Construção sustentável deixa de ser tendência para se tornar exigência em Portugal

Quanto custa não construir de forma sustentável?
A questão central que o setor português precisa de responder para acelerar a transformação.
Mark

Quando é que a sustentabilidade deixou de ser uma opção e passou a ser obrigatória?

Mimi

Quando a regulamentação europeia e as metas de descarbonização deixaram de ser promessas distantes e se tornaram prazos reais. Os investidores também mudaram — agora veem eficiência energética como valorização de ativos, não como custo.

Mark

Mas há um fosso entre o que é possível fazer e o que realmente se faz. Porquê?

Mimi

Porque muitas das soluções existem, mas não chegam às obras. Há falta de formação, de sensibilização, e a invisibilidade do desperdício — uma fuga numa conduta de ar não se vê, mas custa milhares de euros por ano.

Mark

Então o problema é principalmente de implementação, não de tecnologia?

Mimi

Exatamente. A tecnologia está lá. O desafio é integrar tudo — isolamento, climatização, ventilação — como um sistema único, não como peças independentes. E convencer o setor de que o investimento inicial compensa.

Mark

Como é que um edifício mais caro no início se torna mais barato depois?

Mimi

Um edifício eficiente consome menos energia, exige menos manutenção, oferece melhores condições de conforto. Um sistema de climatização ineficiente custa 1.055 euros por ano; um eficiente custa 50. Multiplica por 30 anos de vida útil.

Mark

E a reabilitação? É viável em larga escala?

Mimi

É a grande oportunidade. Portugal tem imenso edificado antigo, construído antes das regras modernas. Melhorar isolamento, substituir sistemas, reduzir perdas — tudo isto é possível e necessário. Mas precisa de incentivos consistentes e fiscalização real.

Mark

O que muda nos próximos anos?

Mimi

Digitalização, BIM, inteligência artificial, construção leve. Mas também uma mudança de mentalidade — deixar de perguntar quanto custa construir bem e começar a perguntar quanto custa não o fazer.

  • Sistemas AVAC eficientes reduzem custos anuais de 1.055 para 50 euros
  • Construção leve pode reduzir 40% do tempo de execução e 70% da logística
  • Portugal tem sete unidades de produção e centro de I&D em Aveiro
  • Investimento previsto de 12 mil milhões de euros até 2030 em construção sustentável

Soluções como sistemas AVAC eficientes podem reduzir custos anuais de 1.055 para 50 euros, compensando investimento inicial de 5-10% em construção sustentável. Reabilitação do parque edificado existente é oportunidade crucial, com Portugal possuindo grande volume de edifícios pré-regulamentação energética moderna.

Portugal acelera transformação do setor da construção com novas tecnologias e regulamentação europeia, reduzindo tempo de execução em 40% e custos operacionais, mas enfrenta fosso entre capacidade técnica e implementação real.

A construção em Portugal está numa encruzilhada. Não é mais uma questão de escolha — a regulamentação europeia, as metas de descarbonização e a pressão dos investidores transformaram a sustentabilidade numa exigência do presente. Mas entre o que o setor sabe fazer e o que efetivamente faz nas obras existe um fosso considerável, um vazio que custa milhares de euros por ano e toneladas de emissões desnecessárias.

Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal, identifica o problema com precisão: a sustentabilidade deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade, mas Portugal ainda tem caminho a percorrer. O país reúne condições para assumir uma posição de referência nesta transformação, mas o parque edificado existente — grande parte construído antes das atuais exigências de eficiência energética — permanece como um lastro de ineficiência. Isolamento deficiente, consumos elevados, sistemas técnicos obsoletos. Tudo isto num contexto onde é preciso construir mais habitação, acelerar a reabilitação e reduzir a pegada ambiental simultaneamente, tudo com escassez de mão de obra qualificada.

