Coaf identifica transação suspeita de 12,3 milhões de dólares em investigação sobre filme de Bolsonaro

O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Se a empresa brasileira a enviar não tiver aquele grande orçamento, será problemático.
Eduardo Bolsonaro orienta sobre como movimentar milhões de dólares para evitar parecer suspeito às autoridades.
Mark

Por que um filme sobre Bolsonaro virou uma investigação de lavagem de dinheiro?

Mimi

Porque o dinheiro que financiou o filme veio de um banqueiro cujo banco estava sendo investigado, e a forma como o dinheiro foi movimentado — em parcelas, através de empresas de fachada, com orientações sobre como evitar parecer suspeito — levantou bandeiras vermelhas para o Coaf.

Mark

Flávio Bolsonaro pediu o dinheiro ou apenas o recebeu?

Mimi

Ele pediu. As mensagens mostram que Flávio procurou Vorcaro, solicitou os pagamentos e depois cobrou diretamente a liberação das parcelas. Não era um investimento passivo — ele estava gerenciando o processo.

Mark

E quanto a Eduardo Bolsonaro? Qual era o seu papel?

Mimi

Ele parecia estar orientando como o dinheiro deveria ser movimentado para não parecer suspeito. A conversa dele com Thiago Miranda sugere que ele entendia os riscos e estava ajudando a estruturar as transferências de forma mais discreta.

Mark

O que os investigadores estão tentando descobrir agora?

Mimi

Principalmente duas coisas: quem realmente se beneficiou do dinheiro — se foi realmente para o filme ou para despesas pessoais — e se houve alguma contrapartida política, como leis ou proposições legislativas que favorecessem o banco de Vorcaro.

Mark

Por que o STF não autorizou quebras de sigilo ainda?

Mimi

Porque a investigação está começando. A polícia quer primeiro reunir mais evidências do material que já tem, para apresentar um caso mais sólido ao STF. Se fizerem medidas muito invasivas cedo demais e depois não conseguirem provar nada, a investigação pode ser anulada.

  • O ministro André Mendonça autorizou formalmente a investigação, transformando suspeitas em apuração oficial com peso institucional do STF.
  • Uma movimentação de 12,3 milhões de dólares entre empresa ligada ao banqueiro Vorcaro e o fundo do filme Dark Horse acendeu o alerta do Coaf e colocou múltiplos nomes na mira da PF.
  • Uma captura de tela de conversa entre Eduardo Bolsonaro e o publicitário Thiago Miranda sugere orientação direta sobre como remeter recursos aos Estados Unidos de forma fracionada — indício que os investigadores tratam como central.
  • A PGR busca agora rastrear se proposições legislativas de Flávio Bolsonaro e Mario Frias beneficiaram o Banco Master, tentando provar a contrapartida política que ainda não foi encontrada.
  • Por ora, o STF não autorizou quebras de sigilo bancário ou fiscal, e a PF adota uma estratégia gradual para construir fundamentos sólidos antes de pedir medidas mais invasivas.

Em um país onde política, dinheiro e imagem pública se entrelaçam de formas nem sempre transparentes, a Polícia Federal recebeu autorização do Supremo Tribunal Federal para investigar o senador Flávio Bolsonaro por suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção ligadas ao financiamento de uma cinebiografia de seu pai. No centro do caso estão 12,3 milhões de dólares que teriam transitado entre uma empresa do banqueiro Daniel Vorcaro e um fundo destinado ao filme Dark Horse, atraindo a atenção do Coaf. A investigação levanta uma questão que transcende o caso em si: até onde vai a fronteira entre o patrocínio legítimo e a troca de favores quando o poder familiar e o poder financeiro se encontram.

A Polícia Federal ganhou autorização oficial nesta quinta-feira para investigar o senador Flávio Bolsonaro por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento da cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro. A decisão partiu do ministro André Mendonça, do STF, e inclui também o deputado Eduardo Bolsonaro, o deputado Mario Frias, o publicitário Thiago Miranda e outros envolvidos na estrutura financeira do filme Dark Horse.

O gatilho da investigação foi uma movimentação de 12,3 milhões de dólares identificada pelo Coaf em um Relatório de Inteligência Financeira. O dinheiro teria saído da empresa Entre Investimentos, ligada ao ecossistema do banqueiro Daniel Vorcaro, e chegado à Havengate Development Fund LP, fundo que administrava os recursos do filme. O financiamento total previsto era de 24 milhões de dólares, mas não está confirmado se esse valor chegou a ser integralmente transferido.

Um elemento que chama atenção dos investigadores é uma conversa capturada em tela entre Eduardo Bolsonaro e Thiago Miranda, na qual o deputado orienta sobre como movimentar os recursos. Eduardo sugere que remessas ao Brasil sem orçamento declarado seriam problemáticas e que seria necessário fazê-las aos poucos, ao longo de cerca de seis meses. Essa mensagem chegou a Vorcaro e, posteriormente, aos investigadores. A PF quer entender se Eduardo tinha controle formal sobre a Havengate ou atuava como intermediário — e se parte do dinheiro bancou despesas pessoais dele nos Estados Unidos, onde mora há mais de um ano.

