O efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados simultaneamente
Por dois anos, mais de mil idosos em onze países latino-americanos participaram de um experimento silencioso, mas poderoso: o de viver de forma mais intencional. Publicado na revista The Lancet, o estudo Latam-Fingers demonstrou que a combinação de cinco hábitos — movimento, alimentação, cuidado cardiovascular, exercício mental e convívio social — retarda o declínio cognitivo com uma eficácia 55% superior à de orientações gerais. Em um continente onde milhões envelhecem sem diagnóstico e sem suporte, a ciência oferece não uma cura, mas uma bússola.
- Com 2,46 milhões de brasileiros vivendo com demência e 80% sem diagnóstico formal, o envelhecimento da população se aproxima como uma crise silenciosa e acelerada.
- O ensaio clínico Latam-Fingers desafiou a crença de que intervenções preventivas eficazes pertencem apenas a países ricos, testando sua estratégia em realidades marcadas por desigualdade e acesso limitado à saúde.
- A intervenção exigiu que os participantes abraçassem simultaneamente cinco frentes de mudança — e foi exatamente essa simultaneidade, não cada hábito isolado, que produziu o efeito significativo.
- Mais de 82% dos participantes completaram os dois anos de acompanhamento, sinalizando que a adesão em larga escala é possível mesmo em contextos de vulnerabilidade social.
- O próximo horizonte é integrar essa estratégia às unidades básicas de saúde do SUS, transformando um resultado científico em política pública acessível a toda a população.
Um ensaio clínico publicado na revista The Lancet demonstrou que cinco mudanças simultâneas no estilo de vida conseguem retardar o declínio cognitivo em idosos com risco elevado de demência. O estudo, chamado Latam-Fingers, acompanhou 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos durante dois anos em onze países da América Latina, incluindo o Brasil — a primeira vez que uma estratégia desse tipo comprova eficácia em larga escala em países de renda média.
Metade dos participantes seguiu um programa estruturado com cinco pilares: atividade física regular, alimentação saudável, controle de fatores cardiovasculares como pressão alta e colesterol, treinamento cognitivo e atividades de socialização. A outra metade recebeu apenas orientações gerais. Ao fim dos dois anos, ambos os grupos melhoraram, mas o grupo do programa estruturado evoluiu 55% mais. Os ganhos abrangeram memória episódica, atenção e funções executivas. Para o neurologista Paulo Caramelli, da UFMG, o segredo está na combinação: os cinco pilares precisam ser trabalhados juntos para que o efeito apareça.
O modelo foi adaptado de um estudo finlandês pioneiro, com ajustes práticos para a realidade local — em Belo Horizonte, por exemplo, as recomendações nutricionais consideraram o consumo habitual de carnes e a dificuldade de acesso a peixes. A adesão foi expressiva: mais de 82% completaram o acompanhamento, e os participantes do grupo estruturado seguiram, em média, 72% das atividades. A geriatra Claudia Kimie Suemoto, da USP, destacou que o efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países.
O cenário que torna esses resultados urgentes é grave: cerca de 2,46 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com demência, número que deve triplicar até 2050. O subdiagnóstico agrava o quadro — 80% dos casos não recebem diagnóstico formal, e muitas famílias só buscam atendimento quando a doença já está avançada. Os pesquisadores não afirmam que é possível impedir completamente a demência, mas reforçam que hábitos sustentados podem retardar o comprometimento cognitivo. O próximo passo é testar a estratégia nas unidades básicas de saúde para verificar sua viabilidade dentro do SUS, enquanto os participantes continuam sendo acompanhados por mais quatro anos.
Um estudo que acompanhou mais de mil idosos durante dois anos acaba de demonstrar que cinco mudanças simples no modo de viver conseguem retardar o declínio cognitivo em pessoas com risco elevado de demência. A pesquisa, publicada na revista científica The Lancet nesta segunda-feira, foi realizada em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, e marca a primeira vez que uma estratégia desse tipo mostra eficácia comprovada em larga escala em países de renda média.
O ensaio clínico, chamado Latam-Fingers, recrutou 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos que apresentavam fatores de risco para demência e desempenho cognitivo abaixo do esperado para sua idade. Os participantes vieram de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. Metade deles foi colocada em um programa estruturado que combinava cinco elementos: atividade física regular, alimentação saudável, controle rigoroso de fatores de risco cardiovasculares como pressão alta e colesterol, treinamento cognitivo e atividades de socialização. A outra metade recebeu apenas orientações gerais sobre hábitos saudáveis.
Ao final dos dois anos, ambos os grupos melhoraram sua função cognitiva, mas o grupo que seguiu o programa estruturado evoluiu significativamente mais. A melhora foi 55% superior à do grupo controle. Os ganhos foram observados não apenas na cognição geral, mas também em habilidades específicas como memória episódica, atenção e funções executivas — as capacidades ligadas a planejamento, organização e tomada de decisões. Para Paulo Caramelli, neurologista da Universidade Federal de Minas Gerais e um dos coordenadores brasileiros do estudo, o ponto crucial é que esses cinco pilares funcionam juntos. "Não se trata de recomendar isoladamente que a pessoa faça exercício ou tenha uma alimentação melhor. O que demonstramos é que o efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados simultaneamente", explica. Essa abordagem é particularmente importante porque a demência costuma resultar da combinação de diferentes processos biológicos, não de uma única causa.
