Cinco grupos disputam ministérios em eventual governo de Flávio Bolsonaro

Nem ganhou eleição, já está loteando o governo
Crítica de Fernando Haddad à antecipação de Flávio na distribuição de ministérios.
Mark

Como cinco grupos tão diferentes conseguem coexistir na mesma campanha? Não deveriam estar em conflito aberto?

Mimi

Estão em conflito, mas velado. Flávio ainda não venceu, então ninguém quer se expor demais. Todos estão apostando que ele ganha e depois tentam cobrar o que foi prometido.

Luke

Mas aqui está o problema: a gente não sabe o que foi realmente prometido. A reportagem mostra que esses grupos estão disputando, mas não temos informação sobre acordos formais. Isso é especulação dos bastidores.

Mimi

Verdade. O que sabemos é que Tarcísio viajou a Brasília e Goiânia, que Tereza Cristina está sendo cotada, que Flávio recebeu banqueiros em jantar. São sinais públicos de movimento.

Mark

E quanto ao núcleo familiar? Parece mais arriscado colocar gente condenada e com ordem de prisão em ministério.

Mimi

É arriscado, mas bolsonaristas dizem que Eduardo deve estar lá. A questão é se conseguem fazer os arranjos legais que mencionam.

Luke

Aí está: "arranjos que envolvam mudanças na legislação". Isso é vago demais. Que mudanças? Anistia? Impeachment de ministros do STF? A reportagem não especifica.

Mark

E os economistas? Parecem ter mais legitimidade técnica que os outros grupos.

Mimi

Têm, mas também estão em disputa. Marques preferia outra pasta, Kayath quer deixar claro que não é Guedes 2.0. Cada um está tentando se diferenciar.

Luke

Mas nenhum deles foi entrevistado diretamente sobre suas ambições. Sabemos que foram "apontados", que "aparecem em listas", que "foram citados". Quem está citando? Quem está apontando? Às vezes a fonte é um dirigente paulista, às vezes é bolsonaristas ouvidos. Isso é frágil.

Mark

Então a gente não sabe realmente o que vai acontecer.

Mimi

Não. Sabemos que há cinco grupos em disputa, que alguns têm mais poder que outros, que há tensões. Mas o resultado final depende de quem ganha o segundo turno e como Flávio decide negociar.

Luke

E há um detalhe importante: Lula está criticando isso tudo. Se Lula vencer, essa disputa toda vira irrelevante. A reportagem trata como se Flávio já tivesse ganho.

  • Flávio terminou primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula com 45,16%
  • Cinco grupos disputam ministérios: economistas ligados a Guedes, centrão, núcleo familiar, aliados de Tarcísio e nomes avulsos
  • Eduardo Bolsonaro, condenado a 4 anos e 2 meses de prisão, tem ordem de prisão ativa mas deve integrar eventual governo no Itamaraty

Flávio terminou primeiro turno à frente de Lula com 47,03% dos votos válidos, cercado por grupos da área econômica, centrão, família, Tarcísio e nomes avulsos disputando ministérios. Economistas como Daniella Marques, Adolfo Sachsida e Mansueto Almeida são cotados para Fazenda; Tereza Cristina (PP) para Agricultura; e Guilherme Derrite para Segurança Pública.

Flávio Bolsonaro avança ao segundo turno com 47% dos votos e já enfrenta disputa de cinco grupos políticos distintos por espaço ministerial, incluindo economistas ligados a Guedes, centrão, núcleo familiar e aliados de Tarcísio.

Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno em posição de força, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% do presidente Lula. Mas essa vantagem trouxe consigo um problema que cresce a cada dia: cinco grupos políticos distintos já estão em disputa aberta pelos ministérios de um eventual governo seu, e a tensão entre eles promete definir a forma de uma administração que ainda não começou.

O primeiro desses grupos reúne economistas e operadores financeiros. Nomes ligados a Paulo Guedes, ex-ministro da Economia de Jair Bolsonaro, circulam com força para as pastas de Fazenda e Planejamento. Daniella Marques e Adolfo Sachsida, ambos ex-integrantes da equipe de Guedes, foram apontados ao longo da campanha como possíveis ocupantes desses cargos. Alexandre Ywata, que substituiu Marques na Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade antes de chefiar a Caixa Econômica Federal, também deve integrar o time econômico. Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e atualmente no BTG, aparece em listas de cotados. Marcelo Kayath, ex-diretor do Credit Suisse que recebeu Flávio em um jantar com banqueiros durante a campanha, já concedeu entrevista apresentando sua visão para a pasta, deixando claro que se opõe ao modelo de superministério que Guedes comandou. Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central agora no Nubank, também tem sido citado para a Fazenda, assim como Alexandre Bettamio, do Bank of America.

