No Dia Nacional de Combate ao Fumo, a ciência lança um alerta que vai além do tabaco convencional: o cigarro eletrônico, vendido como alternativa segura, revela-se quatro vezes mais viciante e capaz de causar danos pulmonares imediatos e irreversíveis. Quase um em cada cinco jovens brasileiros entre 18 e 24 anos já o experimentou, tornando-o a principal porta de entrada para a dependência nicotínica em uma geração que acreditava estar protegida. A proibição existe desde 2009, mas o produto circula livremente — e o corpo humano não distingue entre o que é ilegal e o que é perigoso.
Cigarro eletrônico tem 4 vezes mais chances de viciar que o tradicional
Cicatrizes internas que nunca desaparecem
Por que o cigarro eletrônico vicia mais se supostamente entrega menos nicotina?
Entrega menos? Na verdade entrega muito mais — até 14 vezes mais concentrada. E chega ao cérebro mais rápido porque o vapor penetra profundamente nos pulmões. É como a diferença entre beber um copo de água e injetar água na veia.
Mas então por que foi vendido como mais seguro?
Porque no início, comparado apenas ao alcatrão e à combustão do cigarro tradicional, parecia menos prejudicial. Ninguém estava olhando para o vapor quente queimando as células dos pulmões. Ninguém tinha nomeado a EVALI ainda.
Os sabores — tutti-frutti, torta de limão — isso é acidental?
Não. Um fumante de 30 anos não quer gosto de doce. Quer alcatrão. Esses sabores foram desenhados para quem nunca fumou. Para jovens.
E a proibição desde 2009? Como ainda circula?
A lei existe. A Anvisa proíbe. Mas a aplicação é fraca. Os dispositivos entram pelo comércio eletrônico, pelas fronteiras. A lei não acompanha a realidade.
O que é mais preocupante — o vício ou as doenças?
Os dois, mas de formas diferentes. O vício prende a pessoa. As doenças — as cicatrizes nos pulmões, os cânceres — essas marcas são para a vida toda. Ou para o fim dela.
El Pulso
- Sabores de tutti-frutti e torta de limão não foram criados para fumantes veteranos — foram projetados para seduzir jovens que nunca haviam tocado em um cigarro.
- A nicotina no vapor eletrônico pode chegar ao cérebro em concentração até 14 vezes maior que no cigarro tradicional, criando dependência mais rápida e mais intensa.
- O dano alveolar causado pelo vapor quente é tão grave que os médicos o comparam ao sofrido pelas vítimas da tragédia da Boate Kiss — e as cicatrizes nos pulmões são permanentes.
- Apesar da proibição da Anvisa desde 2009, os dispositivos circulam nas ruas brasileiras e já alcançam 19,7% dos jovens adultos do país.
- A Associação Médica Brasileira e especialistas em pneumologia defendem a manutenção da regulação, enquanto uma geração inteira é exposta a riscos que julgava ter evitado.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, a ciência lança um alerta que vai além do tabaco convencional: o cigarro eletrônico, vendido como alternativa segura, revela-se quatro vezes mais viciante e capaz de causar danos pulmonares imediatos e irreversíveis. Quase um em cada cinco jovens brasileiros entre 18 e 24 anos já o experimentou, tornando-o a principal porta de entrada para a dependência nicotínica em uma geração que acreditava estar protegida. A proibição existe desde 2009, mas o produto circula livremente — e o corpo humano não distingue entre o que é ilegal e o que é perigoso.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, o alerta de 2022 não recaiu sobre o cigarro de sempre, mas sobre seu substituto moderno: o cigarro eletrônico. Dados do Covitel revelam que 19,7% dos brasileiros entre 18 e 24 anos já usaram o dispositivo — quase um em cada cinco jovens adultos do país.
O médico patologista Alexandre Todorovic Fabro explica que o vapor quente destrói os pneumócitos, células que revestem os alvéolos pulmonares. O dano é tão específico que ganhou nome próprio: EVALI. Para dimensionar a gravidade, Fabro compara o efeito ao sofrido pelas vítimas da Boate Kiss em 2013 — quem sobrevive ao dano inicial frequentemente desenvolve pneumonia com cicatrizes permanentes nos pulmões.
O pneumologista Paulo Antônio Morais Faleiros amplia o quadro: o cigarro eletrônico está associado a mais de dez tipos de câncer, incluindo o de bexiga, além de DPOC — a quarta maior causa de morte no mundo e a mais evitável. Os dispositivos também podem explodir durante o uso, causando fraturas na mandíbula.
O que torna o produto especialmente perigoso é seu apelo deliberado aos jovens. Sabores como tutti-frutti e torta de limão não foram criados para fumantes de longa data — foram projetados para atrair quem nunca fumou. E uma vez atraídos, o vício se instala com força: a nicotina chega ao cérebro em concentração até 14 vezes maior que no cigarro convencional, tornando o cigarro eletrônico quatro vezes mais viciante.
