Em meio à crescente popularidade dos medicamentos injetáveis para emagrecer, pesquisadores da Universidade de Nova York trouxeram à tona uma distinção que a medicina da obesidade não pode ignorar: após dois anos, a cirurgia bariátrica produz uma perda de peso quase cinco vezes maior do que remédios como o Ozempic. O estudo, que acompanhou mais de 140 mil pacientes, não condena nenhuma das abordagens, mas revela que a promessa dos medicamentos frequentemente se dissolve na realidade da baixa adesão. Como em tantas questões de saúde, a pergunta não é qual tratamento é melhor em abstrato, mas qua
Cirurgia bariátrica supera medicamentos como Ozempic em perda de peso
Não é competição entre remédio e cirurgia, mas encontrar o caminho certo
Por que a diferença entre 25,7% e 5,3% é tão grande? Não deveria ser menor?
Porque a cirurgia muda a mecânica do corpo — reduz o tamanho do estômago, altera como você absorve nutrientes. É uma mudança física permanente. O medicamento depende de você tomar todo dia, e a maioria das pessoas para.
Então o Ozempic não funciona?
Funciona, mas não da forma que os testes clínicos sugerem. Nos estudos controlados, as pessoas tomam a medicação. Na vida real, elas desistem. Setenta por cento abandonam antes de um ano.
Por quê? É efeito colateral?
Às vezes. Mas também é custo, é ter que lembrar de tomar todo dia, é o medicamento deixar de fazer efeito com o tempo. A cirurgia, uma vez feita, está feita.
Então por que não operam todo mundo?
Porque cirurgia é invasiva. Tem risco. Custa muito mais. E exige que você mude seus hábitos para sempre — não pode comer como antes. Nem todo mundo está pronto para isso.
O estudo foi financiado por uma sociedade de cirurgiões. Isso muda alguma coisa?
Muda a leitura que você faz. Não invalida os números, mas explica por que eles foram coletados dessa forma. É bom saber de quem é a mão que segura a caneta.
Qual é a resposta, então?
Não há uma. Depende de quem você é, quanto pode gastar, o quanto está disposto a mudar. A medicina deveria parar de procurar uma solução universal.
O Pulso
- A diferença de resultados é expressiva: pacientes operados perderam 25,7% do peso corporal, enquanto quem usou medicamentos perdeu apenas 5,3% em dois anos — um abismo que desafia a narrativa de que os novos remédios revolucionaram o tratamento da obesidade.
- Cerca de 70% dos pacientes abandonam os medicamentos antes de completar um ano, o que explica por que os resultados reais ficam muito aquém dos 15% a 21% prometidos pelos ensaios clínicos.
- Apesar da superioridade em perda de peso, a cirurgia bariátrica permanece subutilizada no Brasil, barrada por custos elevados, medo de complicações e falta de acesso a especialistas.
- Medicamentos como o Ozempic ainda têm espaço relevante: oferecem benefícios cardiovasculares e metabólicos específicos para pacientes com diabetes tipo 2 que a cirurgia não consegue replicar.
- O estudo foi financiado pela própria Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica, um detalhe que não invalida os dados, mas que especialistas pedem que seja considerado na leitura dos resultados.
Em meio à crescente popularidade dos medicamentos injetáveis para emagrecer, pesquisadores da Universidade de Nova York trouxeram à tona uma distinção que a medicina da obesidade não pode ignorar: após dois anos, a cirurgia bariátrica produz uma perda de peso quase cinco vezes maior do que remédios como o Ozempic. O estudo, que acompanhou mais de 140 mil pacientes, não condena nenhuma das abordagens, mas revela que a promessa dos medicamentos frequentemente se dissolve na realidade da baixa adesão. Como em tantas questões de saúde, a pergunta não é qual tratamento é melhor em abstrato, mas qual é o mais adequado para cada vida concreta.
Pesquisadores da Universidade de Nova York publicaram dados que reacendem um debate central na medicina da obesidade. Após dois anos de acompanhamento de mais de 140 mil pacientes, a conclusão é difícil de ignorar: quem passou por cirurgia bariátrica perdeu em média 25,7% do peso corporal, enquanto quem usou medicamentos como o Ozempic perdeu apenas 5,3%. A diferença é expressiva o suficiente para exigir uma conversa honesta sobre o que realmente funciona.