O estudo adapta para a América Latina um modelo desenvolvido originalmente na Finlândia, que é considerado um marco na prevenção da demência. A novidade aqui é demonstrar que a estratégia funciona também em países de renda média, onde há maior desigualdade social, menor acesso a programas de prevenção e prevalência elevada de hipertensão, diabetes e colesterol alto sem tratamento adequado. As adaptações foram práticas: em Belo Horizonte, por exemplo, os pesquisadores ajustaram as recomendações nutricionais aos hábitos locais, considerando o maior consumo de carnes e gorduras e a dificuldade de acesso a alimentos como peixes. As atividades físicas em grupo e as ações de socialização tiveram boa aceitação entre os participantes brasileiros.
Os números mostram que a estratégia é viável na região. Mais de 82% dos participantes completaram os dois anos de acompanhamento, e aqueles no programa estruturado aderiram, em média, a 72% das atividades propostas. Embora tenham sido registrados eventos adversos, principalmente dores musculoesqueléticas relacionadas aos exercícios, nenhum evento grave ou morte foi atribuído à intervenção. Claudia Kimie Suemoto, geriatra da Universidade de São Paulo e integrante do comitê executivo do estudo, ressalta que a magnitude do benefício surpreendeu a equipe: o efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países.
O contexto que torna esses resultados urgentes é preocupante. Aproximadamente 2,46 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de demência hoje. Esse número deve quase triplicar até 2050 em razão do envelhecimento rápido da população. O cenário é agravado pelo subdiagnóstico: cerca de 80% das pessoas com demência no Brasil não recebem diagnóstico formal. Muitas famílias confundem os primeiros sintomas com o envelhecimento normal e só procuram atendimento quando a doença já está em estágio moderado ou avançado. Além disso, há dificuldades no acesso ao diagnóstico, principalmente fora dos grandes centros urbanos.
Os autores do estudo ressaltam que os resultados não significam que seja possível impedir completamente o surgimento da demência, mas reforçam que mudanças sustentadas no estilo de vida podem retardar o comprometimento cognitivo e reduzir o risco de progressão. Para Caramelli, a prevenção da demência deve passar a integrar as ações rotineiras da atenção primária, assim como já ocorre com hipertensão, diabetes e depressão. O próximo passo será testar essa estratégia dentro das unidades básicas de saúde para verificar se ela pode ser incorporada ao Sistema Único de Saúde e transformar os resultados científicos em benefícios concretos para a população. Os participantes continuarão sendo acompanhados por mais quatro anos para avaliar se os hábitos adquiridos durante a intervenção são mantidos e se os benefícios cognitivos persistem após o fim do acompanhamento intensivo.
Notable Quotes
O que demonstramos é que o efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados simultaneamente— Paulo Caramelli, neurologista e coordenador brasileiro do estudo
O efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países— Claudia Kimie Suemoto, geriatra da USP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que cinco mudanças funcionam melhor do que uma ou duas?
Porque a demência não é causada por um único mecanismo. Quando você trabalha apenas a alimentação, deixa de lado a pressão arterial descontrolada. Quando trabalha apenas exercício, não está treinando a memória. Os cinco pilares atuam simultaneamente sobre diferentes processos biológicos que levam ao declínio cognitivo.
O estudo foi feito na América Latina. Isso muda algo em relação aos resultados de países ricos?
Muda tudo. Aqui temos mais fatores de risco cardiovasculares mal controlados, menos acesso a programas de saúde, maior desigualdade. A janela de oportunidade para prevenção é enorme. E o efeito que observamos foi quase três vezes maior do que em estudos semelhantes em outros países.
Mas 80% das pessoas com demência no Brasil não recebem diagnóstico. Como essa pesquisa ajuda quem não sabe que está em risco?
Esse é o desafio real. A pesquisa mostra que a prevenção funciona, mas precisa chegar às pessoas. O próximo passo é testar isso nas unidades básicas de saúde, no SUS, para que não fique apenas em estudos científicos.
E se a pessoa não conseguir manter os cinco hábitos depois que o estudo terminar?
Essa é a pergunta que os pesquisadores estão fazendo agora. Vão acompanhar os participantes por mais quatro anos para ver se os hábitos adquiridos são mantidos e se os benefícios persistem. Não sabemos ainda se é preciso manter tudo ou se alguns pilares são mais importantes que outros.
Qual é o risco de uma pessoa sofrer um evento adverso grave seguindo esse programa?
Praticamente nenhum. Foram registradas principalmente dores musculoesqueléticas relacionadas aos exercícios, mas nenhum evento grave ou morte foi atribuído à intervenção. Mais de 82% das pessoas completaram os dois anos de acompanhamento.