Cinco pontos sobre o Programa Mundial de Alimentos, Nobel da Paz 2020

Mais de 821 milhões de pessoas sofrem de fome crônica globalmente, com 135 milhões vivendo em insegurança alimentar aguda, número que pode aumentar 70% devido à pandemia.
Alimentar pessoas é um ato de paz em zonas de conflito
O PMA realiza dois terços de suas operações em áreas de guerra, onde comida é tanto necessidade quanto instrumento de poder.

Em outubro de 2020, o Comitê Norueguês do Nobel reconheceu no Programa Mundial de Alimentos uma das mais antigas e persistentes respostas da humanidade à sua própria vulnerabilidade: a fome. Fundado em 1962 a partir de um gesto que misturava altruísmo e interesse geopolítico, o PMA cresceu até se tornar uma das maiores operações logísticas humanitárias do mundo, presente onde guerras e desastres apagam a capacidade das pessoas de se alimentar. O prêmio chegou num momento de ironia sombria — quando a pandemia de COVID-19 ameaçava empurrar mais 130 milhões de pessoas para a fome, justamente quando os doadores que sustentam a organização enfrentavam suas próprias crises.

  • Com mais de 821 milhões de pessoas em fome crônica e 135 milhões em insegurança alimentar aguda, o PMA opera no limite de sua capacidade em zonas de conflito como Iêmen, Síria e Sahel.
  • A pandemia de COVID-19 ameaça adicionar 130 milhões de pessoas à fome global, transformando uma crise já grave em algo que a própria organização chama de 'pandemia de fome'.
  • O PMA evoluiu de simples distribuição de alimentos para programas complexos que combinam vales-compra, dinheiro em espécie, educação nutricional e atenção especial a mulheres grávidas e crianças — mas essa sofisticação exige recursos crescentes.
  • Com 17 mil funcionários e operações financiadas inteiramente por doações, a organização arrecadou 8 bilhões de dólares em 2019, mas seus porta-vozes reconhecem publicamente que esse montante já não é suficiente para o que está por vir.

Em outubro de 2020, a Academia Norueguesa anunciou que o Prêmio Nobel da Paz seria entregue ao Programa Mundial de Alimentos — uma organização que, por quase seis décadas, levou comida a territórios devastados por terremotos, secas, inundações e guerras.

O PMA nasceu em 1962 por iniciativa do presidente americano Dwight Eisenhower, que pediu à ONU uma agência dedicada à alimentação. Havia, nos bastidores, um interesse prático: escoar excedentes agrícolas americanos e ampliar influência nos países em desenvolvimento. Meses depois de sua fundação, um terremoto no norte do Irã matou doze mil pessoas — e o PMA respondeu com sua primeira grande operação de emergência. Em 1963, lançou seu primeiro programa de alimentação escolar.

Por volta de 2020, a organização havia se tornado uma máquina logística de escala impressionante: cinco mil e seiscentos caminhões, trinta navios e quase cem aeronaves em operação diária. Em regiões sem estradas, usava burros. No Iêmen, atendia dez milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda — a maior operação de emergência do mundo. Na Síria, mais de um milhão de mulheres e crianças recebiam assistência nutricional mensal.

O que diferenciava o PMA de outras agências era a sofisticação de sua abordagem. Ao longo das décadas, a organização deixou de simplesmente mover alimentos de um ponto a outro e passou a distribuir vales-compra, dinheiro em espécie e programas de educação nutricional — reconhecendo que a fome tem raízes tanto na falta de acesso quanto na falta de conhecimento.

Com dezessete mil funcionários e financiamento inteiramente baseado em doações governamentais, o PMA arrecadou oito bilhões de dólares em 2019. Mas o cenário de 2020 era sombrio: mais de 821 milhões de pessoas sofriam de fome crônica, e a pandemia de COVID-19 ameaçava adicionar 130 milhões a essa conta. O porta-voz Tomson Phiri reconheceu publicamente a necessidade urgente de mais recursos — mesmo sabendo que os doadores enfrentavam suas próprias crises econômicas. O Nobel chegou como reconhecimento, mas também como alerta.

Em outubro de 2020, a Academia Norueguesa anunciou que o Programa Mundial de Alimentos havia conquistado o Prêmio Nobel da Paz. A organização, com sede em Roma, havia operado por quase seis décadas em territórios devastados por terremotos, inundações, secas e guerras, levando comida e assistência nutricional a populações que não tinham como se alimentar.

A história do PMA começou em 1962, quando o presidente americano Dwight Eisenhower pediu à recém-formada Organização das Nações Unidas que criasse uma agência dedicada exclusivamente à alimentação. Nos bastidores, porém, havia um cálculo mais prático: o governo dos Estados Unidos queria escoar seus excedentes agrícolas e, ao mesmo tempo, fortalecer sua influência nos países em desenvolvimento. Poucos meses após sua fundação, um terremoto devastou o norte do Irã, matando doze mil pessoas. O PMA respondeu com sua primeira grande operação de emergência. Em 1963, lançou seu primeiro programa de alimentação escolar. Dois anos depois, foi integrado formalmente à estrutura das Nações Unidas.

