, mas a partir de abril a procura não mostra o recuo que seria de esperar perante a escalada constante dos preços. A ministra apelou à poupança no uso de combustíveis. O abastecimento está assegurado por enquanto, mas a dinâmica de consumo sugere que a pressão sobre os stocks pode intensificar-se se os preços continuarem a subir e os condutores continuarem a encher o depósito antes de cada novo aumento.
Citations marquantes
Se o imposto especial avançar, acaba com o teto aos preços— Patrick Pouyanné, presidente executivo da Total
Os stocks estratégicos estão cheios, as refinarias estão a produzir em pleno e não haverá problemas nos próximos dois meses— Roland Lescure, ministro da Economia francês