Consenso científico alerta: canetas emagrecedoras exigem acompanhamento multidisciplinar

Pacientes podem sofrer desnutrição, perda de massa muscular, deficiências nutricionais e impactos psicológicos como ansiedade, depressão e transtornos alimentares sem acompanhamento adequado.
Não adianta perder peso de qualquer jeito. É importante que essa perda seja com qualidade
Endocrinologista explica por que acompanhamento multidisciplinar é essencial durante tratamento com canetas emagrecedoras.
Mark

Por que um consenso científico sobre canetas emagrecedoras agora, em 2026? Esses medicamentos não existem há anos?

Mimi

Existem, mas nunca foram tão amplamente usados. O que mudou é a escala — e com ela, a realidade clínica. Médicos começaram a ver padrões que não esperavam. Pacientes perdendo peso rapidamente, mas desenvolvendo deficiências nutricionais. Outros relatando mudanças emocionais profundas.

Mark

Qual é o erro mais comum que as pessoas cometem ao usar essas canetas?

Mimi

Achar que a medicação resolve tudo sozinha. Que basta tomar a injeção e o problema desaparece. Mas quando o apetite cai drasticamente, você precisa ser muito intencional sobre o que come. Menos comida significa que cada refeição precisa contar mais.

Mark

E a questão psicológica? Como é possível que perder peso cause problemas emocionais?

Mimi

Porque a comida não é apenas combustível. Para muitas pessoas, ela é ritual, conforto, conexão social, forma de lidar com emoções. Quando tudo isso desaparece de repente, fica um vazio. Alguns pacientes descrevem como perder parte da identidade.

Mark

Então o consenso está dizendo que esses medicamentos são perigosos?

Mimi

Não. Está dizendo que são poderosos e exigem respeito. Usados corretamente, com acompanhamento de médicos, nutricionistas, psicólogos, podem transformar vidas. Usados sozinhos, sem orientação, podem criar novos problemas.

Mark

Qual é a recomendação mais importante que saiu desse consenso?

Mimi

Que ninguém deveria usar essas canetas sem acompanhamento multidisciplinar. Não é opcional. É essencial. A medicação é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior.

  • Consenso publicado em julho de 2026 na The Lancet Diabetes & Endocrinology por três entidades europeias
  • Recomendação mínima de 60 gramas de proteína diária e 25 gramas de fibras para evitar perda de massa muscular
  • Medicamentos como semaglutida e tirzepatida modificam profundamente a relação emocional com comida
  • Pacientes podem desenvolver deficiências de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco

Perda rápida de peso sem orientação pode levar a deficiências nutricionais, perda de massa muscular e desidratação, especialmente entre idosos. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida modificam profundamente a relação com comida, podendo gerar efeitos psicológicos como perda de identidade e dificuldade emocional.

Consenso publicado na The Lancet alerta para riscos nutricionais, musculares e psicológicos do uso de canetas emagrecedoras sem acompanhamento multidisciplinar adequado.

As canetas emagrecedoras transformaram o tratamento da obesidade em poucos anos, oferecendo uma ferramenta poderosa contra o excesso de peso. Mas essa mesma potência traz um risco frequentemente ignorado: o emagrecimento acelerado, quando não acompanhado adequadamente, pode comprometer não apenas a nutrição e os músculos do corpo, mas também a saúde mental do paciente. Essa é a conclusão central de um consenso publicado em julho na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, elaborado por três entidades europeias — a Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, a Federação Europeia dos Nutricionistas e a Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade — após revisão completa da literatura científica disponível até 2025.