O estudo foi cuidadoso em comparar grupos com perfis semelhantes de idade, peso inicial e níveis de glicose. Ainda assim, a superioridade cirúrgica se manteve. Um dos pontos mais reveladores diz respeito à adesão: os ensaios clínicos prometem perdas de 15% a 21% com os novos remédios, mas na vida real cerca de 70% dos pacientes abandonam o tratamento antes de completar um ano. Sem continuidade, o efeito desaparece.
Isso não significa que os medicamentos sejam descartáveis. Cirurgiões da própria NYU ressaltam que remédios como o Ozempic oferecem benefícios cardiovasculares e metabólicos importantes, especialmente para pacientes com diabetes tipo 2 — vantagens que a cirurgia não consegue reproduzir da mesma forma. A questão, portanto, não é de rivalidade entre abordagens, mas de adequação a cada perfil.
No Brasil, a cirurgia bariátrica ainda é pouco acessada pelos pacientes elegíveis, freada por custos, medo de complicações e escassez de especialistas. A escolha entre operar ou medicar exige uma avaliação que vá além da eficácia teórica: é preciso considerar a capacidade real de adesão do paciente, o impacto financeiro e as condições de saúde que podem favorecer ou contraindicar cada caminho. O estudo foi apresentado no encontro anual da Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica — que também o financiou —, um detalhe que merece estar na conversa sem, contudo, invalidar seus achados.
Pesquisadores da Universidade de Nova York acabam de publicar números que reacendem um debate antigo na medicina da obesidade: qual tratamento funciona de verdade? A resposta, segundo o estudo, é clara demais para ser ignorada. Após dois anos de acompanhamento, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica perderam em média 25,7% do seu peso corporal. Aqueles que tomaram medicamentos como o Ozempic? Apenas 5,3%. A diferença não é marginal. É um abismo.
O trabalho analisou dados de mais de 122 mil pessoas que receberam prescrição de remédios redutores de apetite e cerca de 18 mil que se submeteram à cirurgia entre 2018 e 2024. Os pesquisadores foram cuidadosos em comparar maçãs com maçãs: selecionaram pacientes com perfis semelhantes de idade, peso inicial e níveis de glicose no sangue. Mesmo assim, a superioridade da intervenção cirúrgica emergiu com força. Mas há um detalhe que complica a história dos medicamentos. Os ensaios clínicos prometem perdas de 15% a 21% com essas drogas. Na vida real, porém, o resultado é bem menor. Avery Brown, residente em cirurgia da NYU, explica por quê: cerca de 70% dos pacientes simplesmente abandonam o tratamento medicamentoso antes de completar um ano. Sem adesão, não há efeito.
Isso não significa que os medicamentos sejam inúteis. Karan Chhabra, cirurgião bariátrico da mesma instituição, ressalta que essa não é uma competição entre duas abordagens, mas uma questão de encontrar o caminho certo para cada pessoa. O Ozempic e seus congêneres oferecem benefícios específicos, particularmente para pacientes com diabetes tipo 2: reduzem o risco de doenças cardíacas e ajudam no controle metabólico de forma que a cirurgia não consegue replicar. A cirurgia, por sua vez, entrega resultados de perda de peso muito mais robustos e duradouros.
No Brasil, porém, a cirurgia bariátrica permanece subutilizada. Uma pequena fração dos pacientes elegíveis opta pelo procedimento. As razões são conhecidas: custo elevado, medo de complicações cirúrgicas, falta de acesso a especialistas qualificados. A decisão entre medicamento e cirurgia exige, portanto, uma avaliação cuidadosa que considere não apenas a eficácia teórica, mas a disciplina que o paciente conseguirá manter após a operação, o impacto financeiro do tratamento e as condições de saúde individuais que podem contraindicar um ou outro caminho.
O estudo foi apresentado no encontro anual da Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica, e vale notar que essa mesma sociedade financiou a pesquisa — um detalhe que não invalida os achados, mas que merece estar na conversa. O que fica claro é que não existe uma resposta única para a obesidade. Existe, sim, a necessidade de uma conversa honesta entre médico e paciente sobre qual ferramenta faz mais sentido para aquela vida específica.
Citações Notáveis
Pacientes que buscam reduzir mais o peso podem precisar considerar a cirurgia como alternativa— Avery Brown, residente em cirurgia da NYU
Não se trata de uma competição entre remédio e cirurgia, mas de identificar a melhor abordagem para cada perfil de paciente— Karan Chhabra, cirurgião bariátrico da NYU