A Anvisa proíbe o produto desde 2009, e a Associação Médica Brasileira defende a continuidade dessa regulação. Mas a proibição não impediu que os dispositivos se espalhassem pelas ruas — e uma geração de jovens brasileiros paga o preço de uma escolha que acreditava ser segura.
Segunda-feira, 29 de agosto. É o Dia Nacional de Combate ao Fumo no Brasil, uma data que deveria servir como lembrete dos perigos do tabaco. Mas este ano, o alerta aponta para algo que muitos acreditavam ser mais seguro: o cigarro eletrônico. Os números são preocupantes. Entre jovens brasileiros de 18 a 24 anos, quase um em cada cinco — 19,7% — já experimentou ou usa regularmente o dispositivo, segundo dados do Covitel, um inquérito telefônico que rastreia fatores de risco para doenças crônicas durante a pandemia.
O que torna isso particularmente alarmante é o que a ciência está descobrindo sobre o que realmente acontece dentro do corpo quando alguém inala vapor de um cigarro eletrônico. O médico patologista Alexandre Todorovic Fabro explica que o dispositivo causa não apenas as mesmas doenças do cigarro convencional, mas também lesões mais imediatas e severas. O vapor quente, combinado com substâncias tóxicas, queima os pneumócitos — as células que revestem os alvéolos pulmonares, aqueles pequenos sacos onde o oxigênio entra na corrente sanguínea. O dano é tão específico que recebeu até um nome em inglês: EVALI, sigla para "E-cigarette or Vaping Associated Lung Injuries". Para ilustrar a gravidade, Fabro compara o efeito ao que aconteceu com as vítimas da tragédia da Boate Kiss em 2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, quando centenas de pessoas inalaram fumaça tóxica em um incêndio. Se a pessoa sobrevive ao dano alveolar inicial, frequentemente desenvolve pneumonia que deixa cicatrizes permanentes nos pulmões — marcas internas que nunca desaparecem.
Mas os pulmões são apenas o começo. O pneumologista Paulo Antônio Morais Faleiros aponta que o cigarro eletrônico afeta múltiplos órgãos. Está associado a mais de dez tipos de câncer, incluindo câncer de bexiga. Há também o risco físico direto: os dispositivos podem explodir durante o uso, causando fraturas na mandíbula. E depois estão as doenças clássicas do tabaco — o câncer de pulmão e a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, conhecida como DPOC, que é a quarta maior causa de morte no mundo e, paradoxalmente, a mais evitável.
O que torna o cigarro eletrônico particularmente insidioso é como ele funciona como porta de entrada para o fumo entre os jovens. Quando foi lançado, era comercializado como uma ferramenta para reduzir danos — uma forma de transição para quem queria parar de fumar. Mas o design moderno, os sabores variados e os aromas atraentes mudaram tudo. Ninguém que fuma há décadas quer um cigarro com gosto de tutti-frutti ou torta de limão, observa Faleiros. Esses sabores e aromas foram claramente projetados para atrair pessoas que nunca fumaram — especialmente adolescentes e adultos jovens.
E aqui está o problema mais profundo: o cigarro eletrônico vicia quatro vezes mais do que o cigarro tradicional. A razão é dupla. Primeiro, a nicotina atinge os pulmões, a corrente sanguínea e o cérebro muito mais rapidamente através do vapor. Segundo, a concentração de nicotina pode ser até 14 vezes maior do que em um cigarro convencional. Isso significa que alguém pode ficar dependente muito mais rápido e com muito mais intensidade. Há ainda uma complicação adicional: o fumo aumenta a quantidade de receptores para o vírus da Covid nas células, elevando o risco de infecção grave.
No Brasil, o cigarro eletrônico é proibido desde 2009 por regulação da Anvisa — a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Associação Médica Brasileira recomenda que essa proibição continue em vigor. Mas a realidade nas ruas é diferente. Os dispositivos circulam, são vendidos, são usados. E enquanto isso, uma geração de jovens brasileiros está sendo exposta a um risco que muitos acreditavam ter evitado ao escolher uma alternativa ao cigarro tradicional.
Citas Notables
O cigarro eletrônico causa as mesmas doenças que o cigarro comum e também lesões mais agudas, como a destruição de pneumócitos por queimadura provocada pelo vapor quente combinado às substâncias tóxicas— Dr. Alexandre Todorovic Fabro, médico patologista
Quem fuma há muitos anos não quer cigarro com cheiro de tutti-frutti ou gosto de torta de limão. Esses novos sabores e aromas são, claramente, chamativos para pessoas que nunca fumaram— Dr. Paulo Antônio Morais Faleiros, pneumologista