Estudos da Universidade de Oxford e outros centros confirmam que misturar vacinas de plataformas diferentes (vetor viral com mRNA) produz mais anticorpos e células T. Argentina, Espanha, Alemanha e Coreia do Sul já implementam combinações de vacinas para resolver problemas de abastecimento e efeitos colaterais de certas inoculações.
Combinação de vacinas contra Covid-19 se mostra eficaz e promissora em estudos globais
Sete vezes mais anticorpos com a combinação certa
Por que os países começaram a misturar vacinas? Parecia arriscado.
Não era escolha. Espanha, Alemanha, França — todos limitaram a AstraZeneca para maiores de 60 anos por causa de coágulos. Centenas de milhares de pessoas já tinham recebido a primeira dose e ficaram sem opção clara para a segunda. A Argentina tinha um problema ainda pior: 6 milhões de pessoas esperando a segunda dose da Sputnik V que nunca chegava.
E funcionou? Ou foi só um improviso que deu certo por acaso?
Os dados foram surpreendentes. Oxford testou AstraZeneca seguida de Pfizer em 850 pessoas. Gerou mais anticorpos e mais células T do que duas doses de AstraZeneca. A Espanha viu a mesma coisa: sete vezes mais anticorpos com a combinação. Coreia do Sul confirmou. Não era acaso — era biologia.
Mas por que uma vacina de vetor viral combinada com mRNA funciona melhor?
Porque são plataformas completamente diferentes. O adenovírus entrega as instruções de um jeito. O RNA mensageiro entrega de outro. Quando o corpo vê duas abordagens distintas, monta uma resposta imunológica mais ampla. É como treinar um soldado com dois mestres diferentes — ele aprende mais.
A Angela Merkel tomou isso?
Sim. AstraZeneca na primeira, Moderna na segunda, em junho. A Alemanha se tornou um dos principais promotores da estratégia. Quando a chanceler faz algo assim publicamente, manda uma mensagem clara de confiança.
E quanto às variantes? Por que isso importa agora?
Porque as variantes estão mudando o vírus. A delta é mais transmissível. Especialistas acreditam que uma resposta imunológica mais ampla — a que você consegue misturando vacinas — oferece proteção melhor contra essas mutações. É como ter um escudo com mais padrões de defesa.
Der Puls
- Estudo Com-COV1 da Universidade de Oxford com 850 voluntários
- Argentina com 6 milhões aguardando segunda dose da Sputnik V
- Combinação AstraZeneca-Pfizer gerou 7 vezes mais anticorpos que duas doses de AstraZeneca (Espanha)
- Coreia do Sul confirmou 6 vezes mais anticorpos neutralizantes com a combinação
- Angela Merkel recebeu AstraZeneca e depois Moderna em junho de 2021
Estudos da Universidade de Oxford e outros centros confirmam que misturar vacinas de plataformas diferentes (vetor viral com mRNA) produz mais anticorpos e células T. Argentina, Espanha, Alemanha e Coreia do Sul já implementam combinações de vacinas para resolver problemas de abastecimento e efeitos colaterais de certas inoculações.
Pesquisas globais demonstram que combinar diferentes vacinas contra Covid-19 é seguro e frequentemente mais eficaz, gerando resposta imunológica superior e potencialmente melhor proteção contra variantes.
Em agosto de 2021, enquanto o mundo acumulava 4,8 bilhões de doses de vacinas contra a Covid-19 aplicadas, uma estratégia começava a ganhar força nos laboratórios e nas clínicas: misturar vacinas de fabricantes diferentes. O que parecia improvável meses antes — trocar a segunda dose de uma vacina por outra completamente distinta — estava se mostrando não apenas seguro, mas potencialmente superior em gerar proteção contra o coronavírus.
A necessidade nasceu de problemas práticos. Vários países, entre eles Espanha, Alemanha e França, haviam limitado o uso da AstraZeneca a pessoas acima de 60 anos após relatos de coágulos sanguíneos em um pequeno número de vacinados. Isso deixou centenas de milhares de pessoas que já haviam recebido a primeira dose sem uma segunda dose clara. Simultaneamente, a Argentina enfrentava uma crise de abastecimento: cerca de 9 milhões de cidadãos receberam a primeira dose da Sputnik V russa, mas apenas 2,5 milhões conseguiram a segunda, deixando mais de 6 milhões aguardando — muitos deles já passado o intervalo recomendado de três meses. Diante desses obstáculos, pesquisadores começaram a investigar se era possível simplesmente trocar de vacina na segunda dose.
