Na abertura do debate geral da Assembleia das Nações Unidas, catorze nações latino-americanas anunciaram a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas — um gesto que diz tanto sobre a geometria política do continente quanto sobre a natureza do crime organizado. Alinhados à administração Trump sob a bandeira do Escudo das Américas, esses governos transformaram uma prioridade americana em causa regional, deixando à margem os países que discordam dessa abordagem. Especialistas advertem, porém, que sem uma definição universal de terrorismo e sem um direito penal regional unificado,
Classificação de PCC e CV como terroristas é mais política que técnica, dizem especialistas
Cada país vai adaptar a decisão à sua própria legislação
Por que especialistas dizem que isso é mais político que técnico?
Porque a decisão não cria uma definição nova de terrorismo nem muda o direito internacional. É um posicionamento conjunto de 14 países alinhados com Trump, mostrando que estão na mesma página sobre combate ao crime. Tecnicamente, cada país ainda vai aplicar isso conforme sua própria lei.
Mas há consequências reais previstas —congelamento de ativos, restrições de vistos. Isso não é meramente simbólico.
Verdade. Mas essas medidas dependem de como cada legislação interna as traduz. Não há uma regra única.
E quanto ao risco de operações militares em outros países? Isso não é uma preocupação legítima?
É, mas o direito internacional já proíbe isso. O que a classificação faz é criar uma justificativa política, não uma autorização legal.
Exatamente. Os EUA já fizeram operações que especialistas consideraram ilegais. A classificação pode ser usada como argumento, mas não muda as regras sobre soberania.
Então o Brasil, que não assinou, está protegido?
Não exatamente. O Brasil pode sofrer pressões diplomáticas, mas não está vinculado à declaração. A questão é se vai adotar medidas similares internamente.
E isso depende de decisões políticas futuras do governo brasileiro, não de obrigações legais.
Der Puls
- Catorze governos latino-americanos surpreenderam até aliados ao anunciar, no palco da ONU, que tratariam o PCC e o CV como organizações terroristas — uma decisão que reconfigurou, em um só dia, o mapa político da segurança regional.
- A ausência de uma definição universal de terrorismo transforma a declaração em terreno pantanoso: cada país adaptará a medida à sua própria legislação, criando um mosaico jurídico de impacto ainda imprevisível.
- O temor mais concreto entre especialistas é o de que a classificação abra caminho para o uso da força em territórios estrangeiros, evocando operações americanas no Caribe e no Pacífico já consideradas ilegais pelo direito internacional.
- Juristas são enfáticos: a nova nomenclatura não suspende a Carta da ONU — soberania e proibição do uso da força permanecem intactas, e qualquer invocação de legítima defesa exige requisitos específicos e rigorosos.
- Politicamente, o movimento consolida um bloco conservador alinhado a Trump e isola os países dissidentes, transformando o combate ao narcotráfico em litmus test ideológico para a diplomacia hemisférica.
Na abertura do debate geral da Assembleia das Nações Unidas, catorze nações latino-americanas anunciaram a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas — um gesto que diz tanto sobre a geometria política do continente quanto sobre a natureza do crime organizado. Alinhados à administração Trump sob a bandeira do Escudo das Américas, esses governos transformaram uma prioridade americana em causa regional, deixando à margem os países que discordam dessa abordagem. Especialistas advertem, porém, que sem uma definição universal de terrorismo e sem um direito penal regional unificado, o peso real da medida ainda está por ser determinado — país por país, lei por lei.
Na terça-feira 22 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, catorze países latino-americanos anunciaram que classificariam o PCC e o CV como organizações terroristas. O anúncio, integrado ao primeiro dia de debate geral, surpreendeu até o Itamaraty e marcou o posicionamento do Escudo das Américas — aliança de governos conservadores formada sob a gestão Trump. Argentina, Colômbia, Chile, Equador, El Salvador e outros dez países signatários transformaram a bandeira antidrogas americana em uma causa regional, isolando diplomaticamente os que discordam dessa abordagem.
Para especialistas, a decisão é, neste momento inicial, mais uma manobra política do que uma conclusão técnica. O comunicado demonstra alinhamento com Washington, mas não cria um novo direito penal regional. Cada país adaptará a classificação à sua própria legislação interna — e é exatamente essa fragmentação que torna o impacto prático tão difícil de mensurar. Medidas como congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização de quem forneça apoio logístico às organizações estão entre as possibilidades, mas sua aplicação variará amplamente.
