Num país onde as mortes no trânsito voltaram a crescer após uma década de avanços, o Conselho Nacional de Trânsito formalizou novos procedimentos para detectar álcool e drogas ao volante — práticas que alguns estados já adotavam, mas que agora ganham força de lei nacional. A medida chega como resposta a uma reversão inquietante: após queda de 30% entre 2010 e 2019, as mortes ligadas ao álcool subiram 15% nos cinco anos seguintes. Mais do que uma atualização técnica, a resolução levanta uma questão mais ampla sobre o que uma sociedade deve fazer para proteger suas estradas — e quem nelas circul
Contran atualiza Lei Seca com novas regras de fiscalização
Álcool residual na boca desaparece quando se aguarda e repete o teste
Por que o Contran sentiu necessidade de formalizar agora um procedimento que alguns estados já usavam há anos?
Porque a falta de regulamentação nacional criava inconsistência. Um condutor poderia ser testado de um jeito em São Paulo e de outro no Rio. A formalização garante que o procedimento seja o mesmo em todo o país, o que também protege o condutor contra testes mal feitos.
E essa história do álcool residual—é realmente um problema comum?
Mais do que se imagina. Enxaguante bucal, alguns doces, até certos medicamentos deixam álcool na boca. O pré-teste pegaria isso. Sem a segunda etapa, um motorista sóbrio poderia ser condenado injustamente.
Os números mostram que as mortes caíram muito entre 2010 e 2019, mas depois subiram. O que mudou?
A pandemia acelerou algo que já estava acontecendo: mais pessoas usando motos para trabalhar, especialmente em entregas. Moto é muito mais frágil que carro. Um acidente que um carro absorve, a moto não absorve.
Então a Lei Seca sozinha não resolve?
Não. A lei é importante, mas é só uma peça. Você precisa de transporte público melhor, de vias mais seguras, de educação. Se as pessoas tivessem ônibus decente, não precisariam arriscar a vida em moto.
E quanto aos testes de drogas? Isso é novo?
Não é novo, mas agora é obrigatório e regulado. A diferença é que um teste positivo para droga não basta sozinho—tem que haver sinais de que a pessoa está realmente alterada. Evita condenações por uso que não afeta a direção.
O Pulso
- As mortes no trânsito brasileiro, que haviam recuado por quase uma década, voltaram a subir 15% entre 2019 e 2024, pressionando o poder público a agir.
- A expansão acelerada das motocicletas para entregas e transporte urbano colocou nas ruas um contingente crescente de condutores altamente vulneráveis a acidentes fatais.
- O novo protocolo em duas etapas — etilômetro passivo seguido de bafômetro convencional — busca eliminar falsos positivos e dar mais precisão jurídica às autuações.
- Testes para outras drogas agora exigem evidência de alteração psicomotora, e exames passam a ser obrigatórios em todo acidente com morte.
- Especialistas alertam que as novas regras, por mais rigorosas que sejam, terão alcance limitado sem investimentos paralelos em transporte público, infraestrutura viária e educação para o trânsito.
Num país onde as mortes no trânsito voltaram a crescer após uma década de avanços, o Conselho Nacional de Trânsito formalizou novos procedimentos para detectar álcool e drogas ao volante — práticas que alguns estados já adotavam, mas que agora ganham força de lei nacional. A medida chega como resposta a uma reversão inquietante: após queda de 30% entre 2010 e 2019, as mortes ligadas ao álcool subiram 15% nos cinco anos seguintes. Mais do que uma atualização técnica, a resolução levanta uma questão mais ampla sobre o que uma sociedade deve fazer para proteger suas estradas — e quem nelas circula mais vulnerável.
O Conselho Nacional de Trânsito formalizou mudanças na Lei Seca que modernizam a forma como a polícia detecta e comprova a direção sob influência de álcool e drogas. Desde 2008, quando a lei entrou em vigor com tolerância zero, alguns estados e a Polícia Rodoviária Federal já usavam procedimentos de triagem em duas etapas. Agora, essas práticas ganham regulamentação nacional.
O novo protocolo começa com um pré-teste usando o etilômetro passivo, aproximado da boca do condutor para detectar sinais de álcool no ar expirado. Esse resultado, porém, não basta para caracterizar a infração: se positivo, aplica-se o bafômetro convencional, que mede a quantidade real de álcool ingerido. A estrutura em duas fases reduz os falsos positivos causados por álcool residual — de enxaguante bucal ou bombons de licor, por exemplo. Em caso de dúvida, aguarda-se um intervalo e repete-se o teste.