A hipótese de corrupção ainda carece de prova concreta: até agora, a PGR não encontrou contrapartida formal oferecida pela família Bolsonaro a Vorcaro. Para preencher essa lacuna, foi pedido um levantamento das proposições legislativas de Flávio e Frias que possam ter atendido a interesses do Banco Master. A investigação avança de forma deliberadamente gradual — sem quebras de sigilo por enquanto — para garantir que eventuais pedidos futuros ao STF estejam bem fundamentados e não sejam anulados.

A Polícia Federal recebeu luz verde nesta quinta-feira para investigar oficialmente o senador Flávio Bolsonaro em um caso que envolve milhões de dólares, um filme sobre seu pai e suspeitas de que o dinheiro pode ter sido lavado. A autorização veio do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e abre caminho para apurar se o filho primogênito do ex-presidente, junto com seu irmão Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias, cometeram crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

No centro da investigação está uma transação de 12,3 milhões de dólares — o equivalente a cerca de 63 milhões de reais na cotação atual — que chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. O dinheiro teria saído da empresa Entre Investimentos, ligada ao ecossistema do banqueiro Daniel Vorcaro, e chegado à Havengate Development Fund LP, um fundo que administrava os recursos destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro, conhecida como Dark Horse. O Coaf identificou essa movimentação em um Relatório de Inteligência Financeira, um documento que sinaliza transações atípicas ou suspeitas.

O parecer que a Procuradoria-Geral da República apresentou ao STF não deixa claro se os 12,3 milhões de dólares representam uma única transferência ou várias, nem informa quando exatamente o dinheiro foi movimentado. O documento menciona um financiamento total previsto de 24 milhões de dólares para o filme, mas não confirma se todo esse valor foi efetivamente transferido. Junto com Flávio, também passaram a ser formalmente investigados seu irmão Eduardo, o deputado Mario Frias, o empresário e publicitário Thiago Miranda, e a dupla Altieris Santana e Paulo Calixto, que administrava a Havengate. Calixto, além de sócio da empresa, é advogado de Eduardo Bolsonaro. Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel também entram na investigação, ambos já envolvidos em outras apurações.

Um dos elementos que os investigadores pretendem aprofundar é o papel de Eduardo Bolsonaro na gestão do dinheiro. Segundo fontes com acesso ao caso, existe uma captura de tela de uma conversa entre o deputado e Thiago Miranda na qual Eduardo orienta sobre como os recursos deveriam ser movimentados. Ele menciona que seria mais fácil se o dinheiro já estivesse nos Estados Unidos, onde ele mora há mais de um ano, e sugere que se a empresa brasileira enviasse os valores para lá sem um orçamento grande declarado, seria problemático — seria necessário fazer as remessas aos poucos, o que levaria cerca de seis meses. Essa mensagem foi compartilhada com Daniel Vorcaro e acabou chegando aos investigadores.

A hipótese que a Polícia Federal e a PGR estão investigando é que Eduardo orientou a gestão dos recursos, embora ainda não esteja claro se ele tinha poder formal sobre a Havengate ou se atuava apenas como intermediário dos donos da empresa. Uma das questões centrais será descobrir quem, na prática, decidia como os milhões de dólares seriam gastos e quem eram os beneficiários reais dos pagamentos. Os investigadores suspeitam que parte do dinheiro pode ter bancado despesas pessoais de Eduardo nos Estados Unidos.

Outro ponto crítico é a possibilidade de corrupção. A documentação examinada pela PGR não encontrou, até agora, nenhuma contrapartida oferecida pela família Bolsonaro ao grupo de Vorcaro em troca do financiamento. Para investigar isso, a PGR pediu um levantamento das proposições legislativas apresentadas por Flávio Bolsonaro e Mario Frias que possam ter atendido a interesses do Banco Master, a instituição de Vorcaro.

Por enquanto, o STF não autorizou quebras de sigilo bancário ou fiscal, novas requisições ao Coaf, ou outras medidas consideradas mais invasivas. Isso não significa que essas ações estejam descartadas. É provável que a Polícia Federal primeiro reúna elementos adicionais do material já apreendido em investigações relacionadas ao Banco Master e, se encontrar indícios mais sólidos, volte ao STF para solicitar acesso a contas, dados fiscais, comunicações ou depoimentos. Essa abordagem gradual busca reduzir o risco de a investigação ser anulada no futuro por falta de fundamentação adequada.

As informações sobre Flávio procurar Vorcaro, solicitar e cobrar pagamentos para o filme foram divulgadas pelo site Intercept Brasil em maio deste ano. Mensagens trocadas entre Flávio, Thiago Miranda e Vorcaro indicam que o filho do ex-presidente entrou nas negociações no final de 2024 e, ao longo de 2025, passou a cobrar diretamente a liberação de parcelas para o filme, mesmo quando o Banco Master já estava sob escrutínio da Justiça.

O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos.
— Eduardo Bolsonaro, em mensagem a Thiago Miranda
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