Alimentar pessoas é um ato de paz em zonas de conflito
Em outubro de 2020, o Comitê Norueguês do Nobel reconheceu no Programa Mundial de Alimentos uma das mais antigas e persistentes respostas da humanidade à sua própria vulnerabilidade: a fome. Fundado em 1962 a partir de um gesto que misturava altruísmo e interesse geopolítico, o PMA cresceu até se tornar uma das maiores operações logísticas humanitárias do mundo, presente onde guerras e desastres apagam a capacidade das pessoas de se alimentar. O prêmio chegou num momento de ironia sombria — quando a pandemia de COVID-19 ameaçava empurrar mais 130 milhões de pessoas para a fome, justamente quando os doadores que sustentam a organização enfrentavam suas próprias crises.
- Com mais de 821 milhões de pessoas em fome crônica e 135 milhões em insegurança alimentar aguda, o PMA opera no limite de sua capacidade em zonas de conflito como Iêmen, Síria e Sahel.
- A pandemia de COVID-19 ameaça adicionar 130 milhões de pessoas à fome global, transformando uma crise já grave em algo que a própria organização chama de 'pandemia de fome'.
- O PMA evoluiu de simples distribuição de alimentos para programas complexos que combinam vales-compra, dinheiro em espécie, educação nutricional e atenção especial a mulheres grávidas e crianças — mas essa sofisticação exige recursos crescentes.
- Com 17 mil funcionários e operações financiadas inteiramente por doações, a organização arrecadou 8 bilhões de dólares em 2019, mas seus porta-vozes reconhecem publicamente que esse montante já não é suficiente para o que está por vir.
Em outubro de 2020, a Academia Norueguesa anunciou que o Prêmio Nobel da Paz seria entregue ao Programa Mundial de Alimentos — uma organização que, por quase seis décadas, levou comida a territórios devastados por terremotos, secas, inundações e guerras.
O PMA nasceu em 1962 por iniciativa do presidente americano Dwight Eisenhower, que pediu à ONU uma agência dedicada à alimentação. Havia, nos bastidores, um interesse prático: escoar excedentes agrícolas americanos e ampliar influência nos países em desenvolvimento. Meses depois de sua fundação, um terremoto no norte do Irã matou doze mil pessoas — e o PMA respondeu com sua primeira grande operação de emergência. Em 1963, lançou seu primeiro programa de alimentação escolar.
Por volta de 2020, a organização havia se tornado uma máquina logística de escala impressionante: cinco mil e seiscentos caminhões, trinta navios e quase cem aeronaves em operação diária. Em regiões sem estradas, usava burros. No Iêmen, atendia dez milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda — a maior operação de emergência do mundo. Na Síria, mais de um milhão de mulheres e crianças recebiam assistência nutricional mensal.
O que diferenciava o PMA de outras agências era a sofisticação de sua abordagem. Ao longo das décadas, a organização deixou de simplesmente mover alimentos de um ponto a outro e passou a distribuir vales-compra, dinheiro em espécie e programas de educação nutricional — reconhecendo que a fome tem raízes tanto na falta de acesso quanto na falta de conhecimento.
Com dezessete mil funcionários e financiamento inteiramente baseado em doações governamentais, o PMA arrecadou oito bilhões de dólares em 2019. Mas o cenário de 2020 era sombrio: mais de 821 milhões de pessoas sofriam de fome crônica, e a pandemia de COVID-19 ameaçava adicionar 130 milhões a essa conta. O porta-voz Tomson Phiri reconheceu publicamente a necessidade urgente de mais recursos — mesmo sabendo que os doadores enfrentavam suas próprias crises econômicas. O Nobel chegou como reconhecimento, mas também como alerta.
Em outubro de 2020, a Academia Norueguesa anunciou que o Programa Mundial de Alimentos havia conquistado o Prêmio Nobel da Paz. A organização, com sede em Roma, havia operado por quase seis décadas em territórios devastados por terremotos, inundações, secas e guerras, levando comida e assistência nutricional a populações que não tinham como se alimentar.
A história do PMA começou em 1962, quando o presidente americano Dwight Eisenhower pediu à recém-formada Organização das Nações Unidas que criasse uma agência dedicada exclusivamente à alimentação. Nos bastidores, porém, havia um cálculo mais prático: o governo dos Estados Unidos queria escoar seus excedentes agrícolas e, ao mesmo tempo, fortalecer sua influência nos países em desenvolvimento. Poucos meses após sua fundação, um terremoto devastou o norte do Irã, matando doze mil pessoas. O PMA respondeu com sua primeira grande operação de emergência. Em 1963, lançou seu primeiro programa de alimentação escolar. Dois anos depois, foi integrado formalmente à estrutura das Nações Unidas.