O segundo grupo é formado pelo centrão. Durante a semana que se seguiu ao primeiro turno, PP, União Brasil, Republicanos e Podemos se alinharam oficialmente em torno de Flávio, e diretórios do MDB devem fazer o mesmo. A senadora Tereza Cristina, que chefiou a Agricultura no governo Bolsonaro, já foi citada tanto para a Casa Civil quanto para o Itamaraty. O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, também concorre pela Casa Civil. No União Brasil, o senador eleito Mauro Mendes, ex-governador de Mato Grosso, aparece como possível nome para a Agricultura, pasta que também foi mencionada para Ronaldo Caiado, do PSD, que declarou apoio a Flávio. No Podemos, há expectativa de que Flávio convide a presidente do partido, Renata Abreu, embora sem definição de pasta. No Republicanos, integrantes da sigla em São Paulo lembraram que o partido gostaria de indicar seu presidente, Marcos Pereira, para o Supremo Tribunal Federal.

O terceiro grupo é o do núcleo familiar bolsonarista. Aliados mais próximos do clã destacam que a família terá espaço no possível governo, mesmo que isso exija arranjos legislativos. O deputado federal Mario Frias é cotado para a Cultura caso Flávio vença e já está recrutando integrantes de sua eventual equipe. Marcos Degaut, ex-secretário de Produtos de Defesa que depois se tornou executivo da Edge Group, empresa dos Emirados Árabes que adquiriu o controle de empresas bélicas brasileiras, seria a opção para a Defesa. Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, está no exterior e teve uma ordem de prisão determinada por Alexandre de Moraes na última semana, mas bolsonaristas ouvidos pela reportagem afirmam que ele deve integrar um eventual novo governo, possivelmente no Itamaraty. Eduardo foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicialmente semiaberto, pelo crime de coação praticado nos Estados Unidos para intimidar o Judiciário brasileiro e impedir o julgamento da trama golpista.

O quarto grupo é composto por nomes ligados a Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo pelo Republicanos. Após um apoio mais discreto a Flávio no primeiro turno, Tarcísio viajou a Brasília e a Goiânia nos últimos dias para se mergulhar na eleição do aliado. Auxiliares de Tarcísio deram como certo à Folha que ele teria uma cota de indicados em um eventual governo, separada da fatia que couber ao Republicanos. Guilherme Derrite, senador mais votado do país pelo PP, seria um dos indicados para a Segurança Pública, em caso de separação entre essa pasta e o Ministério da Justiça. Renato Feder, secretário da Educação paulista já cotado para o MEC, é outro dos citados. Os outros dois nomes do grupo de Tarcísio vêm da área econômica e também têm no currículo trabalho com Guedes: Samuel Kinoshita, secretário de Fazenda, e Caio Paes de Andrade, secretário de Gestão que presidiu a Petrobras.

O quinto grupo reúne nomes de fora, pessoas com quem Flávio conta mas sem histórico público de interação política anterior. O médico Claudio Lottenberg, ex-presidente de instituições de saúde, foi apresentado por Flávio em agosto como seu nome para a Saúde, e em entrevista recente à Folha prometeu uma gestão técnica caso realmente assuma o cargo. Aldo Rebelo, ex-presidente da Câmara que desde 2024 se aproximou de Jair Bolsonaro, foi citado por um dirigente paulista como outro nome avulso. Deltan Dallagnol, ex-procurador da Lava Jato pelo Novo, obteve 2,9 milhões de votos no Paraná, mas sua candidatura ocorreu sub judice, e um grupo de aliados trabalha por um espaço no eventual governo para ele caso o TSE impeça sua posse no Senado. Flávio Roscoe, ex-presidente da Fiemg, que concorreu ao governo mineiro pelo PL, está sendo cotado para Desenvolvimento e Indústria, com empresários do estado encarregados desse lobby.

A campanha de Lula tenta desacreditar esse movimento. Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e candidato derrotado por Tarcísio em São Paulo, disse durante uma panfletagem na avenida Paulista na quinta-feira que o comportamento de Flávio é precipitado: "Nem ganhou eleição, já está loteando o governo. Não é assim". Mas a disputa pelos ministérios continua acelerada, com cada grupo tentando garantir seu espaço antes do segundo turno.

Nem ganhou eleição, já está loteando o governo. Não é assim
— Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda
Eu sou contra esse conceito de Posto Ipiranga
— Marcelo Kayath, ex-diretor do Credit Suisse, sobre o modelo de superministério
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