O nó central da questão é a inexistência de uma definição universalmente aceita de terrorismo ou de uma lista global de grupos terroristas. A Convenção Internacional de 1999 define ações terroristas, mas não estabelece o que constitui um grupo terrorista — lacuna que mantém a medida envolta em incerteza jurídica. O maior temor dos especialistas recai sobre o possível uso da força em território estrangeiro, evocando operações americanas no Caribe e na Venezuela já consideradas ilegais pelo direito internacional.
Juristas são categóricos: a classificação, por si só, não autoriza intervenções militares além-fronteiras. As regras da Carta da ONU sobre soberania e proibição do uso da força continuam plenamente vigentes. O que a declaração conjunta representa, acima de tudo, é um compromisso político — cuja implementação depende do direito interno de cada Estado — e uma mudança simbólica significativa: o tema deixa de ser apenas uma posição americana para ganhar dimensão continental.
Quatorze países latino-americanos surpreenderam até mesmo o Itamaraty ao anunciar, na terça-feira 22 de setembro durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, que classificariam o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. O anúncio integrou o primeiro dia de debate geral da assembleia e marcou o posicionamento de um bloco de nações alinhadas com a administração Trump em relação ao que se tornou sua prioridade regional: o combate ao narcotráfico. Os signatários da declaração —Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago— integram o Escudo das Américas, uma aliança de governos conservadores criada sob a gestão Trump.
Para especialistas consultados, a decisão representa antes uma manobra política do que uma conclusão técnica neste momento inicial. O comunicado conjunto demonstra que esses catorze países latino-americanos se alinham com a posição americana sobre como enfrentar a criminalidade organizada, transformando a bandeira de Trump em uma causa regional que deixa isolados os países que discordam dessa abordagem. O próprio presidente americano havia anunciado no final de maio que passaria a classificar o PCC e o CV como grupos terroristas.
As consequências jurídicas e práticas dessa classificação, porém, permanecem incertas. Entre as medidas que poderiam ser implementadas estão o congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material ou logístico a essas organizações. Apesar do impacto potencial, a nova nomenclatura não estabelece um "direito penal regional novo", segundo Lucas Lima, professor de direito internacional da Universidade Federal de Minas Gerais. Cada país, na verdade, adaptará a decisão conforme sua própria legislação interna —e essa variação é justamente o que torna a análise da medida tão complexa.
O problema fundamental reside na ausência de uma definição universalmente aceita de terrorismo ou de uma lista global de grupos terroristas. O que existe, conforme explica Lima, é a decisão de determinados Estados de classificarem certas organizações dessa maneira. O alcance exato dessa classificação, porém, dependerá da legislação de cada país. A Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento do Terrorismo, adotada em 1999 pela Assembleia Geral da ONU, define ações que seriam terroristas —aquelas que visam, por meio da violência, intimidar uma população ou compelir um governo a agir ou deixar de agir— mas não oferece definição sobre o que constitui um grupo terrorista. Essa lacuna é precisamente o que mantém a medida envolta em incerteza.
Um dos maiores temores entre especialistas diz respeito ao possível uso da força em territórios estrangeiros. Essa preocupação ganhou concretude após operações dos Estados Unidos nas águas do Caribe e do Pacífico, bem como após o ataque e captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela. Especialistas, porém, consideraram essas ações ilegais sob o direito internacional, que não permite ataques contra pessoas que não representem perigo iminente, a menos que se trate de combatentes inimigos —situação que não se aplicava às operações nas águas sul-americanas.
Lima é claro ao afirmar que a classificação, por si só, não autoriza o uso da força no território de outro Estado. As regras da Carta da ONU sobre soberania e proibição do uso da força continuam em vigor. Mesmo uma eventual invocação de legítima defesa teria de atender aos requisitos específicos do Direito Internacional. A declaração conjunta dos países representa um "compromisso político conjunto cuja implementação depende do direito interno de cada Estado", mas politicamente marca uma mudança significativa: o tema deixa de ser apenas uma posição americana e passa a ganhar dimensão regional, consolidando um alinhamento que isola os dissidentes.
Bemerkenswerte Zitate
A classificação, por si só, não autoriza o uso da força no território de outro Estado— Lucas Lima, professor de direito internacional da UFMG
A declaração conjunta dos países é um compromisso político cuja implementação depende do direito interno de cada Estado— Lucas Lima, professor de direito internacional da UFMG