Atividade física no lazer continua sendo privilégio dos socialmente favorecidos
Por uma década, pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanharam quase mil moradores da capital e confirmaram o que a cidade já sussurrava em suas ruas desiguais: o direito ao movimento no tempo livre não é universal. Entre homens brancos com alta escolaridade e mulheres de minorias raciais com menos estudo, a distância na prática de atividade física não apenas persistiu — cresceu. O corpo que descansa e se exercita ainda é, em grande medida, um privilégio de classe.
- O abismo entre os que se exercitam no lazer e os que não conseguem se alargou em dez anos: homens brancos escolarizados saltaram de 51% para 65%, enquanto mulheres de minorias raciais com menos estudo foram de 29% para apenas 39%.
- Para as mulheres mais vulneráveis, as barreiras são estruturais e se acumulam: trabalho doméstico desproporcional, salários menores, insegurança nos espaços públicos e periferias sem infraestrutura para o lazer.
- A caminhada como transporte — ir a pé ao trabalho — mostrou padrão inverso: sem associação com vulnerabilidade social, ela revela que o movimento de necessidade não é o mesmo que o movimento de escolha.
- Pesquisadores defendem políticas públicas integradas e citam as ciclovias paulistanas como modelo: ter uma a menos de 500 metros de casa foi determinante para aumentar o ciclismo entre moradores.
Durante dez anos, pesquisadores da USP acompanharam 978 moradores de São Paulo em três momentos distintos e chegaram a uma conclusão incômoda: a desigualdade no acesso à atividade física no lazer não apenas existe — ela cresce. Em 2014 e 2015, 51% dos homens brancos com escolaridade avançada se exercitavam no tempo livre. Entre mulheres pretas, pardas, asiáticas ou indígenas com menos anos de estudo, esse índice era de 29%. Ao final de 2023 e 2024, o primeiro grupo havia chegado a 65%, enquanto o segundo alcançava apenas 39%. O abismo se alargou.
Andreira Alexandra Machado Miranda, nutricionista que liderou o estudo, explica que atividade física no lazer não é questão de vontade. É moldada por estruturas sociais, econômicas e ambientais. Para as mulheres mais vulneráveis, as barreiras se acumulam: distribuição desigual do trabalho doméstico, menor remuneração, insegurança nos espaços públicos e falta de infraestrutura nas periferias — ruas sem iluminação, poucos parques, nenhuma ciclovia.
O estudo usou um índice de vulnerabilidade social acumulada que combinava sexo, raça e escolaridade — uma abordagem interseccional que revela como diferentes marcadores sociais se somam para criar experiências radicalmente distintas. Alex Antonio Florindo, coordenador do grupo, reforça que praticar atividade física depende de apoio familiar, acesso a ambientes adequados e políticas públicas que facilitem — ou dificultem — o exercício.
Um dado surpreendente emergiu ao analisar a caminhada como transporte: nesse caso, não houve associação com vulnerabilidade social. A adesão cresceu de 61,8% para 71,6%, com maior prevalência entre homens jovens, pretos e pardos com ensino médio. Para Miranda, isso indica que caminhar por necessidade de locomoção é diferente de escolher se exercitar — é uma obrigação cotidiana, não um privilégio de lazer.
Os pesquisadores defendem políticas públicas integradas que priorizem os grupos mais vulneráveis. As ciclovias implantadas em São Paulo nos últimos anos são citadas como exemplo: ter uma a menos de 500 metros de casa foi determinante para aumentar o ciclismo entre moradores. O próximo passo do grupo é investigar como atividade física e padrões alimentares se entrelaçam nas estruturas sociais que moldam a saúde.
Durante dez anos, pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanharam quase mil moradores da capital paulista e descobriram algo que parecia simples mas revelou-se profundamente desigual: quem consegue se exercitar no tempo livre, e quem não consegue, está cada vez mais separado por uma linha que divide a cidade em dois mundos.
Em 2014 e 2015, quando o estudo começou, 51% dos homens brancos com escolaridade avançada praticavam atividade física no lazer. Entre mulheres pretas, pardas, asiáticas ou indígenas com menos anos de estudo, esse número era 29%. Uma diferença considerável. Mas ao final de 2023 e 2024, quando os pesquisadores retornaram para a terceira avaliação, o quadro havia piorado: aquele primeiro grupo havia saltado para 65%, enquanto o segundo grupo chegava apenas a 39%. O abismo não apenas permanecia — havia se alargado.