Para outras drogas, um resultado positivo isolado também não é suficiente: é preciso comprovar sinais de alteração psicomotora. A resolução torna obrigatórios os exames em acidentes com morte e determina que todos os resultados alimentem bases de dados nacionais. Há ainda um ajuste processual para quem recusa o teste, evitando dupla autuação na mesma abordagem.
As mudanças chegam num momento de alerta. Entre 2010 e 2019, as mortes atribuídas ao álcool caíram 30%, de 7,7 para 5,4 por 100 mil habitantes. De 2019 a 2024, houve reversão: alta de 15%, chegando a 6,2 por 100 mil. Parte desse aumento está ligada à pandemia e à expansão das motocicletas no transporte urbano — veículos que expõem seus condutores a riscos muito maiores.
A Lei Seca é ferramenta essencial, mas especialistas advertem que sem ações complementares — melhoria do transporte público, tecnologia de fiscalização, redesenho de vias e educação para o trânsito — as novas regras terão alcance limitado diante da complexidade do problema.
O Conselho Nacional de Trânsito acaba de formalizar um conjunto de mudanças na Lei Seca que moderniza a forma como a polícia detecta e prova a direção sob influência de álcool e drogas. Desde 2008, quando a lei entrou em vigor com tolerância zero, alguns estados e a Polícia Rodoviária Federal já vinham usando procedimentos de triagem em duas etapas. Agora, essas práticas ganham regulamentação nacional, trazendo mais rigor e precisão ao processo de fiscalização.
O novo protocolo começa com um pré-teste realizado com o etilômetro passivo, um aparelho aproximado da boca do condutor que detecta rapidamente sinais de álcool no ar expirado. Esse resultado inicial, porém, não é suficiente para caracterizar a infração. Se o pré-teste for positivo, o policial aplica então o etilômetro convencional, o bafômetro, que mede a quantidade real de álcool ingerido. Essa estrutura em duas fases reduz drasticamente os falsos positivos que podem ocorrer por causa de álcool residual na boca—aquele que vem de enxaguante bucal, bombom de licor ou outras fontes que não representam consumo real de bebida. Quando há dúvida, aguarda-se um período e repete-se o teste com o bafômetro; se for apenas álcool residual, a leitura desaparece ou cai significativamente.
Outra inovação importante é a expansão dos testes para detectar outras drogas. Mas aqui também há uma salvaguarda: um resultado positivo isoladamente não basta para provar a infração. É necessário que haja sinais comprovados de alteração na capacidade psicomotora do condutor. A resolução também torna obrigatórios os exames de álcool e drogas em qualquer condutor envolvido em acidente com morte, reforça procedimentos em outros tipos de acidentes e determina que todos os resultados alimentem bases de dados nacionais.
Há ainda uma mudança processual importante: a resolução ajusta as regras para quem se recusa a fazer o teste, evitando que a mesma pessoa seja autuada duas vezes na mesma abordagem—uma vez por dirigir sob influência e outra por recusar o exame. A punição pela recusa, com multa e possível suspensão do direito de dirigir, continua em vigor.
Essas mudanças chegam num momento em que os números do trânsito brasileiro mostram um padrão preocupante. Entre 2010 e 2019, o número de mortes atribuídas ao álcool caiu 30%, passando de 7,7 para 5,4 por 100 mil habitantes. Mas de 2019 a 2024, houve uma reversão: alta de 15%, chegando a 6,2 por 100 mil. Pesquisa da ONG Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, baseada em dados do DataSUS, documenta essa trajetória.
Parte desse aumento está ligada à pandemia e à expansão acelerada do uso de motocicletas para transporte e serviços de entrega. Motociclistas são muito mais vulneráveis a acidentes graves e fatais do que motoristas de carros. A Lei Seca é ferramenta essencial para conter essa violência, mas o poder público também precisa atuar em outras frentes: melhorar o transporte público, investir em sistemas tecnológicos de fiscalização, redesenhar vias urbanas e rurais, e intensificar educação para o trânsito. Sem essas ações complementares, as novas regras do Contran, por mais rigorosas que sejam, terão alcance limitado.
Citações Notáveis
A Lei Seca é crucial para conter a violência no trânsito, mas o poder público também precisa atuar na melhoria do transporte público e de sistemas tecnológicos de fiscalização— Análise editorial