Por volta de 2020, a organização havia se transformado em uma máquina logística de escala impressionante. Todos os dias, o PMA fretava o equivalente a cinco mil e seiscentos caminhões, trinta navios e quase cem aeronaves para mover alimentos e suprimentos. Em regiões remotas onde estradas não existiam, usava burros. Na Síria, mais de um milhão de mulheres e crianças menores de cinco anos recebiam assistência nutricional mensal. No Iêmen, a operação de emergência do PMA era a maior do mundo, atendendo a dez milhões de pessoas que viviam em insegurança alimentar aguda. A organização também operava na República Democrática do Congo, na Nigéria, em Burkina Faso, Mali, Níger e Sudão do Sul.
O que distinguia o PMA de outras agências humanitárias era a sofisticação de sua abordagem. Nos primeiros anos, sua tarefa era simples: pegar alimentos no ponto A e entregar no ponto B. Mas ao longo das décadas, evoluiu para programas que combinavam alimentação, educação e nutrição. Distribuía vales-compra e dinheiro em espécie, permitindo que as pessoas escolhessem o que comer. Treinava comunidades sobre higiene e prevenção de doenças. Reconhecia que crianças desnutridas sofriam tanto pela falta de acesso a comida quanto pela falta de conhecimento sobre como se alimentar bem. Mulheres grávidas e lactantes recebiam atenção especial. Tudo isso exigia coordenação constante com outras agências da ONU baseadas em Roma: a Organização para a Alimentação e Agricultura e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola.
Com dezessete mil funcionários espalhados pelo mundo, o PMA era inteiramente financiado por doações de governos. Em 2019, havia arrecadado oito bilhões de dólares. Dois terços de seu trabalho acontecia em zonas de conflito, onde a linha entre operações militares e humanitárias frequentemente se apagava. No Sahel, por exemplo, as organizações não-governamentais eram forçadas a operar com escoltas militares, complicando sua neutralidade e segurança.
Em 2020, porém, a situação global se deteriorava rapidamente. Mais de oitocentos e vinte e um milhões de pessoas sofriam de fome crônica. Outros cento e trinta e cinco milhões viviam em insegurança alimentar aguda. Nos quatro anos anteriores, esse número havia crescido quase setenta por cento. A pandemia de COVID-19 ameaçava adicionar mais cento e trinta milhões de pessoas a essa contagem, criando o que o PMA chamava de risco de uma "pandemia de fome". As regiões mais vulneráveis eram a América do Sul e a África Austral, Central e Ocidental. Tomson Phiri, porta-voz do PMA em Genebra, reconheceu publicamente que a organização precisava urgentemente de mais recursos dos doadores, mesmo sabendo que esses mesmos doadores estavam sob pressão extrema pelos impactos econômicos da crise sanitária em seus próprios países.
Notable Quotes
O PMA nasceu do desejo do governo americano de apoiar sua agricultura nacional, comprando os excedentes agrícolas nos Estados Unidos e distribuindo-os nos países em desenvolvimento— Funcionário do PMA
Precisamos urgentemente de apoio adicional dos doadores, que estão sob grande estresse com o impacto da pandemia em seus próprios países— Tomson Phiri, porta-voz do PMA em Genebra
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o PMA recebeu o Nobel da Paz e não, digamos, uma organização de direitos humanos ou de resolução de conflitos?
Porque fome é uma arma de guerra. Quando você controla a comida, controla as pessoas. O PMA trabalha em dois terços de suas operações em zonas de conflito. Alimentar pessoas é um ato de paz.
Mas o PMA nasceu de um cálculo americano sobre excedentes agrícolas, certo? Como isso se torna um prêmio de paz?
Sim, começou assim. Mas as intenções originais não importam tanto quanto o que a organização se tornou. Seis décadas depois, ela evoluiu para algo muito maior que seus próprios fundadores imaginaram.
A organização usa dinheiro em vez de apenas comida. Por quê?
Porque respeito. Se você dá comida, você decide o que a pessoa come. Se você dá dinheiro ou vales, a pessoa escolhe. É a diferença entre caridade e dignidade.
E quanto à pandemia? Parece que o PMA estava pedindo ajuda no momento exato em que os doadores tinham menos para dar.
Exatamente. É um paradoxo cruel. Quanto mais pessoas precisam, menos recursos disponíveis. O PMA alertava que poderíamos estar à beira de uma "pandemia de fome" — não apenas fome, mas fome em escala pandêmica.
Qual é o maior desafio operacional que o PMA enfrenta?
Logística em zonas de guerra. Você precisa de caminhões, navios, aviões. Mas também precisa de segurança. E frequentemente, a única segurança disponível é militar, o que complica sua neutralidade humanitária.