Por volta de 2020, a organização havia se transformado em uma máquina logística de escala impressionante. Todos os dias, o PMA fretava o equivalente a cinco mil e seiscentos caminhões, trinta navios e quase cem aeronaves para mover alimentos e suprimentos. Em regiões remotas onde estradas não existiam, usava burros. Na Síria, mais de um milhão de mulheres e crianças menores de cinco anos recebiam assistência nutricional mensal. No Iêmen, a operação de emergência do PMA era a maior do mundo, atendendo a dez milhões de pessoas que viviam em insegurança alimentar aguda. A organização também operava na República Democrática do Congo, na Nigéria, em Burkina Faso, Mali, Níger e Sudão do Sul.

O que distinguia o PMA de outras agências humanitárias era a sofisticação de sua abordagem. Nos primeiros anos, sua tarefa era simples: pegar alimentos no ponto A e entregar no ponto B. Mas ao longo das décadas, evoluiu para programas que combinavam alimentação, educação e nutrição. Distribuía vales-compra e dinheiro em espécie, permitindo que as pessoas escolhessem o que comer. Treinava comunidades sobre higiene e prevenção de doenças. Reconhecia que crianças desnutridas sofriam tanto pela falta de acesso a comida quanto pela falta de conhecimento sobre como se alimentar bem. Mulheres grávidas e lactantes recebiam atenção especial. Tudo isso exigia coordenação constante com outras agências da ONU baseadas em Roma: a Organização para a Alimentação e Agricultura e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola.

Com dezessete mil funcionários espalhados pelo mundo, o PMA era inteiramente financiado por doações de governos. Em 2019, havia arrecadado oito bilhões de dólares. Dois terços de seu trabalho acontecia em zonas de conflito, onde a linha entre operações militares e humanitárias frequentemente se apagava. No Sahel, por exemplo, as organizações não-governamentais eram forçadas a operar com escoltas militares, complicando sua neutralidade e segurança.

Em 2020, porém, a situação global se deteriorava rapidamente. Mais de oitocentos e vinte e um milhões de pessoas sofriam de fome crônica. Outros cento e trinta e cinco milhões viviam em insegurança alimentar aguda. Nos quatro anos anteriores, esse número havia crescido quase setenta por cento. A pandemia de COVID-19 ameaçava adicionar mais cento e trinta milhões de pessoas a essa contagem, criando o que o PMA chamava de risco de uma "pandemia de fome". As regiões mais vulneráveis eram a América do Sul e a África Austral, Central e Ocidental. Tomson Phiri, porta-voz do PMA em Genebra, reconheceu publicamente que a organização precisava urgentemente de mais recursos dos doadores, mesmo sabendo que esses mesmos doadores estavam sob pressão extrema pelos impactos econômicos da crise sanitária em seus próprios países.

O PMA nasceu do desejo do governo americano de apoiar sua agricultura nacional, comprando os excedentes agrícolas nos Estados Unidos e distribuindo-os nos países em desenvolvimento
— Funcionário do PMA
Precisamos urgentemente de apoio adicional dos doadores, que estão sob grande estresse com o impacto da pandemia em seus próprios países
— Tomson Phiri, porta-voz do PMA em Genebra
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o PMA recebeu o Nobel da Paz e não, digamos, uma organização de direitos humanos ou de resolução de conflitos?

Model

Porque fome é uma arma de guerra. Quando você controla a comida, controla as pessoas. O PMA trabalha em dois terços de suas operações em zonas de conflito. Alimentar pessoas é um ato de paz.

Inventor

Mas o PMA nasceu de um cálculo americano sobre excedentes agrícolas, certo? Como isso se torna um prêmio de paz?

Model

Sim, começou assim. Mas as intenções originais não importam tanto quanto o que a organização se tornou. Seis décadas depois, ela evoluiu para algo muito maior que seus próprios fundadores imaginaram.

Inventor

A organização usa dinheiro em vez de apenas comida. Por quê?

Model

Porque respeito. Se você dá comida, você decide o que a pessoa come. Se você dá dinheiro ou vales, a pessoa escolhe. É a diferença entre caridade e dignidade.

Inventor

E quanto à pandemia? Parece que o PMA estava pedindo ajuda no momento exato em que os doadores tinham menos para dar.

Model

Exatamente. É um paradoxo cruel. Quanto mais pessoas precisam, menos recursos disponíveis. O PMA alertava que poderíamos estar à beira de uma "pandemia de fome" — não apenas fome, mas fome em escala pandêmica.

Inventor

Qual é o maior desafio operacional que o PMA enfrenta?

Model

Logística em zonas de guerra. Você precisa de caminhões, navios, aviões. Mas também precisa de segurança. E frequentemente, a única segurança disponível é militar, o que complica sua neutralidade humanitária.

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