Os medicamentos em questão incluem a semaglutida (conhecida comercialmente como Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro), fármacos que atuam no sistema de regulação do apetite. Pela primeira vez, especialistas em endocrinologia, nutrição, psicologia e fisioterapia se uniram para estabelecer recomendações práticas sobre como acompanhar esses pacientes adequadamente. O ponto central é simples mas frequentemente negligenciado: não basta perder peso. É preciso perder peso com qualidade. "Muitas pessoas achavam que bastava usar essas drogas e estava tudo resolvido. Mas não adianta perder peso de qualquer jeito", explica Fabio Moura, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. "É importante que essa perda seja com qualidade, para garantir uma boa saúde."

O desafio prático é real. Quando o apetite diminui drasticamente, os pacientes naturalmente comem menos — mas frequentemente comem pior. Reduzem a ingestão de proteínas, vitaminas, minerais e fibras, levando a consequências que vão além da balança. A perda de massa muscular é uma delas, particularmente preocupante em idosos. O risco de desnutrição aumenta. A capacidade funcional do corpo se compromete. Para evitar isso, o consenso recomenda que pacientes consumam no mínimo 60 gramas de proteína diariamente, distribuídas ao longo das refeições, e pelo menos 25 gramas de fibras por dia para reduzir a constipação, um dos efeitos colaterais mais frequentes. A hidratação também importa: muitos pacientes perdem a sede junto com o apetite, aumentando o risco de desidratação. O consumo recomendado é de 2 a 2,5 litros de água diariamente.

Outro ponto crítico é o monitoramento de nutrientes específicos. Pessoas com obesidade frequentemente já apresentam deficiências de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco antes mesmo de iniciar o tratamento. A redução importante da ingestão alimentar pode agravar essas carências. Quando a ingestão calórica cai abaixo de 1.200 calorias por dia, suplementação com multivitamínicos pode ser necessária. Os efeitos colaterais — náuseas, vômitos, refluxo, diarreia, prisão de ventre — não devem levar à interrupção imediata do tratamento, mas sim ser manejados através de aumento mais lento da dose, ajustes temporários na medicação e adaptações na alimentação.

Mas o consenso vai além da nutrição. Um capítulo inteiro é dedicado à saúde mental, reconhecendo que esses medicamentos modificam profundamente a relação das pessoas com a comida. Alguns pacientes relatam desaparecimento da "fome emocional" e redução do que chamam de "ruído alimentar" — aquele impulso constante de comer. Isso pode parecer positivo, mas traz consequências inesperadas. A comida não é apenas fonte de energia; ela ativa circuitos de prazer no cérebro e está profundamente ligada à vida social e familiar. Quando essa função desaparece, podem surgir sensações de perda de identidade, dificuldade para lidar com emoções e vazio existencial. "A comida estava profundamente ligada à vida social e familiar. Quando a pessoa deixa de usar a comida dessa forma, outras questões emocionais podem aparecer", observa Guilherme Giorelli, nutrólogo e professor do Hospital Israelita Albert Einstein.

O consenso também alerta para a necessidade de investigar sintomas de ansiedade, depressão e transtornos alimentares em pacientes sob tratamento. Esses não são efeitos colaterais raros ou negligenciáveis — são possibilidades reais que exigem preparação e acompanhamento. A mensagem final dos especialistas é clara: o objetivo do tratamento deve ser mais amplo do que atingir um número específico na balança. Saúde é bem-estar físico, mental e social. A medicação é uma ferramenta poderosa, mas apenas uma ferramenta dentro de um processo maior de mudança de hábitos e construção de uma vida equilibrada. Sem esse acompanhamento multidisciplinar, o risco não é apenas de complicações nutricionais — é de trocar um problema de saúde por outro.

Muitas pessoas achavam que bastava usar essas drogas e estava tudo resolvido. Mas não adianta perder peso de qualquer jeito. É importante que essa perda seja com qualidade, para garantir uma boa saúde.
— Fabio Moura, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Nunca tivemos medicamentos tão potentes para tratar obesidade. Quem come menos, precisa comer melhor. É necessário muito mais atenção.
— Guilherme Giorelli, nutrólogo e professor do Hospital Israelita Albert Einstein
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