A análise da sustentabilidade, defende Amorena, não pode ficar-se pela eficiência energética durante o uso do edifício. Tem de abranger o ciclo de vida completo: os materiais utilizados, o carbono incorporado, a circularidade, a qualidade do ar interior, o conforto térmico e acústico. É uma visão integrada onde isolamento, sistemas de climatização, ventilação, iluminação e envolvente funcionam como componentes de um mesmo sistema, não como peças independentes. O desafio é particularmente complexo porque a sustentabilidade não pode tornar a habitação ainda mais cara. Algumas soluções representam um acréscimo de 5% a 10% face à construção convencional, mas essa diferença compensa-se pelos menores custos de exploração ao longo das décadas de vida útil do edifício. A pergunta que importa fazer não é quanto custa construir de forma sustentável, mas quanto custa não o fazer.

Os números revelam a dimensão do problema. Um estudo técnico da Saint-Gobain mostra que as perdas energéticas associadas a sistemas de climatização pouco eficientes podem ultrapassar os 7.000 kWh anuais num edifício de serviços com 200 metros quadrados — o equivalente a cerca de 1.055 euros por ano. Com soluções de maior estanquidade, as perdas baixariam para aproximadamente 330 kWh, ou cerca de 50 euros anuais. Isoladamente, parece um detalhe técnico. Multiplicado por anos de utilização e por milhares de edifícios, deixa de o ser. O desperdício está frequentemente em zonas invisíveis: as fugas nas condutas de ar são imperceptíveis para quem utiliza o edifício, mas traduzem-se em mais energia consumida, maiores custos de operação e emissões desnecessárias. A invisibilidade não significa irrelevância.

A reabilitação do parque existente é a grande oportunidade. Portugal tem uma parte significativa do seu edificado construída antes das regras modernas de eficiência energética, o que abre uma frente de intervenção de grande dimensão. Melhorar isolamento, substituir sistemas de climatização, reduzir perdas na distribuição de ar, aumentar a qualidade das instalações — tudo isto pode produzir resultados mensuráveis. Mas a regulamentação por si só não chega. É necessária uma combinação de regulamentação, fiscalização e sensibilização. A revisão da Diretiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios deverá elevar ainda mais os níveis de exigência, mas a eficácia das regras dependerá também da sua aplicação real em obra.

O setor está a entrar numa nova fase marcada pela digitalização e industrialização. BIM, inteligência artificial no projeto e operação dos edifícios, pré-fabricação e monitorização permanente do desempenho energético ganharão peso nos próximos anos. A construção leve emerge como tendência, pela capacidade de combinar produtividade, eficiência e sustentabilidade. O sistema Enveo, desenvolvido pela Saint-Gobain, exemplifica esta abordagem: pode reduzir cerca de 40% o tempo de execução e até 70% da logística em obra. A descarbonização terá também de deixar de olhar apenas para o consumo energético durante a utilização. O carbono incorporado nos materiais, a reutilização, reciclagem e circularidade ganham cada vez maior importância.

A eficiência energética está a ganhar peso económico real. Promotores imobiliários e investidores começam a olhar para o desempenho energético como um fator de valorização dos ativos, não apenas como uma obrigação ambiental. Edifícios energeticamente eficientes apresentam maior valorização no mercado, menores custos de exploração e maior atratividade para investidores, empresas e utilizadores finais. A lógica ESG contribui para esta mudança, mas a questão central continua a ser demonstrar o retorno do investimento — a lógica do custo total do ciclo de vida, um paradigma que o setor ainda está a incorporar.

Portugal, apesar da dimensão relativamente pequena do seu mercado, tem importância estratégica para grupos como a Saint-Gobain. O país conta com sete unidades de produção, mais de 600 colaboradores e um centro de investigação e desenvolvimento em Aveiro que trabalha em materiais de construção, eficiência energética, sustentabilidade, processos industriais e economia circular. Portugal não é apenas um mercado onde as soluções são comercializadas, mas um polo de conhecimento que contribui para a evolução tecnológica. No fim, a questão é menos tecnológica do que parece. Muitas das soluções para reduzir consumos, emissões e custos já existem. O desafio está em colocá-las no projeto, na obra e, sobretudo, nas decisões de investimento. A pergunta mais incómoda para o setor talvez não seja quanto custa construir melhor, mas quanto custa continuar a construir sem o fazer.

A sustentabilidade já não pode ser avaliada apenas pela eficiência energética durante a utilização do edifício — tem de abranger todo o ciclo de vida
— Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal
Mais do que perguntar quanto custa construir de forma sustentável, importa perguntar quanto custa não o fazer
— Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal
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