Os resultados foram notáveis. A Universidade de Oxford, que desenvolveu a AstraZeneca, liderou um estudo chamado Com-COV1 com 850 voluntários acima de 50 anos, combinando AstraZeneca com Pfizer. Quando a primeira dose era AstraZeneca e a segunda era Pfizer, o corpo produzia mais anticorpos e mais células T — as células imunes que destroem patógenos — do que quando ambas as doses eram AstraZeneca. A Espanha chegou a conclusão semelhante: com 676 participantes, o estudo CombiVacs mostrou que a segunda dose de Pfizer multiplicava os anticorpos por sete, comparado a apenas três vezes quando se usava AstraZeneca duas vezes. Na Coreia do Sul, em julho, outro ensaio com 499 profissionais de saúde confirmou que a combinação AstraZeneca-Pfizer gerava seis vezes mais anticorpos neutralizantes do que duas doses de AstraZeneca.
O mecanismo por trás dessa eficácia reside na diversidade de plataformas. A AstraZeneca usa um vetor viral — um adenovírus de chimpanzé enfraquecido — para entregar instruções ao corpo. A Pfizer e a Moderna usam RNA mensageiro, uma sequência genética criada em laboratório que ensina as próprias células humanas a se protegerem. Quando combinadas, essas abordagens diferentes parecem estimular uma resposta imunológica mais robusta. A Alemanha, sob liderança da chanceler Angela Merkel — que pessoalmente recebeu AstraZeneca na primeira dose e Moderna na segunda, em junho — tornou-se um dos principais promotores dessa estratégia. A Universidade de Oxford expandiu a pesquisa com um segundo estudo, Com-COV2, envolvendo 1.050 voluntários para testar combinações ainda mais variadas, incluindo Novavax.
Na América Latina, a Argentina liderou a adaptação dessa estratégia para resolver seu próprio impasse com a Sputnik V. Após um mês de testes preliminares, a ministra da Saúde Carla Vizzotti anunciou em 4 de agosto resultados "satisfatórios" e "encorajadores". O país começou a oferecer àqueles que receberam a primeira dose da Sputnik V a possibilidade de completar a vacinação com AstraZeneca — cujo princípio ativo era fabricado em Buenos Aires — ou com Moderna, após os Estados Unidos doarem 3,5 milhões de doses. A combinação com a Sinopharm, vacina chinesa também amplamente usada na Argentina, não produziu resultados conclusivos e foi descartada por enquanto.
O Fundo Russo de Investimento Direto, que comercializa a Sputnik V globalmente, não apenas aprovou a estratégia como reivindicou ter sido pioneiro. Segundo a agência, abordou a AstraZeneca em novembro de 2020 para conduzir estudos colaborativos sobre combinações, embora os testes tenham sido interrompidos e reiniciados em 2021, com resultados finais esperados para março de 2022. O RDIF destacou que a própria Sputnik V já era pioneira ao usar duas doses diferentes — um adenovírus 26 seguido de um adenovírus 5 — uma complexidade que, segundo os fabricantes, explicava parcialmente os atrasos na produção.
Especialistas veem nessa abordagem uma ferramenta potencial contra as variantes emergentes do coronavírus, particularmente a delta. Pierre Meulien, diretor executivo da Iniciativa de Medicamentos Inovadores da União Europeia, argumentou que misturar vacinas induz uma resposta imunológica mais ampla para cobrir as variantes que surgem em diferentes regiões. Frédéric Martinon, imunologista do Instituto Nacional Francês de Pesquisas Médicas e de Saúde, sugeriu que a combinação de vacinas dificultaria a circulação de variantes ou o surgimento de novas. Michelle Roberts, editora de saúde da BBC, observou que os ensaios britânicos indicavam que uma possível terceira dose poderia ser preferível se usasse uma marca de vacina diferente das duas primeiras injeções. Havia, porém, um custo: misturar vacinas produzia mais efeitos colaterais de curto prazo, como calafrios, dores de cabeça e dores musculares.
No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan, responsável pela produção final da CoronaVac no país, ainda avaliavam a possibilidade de um reforço vacinal. Em julho, o ministério anunciou que iniciaria um estudo inédito para avaliar a necessidade de uma terceira dose para quem havia recebido CoronaVac. A estratégia de combinar vacinas — conhecida cientificamente como vacinação heteróloga, uma prática que remontava aos anos 1990 quando foi testada contra o HIV — estava deixando de ser experimental e se tornando política de saúde pública em vários continentes.
Bemerkenswerte Zitate
Os coquetéis de vacinas terão um papel decisivo no combate às mutações— Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF), via Twitter
Os resultados preliminares foram satisfatórios e encorajadores— Carla Vizzotti, ministra da Saúde da Argentina, em 4 de agosto de 2021