O governo precisa emitir, mas o investidor prefere comprar outras coisas
Taxas de NTN-Bs atingem maiores níveis desde governo Dilma, acima de 7,6% ao ano, mas faltam compradores para o volume que o Tesouro precisa emitir. Alto endividamento público e déficit nominal de 9% do PIB forçam emissões recordes, enquanto fatores técnicos como redução de captação em VGBLs diminuem demanda tradicional.
- Taxas de NTN-Bs em 7,6% ao ano, maiores níveis desde governo Dilma
- Emissão de R$ 313 bilhões em 2025, maior volume desde 2021
- Déficit nominal em 9% do PIB força emissões recordes
- Captação em VGBLs caiu com cobrança de IOF acima de R$ 600 mil por mês
Gestores de crédito veem o mercado de NTN-Bs como disfuncional, com taxas reais em 7,6% ao ano insuficientes para atrair investidores no volume necessário para rolar a dívida pública.
Os gestores de crédito que acompanham o mercado de títulos públicos brasileiros estão usando uma palavra cada vez mais comum nos corredores: disfuncional. O mercado de NTN-Bs — aqueles papéis que prometem retorno acima da inflação — chegou em 2026 a patamares que não se viam desde os dias turbulentos do governo Dilma. As taxas reais médias rondam 7,6% ao ano, com picos ultrapassando 8%. É um retorno impressionante, o tipo de número que deveria atrair investidores de todo o país. Mas não está acontecendo, não no volume que o governo precisa.
O Tesouro Nacional enfrenta um problema estrutural: precisa emitir títulos para rolar uma dívida pública cada vez maior, mas os investidores simplesmente não estão comprando o suficiente. O déficit nominal voltou a rondar 9% do PIB, e o endividamento público segue elevado. No ano passado, o governo emitiu R$ 313 bilhões em NTN-Bs, o maior volume desde 2021 — praticamente equivalente a tudo o que foi emitido entre 2016 e 2019 somado. Neste ano, porém, o ritmo desacelerou drasticamente. No primeiro semestre, apenas R$ 114 bilhões foram emitidos, comparado aos R$ 200 bilhões do mesmo período em 2025.
O Tesouro tenta conter a situação reduzindo o tamanho dos leilões, cancelando operações e fazendo recompras de títulos. Mas esses movimentos oferecem apenas alívios momentâneos. Assim que o mercado respira, a pressão volta. Raphael Fritsch, sócio e CIO da Root Capital, uma gestora especializada em crédito, resumiu o dilema de forma clara: não há comprador marginal. O governo precisa emitir, mas o investidor prefere colocar seu dinheiro em outro lugar.
Parte da explicação está em fatores técnicos que reduziram a demanda tradicional. Os fundos de pensão, que historicamente eram grandes compradores de NTN-Bs, já estão bastante alocados nesses papéis. A captação em VGBLs — fundos de previdência privada — caiu após a cobrança de IOF em aplicações acima de R$ 600 mil por mês. Como esses fundos são compradores tradicionais de títulos públicos atrelados à inflação, especialmente os de prazos mais longos, a redução impactou a demanda. Um gestor resumiu a situação com certa amargura: o governo mirou o aumento da arrecadação e acabou dando um tiro no pé do refinanciamento da dívida.
Mas há também uma questão comportamental. Um retorno real de 8% é atrativo, concordam os gestores, mas 9% seria melhor ainda. Enquanto isso, muitos investidores preferem esperar por condições mais favoráveis. A volatilidade do mercado, especialmente em um ano eleitoral, destrói cotas de fundos de crédito. Existem opções mais rentáveis e previsíveis disponíveis. Além disso, produtos isentos de impostos começam a competir mais agressivamente com as NTN-Bs.
A história oferece uma lição interessante. Depois de 2016, quando o teto de gastos foi implementado, as taxas dos títulos públicos normalizaram. O Tesouro conseguiu emitir NTN-Bs a 4,4% em 2017, 4% em 2018 e 2,1% em 2019. Quem comprou a 8% no auge da crise de Dilma e vendeu nos anos seguintes ganhou dinheiro. A pergunta agora é se vale a pena comprar a esses níveis atuais.
Para um investidor disposto a manter os papéis até o vencimento e capaz de ignorar as oscilações de curto prazo, a resposta é sim. Garantir retornos entre 7% e 8% acima da inflação em títulos de baixo risco é um bom negócio, segundo os gestores consultados. Mas isso pressupõe paciência e uma visão de longo prazo — luxos que nem todos os investidores podem se dar. Sem uma solução à vista para as contas públicas, o mercado segue preso em um impasse: o governo precisa emitir, os investidores esperam melhores condições, e as intervenções pontuais do Tesouro não resolvem o desequilíbrio fundamental entre oferta e demanda.
Citações Notáveis
Não vemos comprador marginal. O governo precisa emitir, mas o investidor prefere comprar outras coisas— Raphael Fritsch, sócio e CIO da Root Capital
O governo mirou o aumento da arrecadação, e acabou dando um tiro no pé do refinanciamento da dívida— Gestor anônimo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que exatamente o mercado está vendo isso como disfuncional se as taxas estão tão altas?
Porque alto retorno não significa nada se não há quem compre. O governo precisa emitir R$ 313 bilhões para rolar a dívida, mas os investidores estão esperando para ver se as coisas melhoram. É como oferecer um preço ótimo e ninguém aparecer na loja.
E por que os fundos de pensão, que costumavam comprar bastante, pararam?
Eles já estão saturados. Compraram muito em 2025 quando uma nova regra permitiu marcar títulos na curva, reduzindo volatilidade. Mas aquilo foi pontual. Agora estão cheios de NTN-Bs.
O IOF nos VGBLs realmente fez tanta diferença?
Fez. Os fundos de previdência privada são compradores tradicionais de títulos longos atrelados à inflação. Quando você cobra IOF em aplicações acima de R$ 600 mil, reduz a captação e, portanto, reduz a demanda por esses papéis. Um gestor disse que o governo mirou a arrecadação e deu um tiro no pé do refinanciamento.
Então o investidor está esperando o quê, exatamente?
Melhores condições. Se a taxa subir para 9%, fica mais atrativo. Ou se o governo resolver o déficit de 9% do PIB, as expectativas caem e as taxas normalizam. Enquanto isso, há opções mais rentáveis e menos voláteis disponíveis.
Isso pode durar quanto tempo?
Ninguém sabe. Sem uma solução para as contas públicas, o Tesouro segue fazendo intervenções pontuais — reduzindo leilões, cancelando operações, recomprando títulos. Mas são band-aids. O desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda permanece.
Para quem está pensando em comprar agora, qual é o conselho?
Se você conseguir manter até o vencimento e ignorar as oscilações de curto prazo, garantir 7% a 8% acima da inflação em papéis de baixo risco é um bom negócio. Mas isso exige paciência que nem todo investidor tem.