Andreira Alexandra Machado Miranda, nutricionista que liderou a pesquisa, explica que atividade física no lazer não é simplesmente uma questão de vontade ou motivação pessoal. Ela é moldada por estruturas sociais, ambientais e econômicas que cercam cada pessoa. Para as mulheres dos grupos mais vulneráveis, as barreiras vão muito além da falta de tempo. Elas lidam com uma distribuição desigual do trabalho doméstico, ganham menos nos empregos que ocupam, enfrentam insegurança para frequentar espaços públicos e, dependendo do bairro onde vivem — especialmente nas periferias — encontram falta de infraestrutura urbana, ruas sem iluminação adequada e poucos espaços abertos para lazer.
O estudo, publicado em maio na revista International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, é pioneiro por acompanhar os mesmos 978 participantes ao longo de uma década, coletando dados em três momentos distintos. Os pesquisadores usaram um índice de vulnerabilidade social acumulada que considerava sexo, raça ou cor da pele e escolaridade, criando uma pontuação que ia de zero (menos vulnerável) a quatro (mais vulnerável). Essa abordagem, conhecida como interseccionalidade, permite ver como diferentes características sociais se combinam para criar experiências e oportunidades muito distintas.
Alex Antonio Florindo, coordenador do grupo de pesquisa, ressalta que a prática de atividade física depende de muito mais do que intenção individual. Envolve as experiências que as pessoas acumulam ao longo da vida, o apoio que recebem de familiares e amigos, e questões externas como acesso a ambientes adequados e políticas públicas que facilitem ou dificultem o exercício. Existe uma distância imensa entre quem tem condições de praticar atividade física no lazer e quem não tem, mesmo quando há vontade.
No entanto, o estudo revelou um padrão diferente quando analisou a caminhada como forma de transporte — ir a pé para o trabalho, por exemplo. Nesse caso, não houve associação significativa entre vulnerabilidade social e prática de atividade física. A adesão aumentou de 61,8% para 71,6% entre a primeira e a terceira avaliação, e a prevalência maior foi entre homens jovens, pretos e pardos, com ensino médio. Miranda interpreta esses resultados como indicativo de que caminhar no deslocamento é mais uma necessidade cotidiana do que uma escolha de lazer — as pessoas caminham porque precisam se locomover, não porque escolheram se exercitar.
Os pesquisadores defendem que políticas públicas integradas devem priorizar os grupos mais vulneráveis, expandindo oportunidades de prática de atividade física. Florindo cita como exemplo bem-sucedido a implantação de ciclovias em São Paulo nos últimos anos, que estimulou mais pessoas a pedalarem. Pesquisas do grupo mostraram que ter uma ciclovia a menos de 500 metros de casa foi determinante para aumentar o ciclismo entre os moradores. Agora, o próximo passo é relacionar atividade física com padrões de alimentação, continuando a investigar como as estruturas sociais moldam a saúde das pessoas.
Notable Quotes
A prática de atividade física no lazer não depende apenas da motivação ou de uma escolha individual. Ela é moldada por fatores ambientais, estruturais e sociais.— Andreia Alexandra Machado Miranda, nutricionista e autora correspondente do estudo
Existe muita distância entre quem tem ou não condições de praticar atividade física no lazer, mesmo que haja vontade— Alex Antonio Florindo, coordenador do grupo de pesquisa
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a desigualdade em atividade física no lazer aumentou justamente durante esses dez anos? O que mudou?
A pesquisa não explora as causas diretas dessa piora, mas o contexto importa. Homens brancos com mais escolaridade têm acesso crescente a academias, aplicativos de fitness, espaços seguros. Mulheres vulneráveis enfrentam pressões crescentes: mais trabalho doméstico, menos segurança nas ruas, infraestrutura urbana que não melhora nas periferias.
Mas a caminhada para o trabalho não seguiu esse padrão de desigualdade. Por quê?
Porque é necessidade, não privilégio. Quando você precisa chegar ao trabalho e não tem dinheiro para ônibus ou carro, você caminha. Não é escolha, é sobrevivência. Por isso distribui-se de forma mais uniforme entre os grupos.
Então você está dizendo que atividade física de lazer é um luxo?
Exatamente. É um luxo que requer tempo livre, segurança, espaço adequado, muitas vezes dinheiro. Mulheres que trabalham oito horas, voltam para casa com mais trabalho doméstico, não têm segurança para sair à noite — elas não têm esse luxo.
As políticas públicas podem mudar isso?
Podem, mas precisam ser estruturais. Não é só construir uma academia. É iluminar as ruas, é garantir segurança, é redistribuir o trabalho doméstico — o que é cultural, não apenas urbano. As ciclovias funcionaram porque criaram uma infraestrutura que beneficia quem tem bicicleta e segurança para pedalar.
E o que vem a seguir nessa pesquisa?
Agora querem entender como alimentação se conecta a tudo isso. Porque desigualdade em atividade física provavelmente caminha junto com desigualdade em acesso a alimentos saudáveis. É tudo conectado.